HARARE, 14/07/2009 – Com metade do seu corpo submergido num pequeno lago lamacento de cor avermelhada, Esther Nyarambi examina cuidadosamente a sua peneira de madeira, conhecida localmente por zamba. Depois de passar todo o dia a bater na rocha aurífera, ela tem esperança que os seus esforços sejam recompensados, nem que seja pela mais pequena pepita de ouro. Como acontece com a maior parte dos garimpeiros de ouro nas zonas de Nyamahumbe e Chishapa, no distrito de Shamva, rico em ouro e localizado na província central zimbabueana de Mashonaland, Nyarambi adiciona despreocupadamente uma colher de mercúrio ao zamba, para extrair o metal precioso.
Pouco sabe sobre o nível de toxicidade do mercúrio e os enormes problemas de saúde a que se expõe. Com as mãos desprotegidas, esta mulher de 26 anos mistura os ingredientes na peneira de madeira até que o mercúrio líquido começa a envolver as pequenas partículas de pó de ouro, formando uma pepita.
O Dr. Cleopas Sibanda, especialista de saúde ocupacional, diz que o mercúrio destrói as extremidades dos nervos e provoca mudanças no estado de espírito das pessoas. “Os indivíduos expostos a este metal mostram sinais de irritabilidade, mudanças no seu estado de espírito, corpo nervoso e gengivas a sangrar. A incapacidade de se concentrarem também tem sido confirmada naqueles que estão expostos a este metal”, disse à IPS.
“O mercúrio é uma ameaça específica para as mulheres grávidas e para os seus bébes ainda não nascidos”.
Desesperados para encontrarem ouro e também uma saída para a pobreza, Nyarambi e os seus colegas garimpeiros não estão preocupados com os potenciais riscos para a saúde.
“É fácil e rápido usar o mercúrio quando se extrai o ouro em pó do minério. Depois de se triturar as pedras que contêm o minério, o mercúrio torna o trabalho mais fácil e remove todas as impurezas do ouro”, explica Nyarambi.
“Tenho ouvido dizer que causa problemas de saúde se a pessoa inalar o produto, mas não faço isso. Só uso o mercúrio para juntar os pequenos fragmentos de ouro. Uso o mercúrio há cinco anos e nunca tive nenhum problema”, acrescentou.
Milhares de jovens pobres e desempregados foram para o distrito de Shamva, onde se diz que existem ricas jazidas de ouro aluvial, com a esperança de ficarem ricos. No passado, vários garimpeiros ilegais conseguiram acumular uma fortuna fácil nesta zona e montaram negócios de transporte e venda a retalho com o dinheiro obtido com o ouro.
Riscos para a saúde
Apesar do lançamento de uma operação policial intitulada Operação Chikorokoza Chapera (Operação Acabar com a Extracção IIegal) há dois anos, a polícia não conseguiu travar os mineiros, ou makorokoza, como são chamados na língua shona. Com uma grama de ouro a ser vendida por 20 dólares, enquanto que a onça, ou seja 23.3 gramas, é vendida por valor superior a 900 dólares no mercado internacional, os garimpeiros dizem que farão tudo para encontrarem ouro.
“Isto é o que se chama fazer dinheiro. O dinheiro está em primeiro lugar e a saúde em segundo. É simples, dinheiro ou saúde”, disse Pfimbikai Mate, um dos makorokoza que tem ganho a sua vida nos últimos seis anos a extrair ouro.
Em Janeiro, o Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) afirmou que só seis por cento dos zimbabueanos está a trabalhar no sector formal, por comparação com os 30 por cento que trabalhavam neste sector em 2003. Esta acentuada queda deve-se principalmente à situação política e económica instável do país, juntamente com secas repetidas que causaram uma insegurança alimentar generalizada.
Mate explica que os compradores de ouro privados no Zimbabué criaram um mercado para os garimpeiros através do contrabando do metal precioso para a China, África do Sul e Angola. Fornecem mercúrio aos garimpeiros para aumentar a produção, sem lhes explicar os perigos para a saúde que estão associados ao uso deste metal.
Redes de contrabando
O mercúrio está registado como substância altamente perigosa pela Agência de Gestão do Meio Ambiente do Zimbabué (EMA). O Director da Agência, Phillip Manyaza, reconhece que, até agora, a agência falhou o seu objectivo de controlar e regular a importação de mercúrio proveniente da África do Sul e da Europa, identificadas pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente como os principais pontos de origem do mercúrio usado no Zimbabué. Acrescenta ainda que não tem sido fácil aplicar a legislação existente contra o uso pouco seguro e a importação não autorizada do metal.
A lei estipula que deve ser imposta uma pena de prisão aos indivíduos e companhias que trazem o mercúrio para o país sem autorização, mas os contrabandistas facilmente importam esta substância tóxica, explicou.
“Temos boa legislação contra o uso de substâncias perigosas, mas a aplicação tem sido difícil. A polícia não tem conhecimentos especializados e não tem o equipamento necessário (nem veículos suficientes) para fiscalizar o número crescente de garimpeiros de ouro. É um problema.” admitiu Manyaza.
A extracção de ouro também tem um impacto negativo no meio ambiente. A alguns quilómetros do principal local de escavação, no distrito de Shamva, o Chefe Bushu, admnistrador cultural da área, afirma que casas inteiras têm desabado porque os mineiros arrancam solo e grandes pedregulhos à procura do ouro, escavando túneis subterrâneos instáveis.
O meio ambiente devastado é prova do trabalho dos makorokozas, trabalho esse que cria profundas crateras em resultado dos túneis desmoronados, que se transformam em armadilhas mortais para o gado e para os seres humanos. Os garimpeiros também são responsáveis pela destruição de uma variedade de flora e fauna protegidas, além de deixarem o solo vulnerável à erosão.
De acordo com o PNUA, a mineração e a exploração de ouro em pequena escala é a segunda maior fonte de poluição do meio ambiente pelo mercúrio a nível mundial.
Até a culturalmente reverenciada figueira, cujo abate é proibido na cultura shona visto que é considerada local de habitação dos espíritos ancestrais, não tem sido poupada. O seu tronco é usado para esculpir as peneiras de madeira, os mazamba.

