Kafue, Zâmbia, 23/07/2009 – – “Vejam, a agricultura de conservação rende!”, diz um cartaz à margem da movimentada estrada que liga esta localidade rural à capital de Zâmbia.
Os motoristas que passam pela estrada próxima às suas terras param para perguntar-lhe sobre suas técnicas agrícolas quando vêem a altura de seus pés de milho. Phiri possui terras no distrito de Kafue, 30 quilômetros ao sul de Lusaka, uma região produtora de milho. “Explicou a eles que é uma forma de cultivo que mudou minha vida”, disse Phiri à IPS, apontando os dois hectares dos quais espera obter este ano cerca de 500 quilos de milha em cada um e duplicar sua produção de 2008. “Há diferenças no rendimento, as espigas são maiores do que as obtidas em terra cultivada com trator. Tenho muito alimento, já não compro farinha de milho”, disse.
A maior produtividade lhe assegura boa renda. Além de manter uma família de 10 pessoas, incluídas sua mãe, uma tia, irmãos e irmãs, Phiri conseguiu comprar uma antena via satélite e um gerador elétrico. A poucos metros de sua casa, cerca de 50 porcos, que cria para completar sua renda e utilizar seu esterco com adubo. A agricultura de conservação chegou à Zâmbia há mais de 10 anos. Pelo menos 180 mil pequenos agricultores aplicam seus princípios, como a plantação direta, que permite manter no solo os resíduos da colheita anterior, que serve como fertilizante e conserva da umidade. Também são utilizadas técnicas baratas e sementes tradicionais, sem herbicidas ou variedades que os toleram.
Phiri tem dados concretos para provar seus benefícios. Em lugar dos US$ 180 que lhe custou alugar um trator por duas horas em 2008, este ano gastou US$ 45 para preparar a terra. O Centro Internacional de Melhoramento do Milho e Trigo promoveu a agricultura de conservação aplicando-a em pequenas áreas a título de demonstração, e assim conseguiu que fosse adotada neste país e no Zimbábue, segundo Christian Thiefelder. Mas, ainda restam obstáculos na África, reconhece. Entre eles, o controle do mato, a falta de animais de tiro, o inacessível preço de máquinas agrícolas e ferramentas adequadas, e, ainda, a dificuldade de mudar certas maneiras de pensar.
O arado se converteu no símbolo da agricultura e para muitas pessoas, inclusive agricultores pesquisadores e políticos, custa aceitar que é possível cultivar sem arar a terra. A ênfase em minimizar a perturbação do solo e manter sua cobertura permanente, além de conservar a água, ajuda para as raízes serem profundas. Assim, os cultivos são menos vulneráveis às secas, pois necessitam 30% menos água. Em condições de muita umidade, a agricultura de conservação favorece a absorção da água da chuva o solo, minimizando a erosão e o escorrimento superficial pela queda do terreno.
São necessárias ferramentas específicas como o arado cinzel, que reduz ao mínimo a perturbação do solo. “Com ele pude começar a plantar antes e notei diferenças de rendimento em relação ao arado comum”, afirmou Collins Mwinga, um produtor de milho da região de Mwachisompola, a 70 quilômetros de Lusaka. “Este ano espero produzir 97 sacas, 4.850 quilos, por hectare. Com o que ganhei com a venda do milho comprei duas reses e agora construo uma nova casa. Inclusive ajudei dois filhos a pagar a ‘lobola’ (dote) e pago a escola de meus outros nove filhos”, contou.
Os menores que trabalham é muito importante para os lares afetados pela Aids, onde a falta de país e mães joga a responsabilidade do trabalho agrícola sobre eles e os idosos, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Nas fazendas mecanizadas permite reduzir o gasto com combustível em 70% e a necessidade de máquinas em 50%. Mas, não há consenso sobre os benefícios da agricultura de conservação.
Existem organizações internacionais que a promovem com tanta ênfase que não há lugar para um debate sério, disse Ken Giller, professor da Universidade de Wageningen, na Holanda, que junto com três colegas publicou o artigo “Agricultura de conservação e pequenos agricultores na África: a visão herege”. Os “argumentos de seus supostos benefícios na África procedem de sua aplicação generalizada no continente americano, onde os efeitos do arado foram substituídos por uma forte dependência de herbicidas e fertilizantes”, diz o artigo. Giller e seus colegas argumentam que não se pode assumir de forma automática que a agricultura de conservação será benéfica para o sistema agrícola e para o sustento rural apenas porque foram registrados benefícios em certas propriedades.
Um sistema agrícola se baseia em distintos elementos que interagem entre si e está sujeito a várias limitações biofísicas, sócio-econômicas e culturais. Os pesquisadores afirmam que não há evidência empírica clara e contundente que apóie o argumento de que a agricultura de conservação aumenta o rendimento e diminui os requisitos de aragem e custo de produção. De fato, suas conclusões apontam para o contrário, menor rendimento, aumento do trabalho quando não se usa herbicida, tarefas adicionais que costumam recair sobre as mulheres, escassez de húmus pela menor produtividade e a prioridade dada à alimentação do gado com os restos dos cultivos.
“Concluímos que é urgente uma avaliação séria sobre quais são as condições ecológicas e sócio-econômicas sob as quais a agricultura de conservação convém aos pequenos produtores da África subsaariana”, recomendam os especialistas. Para Giller, é apenas uma entre várias opções para lidar com a necessidade de aumentar a produtividade agrícola nessa região. Há cépticos apesar de seus apregoados benefícios, reconhece Collen Nkatiko, gerente da Unidade de Agricultura de Conservação do Sindicato Nacional de Agricultores de Zâmbia,criado em 1995. “A característica mais importante é que a agricultura de conservação deve ser praticada deve ser praticada para sempre. Demorou 15 anos para decolar no Brasil e pode ser implementada na África’, afirmou Peter Aagaard, defensor dessa técnica.
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A agricultura de conservação se aplica em cerca de cem milhões de hectares no mundo. Na África é muito pouco utilizada e ocupa menos de 4% da área total cultivada. Na África austral poucos países a incorporara porque se desconhece a técnica e seus possíveis benefícios, por falta de discussão sobre as provas documentadas e porque têm muito pouco ou nenhum apoio político nem existem pesquisas, segundo a FAO. Em Zâmbia, a agricultura de conservação é aplicada em cerca de 325 mil hectares, segundo Bernarde Namachila, secretário permanente do Ministério da Agricultura e Cooperativas. Espera-se que aproximadamente 240 mil famílias adotem a técnica até 2011 como forma de melhorar a segurança alimentar.
Mais de 80% da população da África austral dependem diretamente da agricultura, por isso uma grande proporção de pessoas fica vulnerável diante das mudanças sócio-econômicas e da natureza. Os principais fatores de debilidade são baixa produtividade, condições ambientais extremas devido à mudança climática e alto custo dos insumos, diz a FAO. Com uma situação já comprometida por baixa renda e rendimentos devido ao aumento do HIV/aids, fica cada vez mais difícil para as famílias pobres lidarem com essas dificuldades, o que agrava a situação alimentar. IPS/Envolverde


