Roma, 17/07/2009 – O setor agrícola da América Latina e do Caribe é poderoso.
IPS – Quais são os efeitos da recessão na agricultura da América Latina: existe risco de um aumento da pobreza rural?
Josefina Stubbs – Embora possa soar um tanto estranho, a crise financeira apresenta uma oportundiade para o setor rural, porque os países, os governos, as populações e os produtores cada vez mais se dão conta de que na América Latina cerca de 60% dos alimentos que consomem são cultivados por pequenos produtores. Em um País como o Brasil, com mais de 189 milhões de habitantes, a agricultura familiar – em um terreno de pequena escala, normalmente manejado por gente muito pobre – produz 70% dos alimentos. Estamos falando de uma força enorme, não apenas em termos da quantidade de empregos na produção em pequena escala. O potencial destas pessoas é simplesmente extraordinário.
O caso do Brasil é realmente interessante. O Ministério do Desenvolvimento Agrário criou um sistema de apoio aos pequenos produtores para que produzam alimentos e tenham acesso ao financiamento de novos modelos, mas, ao mesmo tempo, garantindo um mercado. Além disso, compram os alimentos de alguns destes produtores para distribuir em escolas e hospitais. O Brasil demonstra que os agricultores podem ter algum mercado no País que adquire seus produtos para alimentar o restante da população e gerar renda para os setores rurais.
IPS – O Brasil é uma exceção
JS- Outro exemplo é a Guatemala. Os acordos internacionais de comércio e outras oportunidades oferecem aos agricultores guatemaltecos possibilidades para colocar seus produtos no mercado. Nos últimos 10 ou 15 anos, esse país se converteu no maior exportador de verduras para os Estados Unidos graças a produtores de escala muito pequena.
IPS- Qual relação há entre este fenômeno e a crise financeira?
JS- No Haiti, na Guatemala e em outros países me disseram? “Importamos grande quantidade de alimentos para dar comida ao povo”. Comprar alimentos nos mercados internacionais significa que temos de prescindir de nossa divisa. Isso, na América Latina, significa usar dólares. Cada dólar usado para importar alimento é um dólar que não se pode usar para fornecer serviços dentro do país. A mesma lógica se aplica em Cuba e no Haiti, que se encaminham para enfrentar sérios problemas de escassez de alimentos.
Espero que os debates sobre a crise incluam o desenvolvimento rural e o investimento na agricultura de pequena escala como meio de entrada de divisas estrangeiras, mas, também em termos de geração de emprego e garantia da segurança alimentar. O desafio é como estimular a agricultura como meio de promover a economia dos países e criar empregos, mas também como mecanismo para fechar a brecha. Os avanços que mencionei antes têm de se combinar com a produção. Esse é o grande desafio que temos pela frente na região.
IPS- A insegurança alimentar na América Latina preocupa? Em que áreas?
JS- A insegurança surge na medida em que um país se torna dependente de outros para alimentar sua população. A região está reconhecendo que a segurança alimentar é importante, que não pode depender totalmente da importação de comida, devido às flutuações do mercado internacional. América Central e Caribe é a região que mais sofreu nesta crise. Quando há escassez de milho, no caso do México, significa carências na dieta, mas, também de alimento para os frangos. Significa que é preciso importar muito trigo para fabricar pão.
O que realmente me surpreende é ver quantos pequenos produtores em toda América Latina precisam apenas do básico. Não se sentam para esperar pelo governo: simplesmente necessitam de insumos básicos para produzir, se organizarem e ter acesso ao mercado. Não são necessariamente dependentes.
IPS- As oportunidades entre a população rural masculina e feminina são distribuídas equitativamente? As agricultoras têm um acesso igualitário à terra, a créditos e a salários?
JS- Embora pareça ir contra o que comumente se acredita, quase todos os países da América Latina reformaram suas leis para que as mulheres tenham acesso igual aos homens à terra e à sua propriedade. Mas, está claro que o problema não tem somente a ver com o acesso à terra. A questão é que as mulheres têm mais problemas para conseguir um empréstimo bancário. Não contam com acesso equitativo ao credito nem aos insumos agrícolas, como sementes e fertilizantes. Aí está o problema agora. E é precisamente ali onde somos rigorosos em nossos projetos, por exemplo, em países como o Haiti.
Não estamos assegurando que as organizações comunitárias com as quais trabalhamos incluam as mulheres. Trabalhamos diretamente com organizações femininas para ter o controle de que nosso projeto as ajude realmente a ter acesso aos insumos. A questão já não está na lei, mas na prática, e em como controlamos de modo responsável que as mulheres tenham realmente oportunidades equitativas.
IPS- Onde é preciso um controle particular?
JS- Uma área em que ainda estamos atrasados é o acesso das mulheres ao mercado. Uma vez que busquem as organizações de produtores e queiram se vincular às companhias compradoras, há uma brecha. Porque elas não têm a informação, os contatos, a tecnologia. Normalmente, não vão às reuniões com os compradores estrangeiros. Cada vez que há uma viagem para apresentar um produto vês-se, majoritariamente, homens. Penso que é preciso movimentar o debate e olhar o intangível – os serviços, o acesso à informação -, porque é ali onde as mulheres estão sendo deixadas para trás. E isto apesar de as mulheres ainda serem as maiores produtoras de alimentos para as famílias e as comunidades, e tudo o que vai ao mercado próximo é produzido por elas. IPS- A senhora vê alguma possibilidade de os agricultores poderem participar do debate sobre a mudança climática, que tanto os afeta?
JS- A agricultura gera uma quantidade impressionante de dióxido de carbono, devido ao uso de produtos químicos e fertilizantes. Cremos que se integrarmos melhor as práticas de manejo ambienta e da mudança climática no setor a agricultura de pequena e grande escala pode contribuir para um clima melhor. Também necessitamos incluir a silvicultura. Por motivos ambientais e também porque na América Latina são os pobres que vivem nas florestas que mantêm vivos os ecossistemas. Os indígenas são os melhores guardiões das florestas. Isto já está demonstrado.
IPS- Como as populações originárias e pobres podem ter acesso aos benefícios da captura de carbono, quando seus direitos sobre a terra são precários ou, diretamente, não existem?
JS- Podem se beneficiar se os instrumentos estiverem adaptados para beneficiar os mais pobres. Neste momento, o sistema não ajuda os mais pobres. É tão complicado que para que essas comunidades tenham acesso a ele teriam de contar com um exército de especialistas em capturar carbono. IPS/Envolverde


