AMÉRICA LATINA: “Na crise, maior poder aos pobres”

La paz, 02/07/2009 – Soluções inovadoras diante da crise, ampliar serviços e tecnologias para os setores sociais afetados e construir democracia em torno de iniciativas da sociedade civil é a fórmula para reduzir a pobreza sugerida aos governos latino-americanos por Roberto Haudry, responsável do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida) para a região andina.

Roberto Haudry - Franz Chávez/IPS

Roberto Haudry - Franz Chávez/IPS

Em entrevista à IPS, o gerente de operações do Fida para Bolívia, Colômbia, Equador e Peru exorta os líderes da região a mudarem os modelos econômicos que aprofundaram a brecha social e acabar com “as democracias de brinquedo” contrárias à transferência maciça de recursos e poder aos mais pobres.

Haudry observa com expectativa a abertura cultural e de um novo espaço de relações diplomáticas do novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para a América Latina e aconselha os líderes locais a tomarem iniciativas audazes para criar alianças com a sociedade civil, empresas e universidades dos EUA.

IPS- Qual o impacto da crise financeira internacional na América Latina?

Roberto Haudry – A crise financeira internacional não afetou em demasia a América Latina, pelo menos até agora, que está crescendo bem, mas o impacto foi crucial nos Estados Unidos e na Europa. O primeiro efeito foi sentido na redução das remessas de dinheiro pelos imigrantes, que representam a principal fonte de renda dos cidadãos da América Latina. A cooperação internacional não chega a faturar mais de US$ 10 bilhões porque os fluxos são negativos: pagamos mais do que recebemos. A fonte mais importante de todas é o investimento privado, que diminuiu com a crise.

As remessas que totalizavam US$ 100 bilhões caíram em US$ 20 bilhões e os efeitos são muito sérios, porque boa parte é usada para saúde, educação e alimentação. No caso da Bolívia baixaram 20% e no México a porcentagem é semelhante. Creio que os próximos sinais de recuperação voltarão a colocar as remessas em seu lugar. Isso é o que todos esperamos.

IPS- Em consequência, qual o caminho a escolher após este período difícil para as finanças internacionais?

RH- O que esta crise sugere é que não podemos propor mais do mesmo, e devemos ser inovadores e nos associarmos aos cidadãos que enviam remessas para multiplicar o valor desses investimentos. Essa é a primeira prática de combater a pobreza. Outra é o uso da tecnologia. Não podemos permitir que os camponeses não disponham de um telefone celular, uma conta bancaria, um seguro de vida, de uma série de mecanismos tecnológicos e de visão social para romper o primeiro problema da América Latina que é de a desigualdade.

Em uma localidade que fica a cinco ou 10 horas de um hospital, um celular com câmara pode ajudar em caso de emergência para consultar sobre as medidas prévias ao transporte de um ferido, e usando o idioma do lugar. Usemos a tecnologia de ponta. Ao mais pobre e fraco, maiores serviços tecnológicos para reduzir a brecha. O problema não é apenas crescer, mas reduzir desigualdades.

IPS- Como observa o curso dos países latino-americanos com uma diversidade de enfoques sobre a forma de resolver a pobreza?

RH- Todos os países têm diferentes formas de fazer as coisas e cada democracia decide com fazê-las. Não creio que repetir o que foi feito nos últimos 25 anos, sem modificações, nos leve a um lugar diferente que não seja o crescimento com desigualdade, que tem sido a característica da América Latina nos últimos 20 anos. Qualquer que seja a opção democrática das políticas públicas, acredito que o tema central é reduzir a iniquidade com transferências maciças de tecnologia para os mais pobres.

A outra parte da equação é quanto perder com os pobres. Quantos recursos eles mesmos administram em suas próprias iniciativas e sob suas próprias formas democráticas? Uma democracia não é um pensamento único sem governo central, mas sim um conjunto de cidadãos desenvolvendo suas próprias iniciativas em um contexto público que favorece a iniciativa do cidadão. Qualquer mecanismo democrático na América Latina que signifique transferências maciças de recursos aos pobres, para que eles desenvolvam suas iniciativas econômicas, é o que estamos buscando.

Não buscamos mecanismos de intermediação para dar recursos a um ministério e depois que este os dê a uma instituição e que, quando chega o momento, sejam entregues três pesos aos camponeses e quatro cursos de capacitação. Não! Se não fizermos transferências maciças de recursos e poder aos mais pobres vamos continuar tendo democracias de brinquedo que se mentem continuamente. Mas, mentira não é um tipo de solução.

IPS- Quanta semelhança há entre as políticas do presidente Barack Obama nos Estados Unidos, que restituem ao Estado do papel de promover a reativação econômica, e os modelos aplicados na América Latina?

RH- Há muitas semelhanças com a administração de Obama e o que podemos fazer na América Latina, em particular no fortalecimento do papel dos Estados e das instituições democráticas, muito acima das opiniões messiânicas de alguma classe dirigente ou das atitudes guerreiras. Há um espaço enorme e muito fértil de colaboração com os Estados Unidos. Mas, também existe uma diferença gigantesca. O que Obama faz é emissão monetária para salvar suas empresas e a posição dos Estados Unidos no mundo. Espero que nenhum governo nosso se contagie com a ideia de imprimir dinheiro para financiar alguma atividade que considere essencial.

No médio prazo, a política pública norte-americana levará a uma desvalorização maciça dos valores de nossa economia que estão muito vinculados ao dólar. Creio que em matéria de política monetária os nossos Estados devem ser extremamente conservadores e não presumir que nada está acontecendo, especialmente com o dólar.

IPS- E como alcançar uma relação de equilíbrio e cooperação mútua entre a região e os Estados Unidos para sair da crise?

RH- Os Estados Unidos estão importando uma série de tecnologias de luta contra a pobreza que desenvolvemos no Terceiro Mundo e creio que o papel de muitos de nossos países é ajudar os Estados Unidos a saírem de sua crise a partir de nossas experiências. Por exemplo, na África do Sul e no Malwi foi desenvolvida a tecnologia de transferência bancária por celular e no sul da África há mais de três milhões de pobres que usam este método para transferências e compras. Essa tecnologia foi introduzida nos Estados Unidos apenas no ano passado, e causa furor. Compreende desde sistemas de compras em supermercados até sistemas maciços através do celular.

Uma das maneiras que temos para reforçar o sistema financeiro norte-americano é fazendo os pobres usarem instrumentos mais familiares e de fácil manejo como o banco via celular. Aí há uma enorme fonte de cooperação que deve ser recíproca e podemos apoiar sua população afro-latina. Na Colômbia temos um programa que tem a intenção de oferecer, a médio prazo, à juventude afro-norte-americana a possibilidade de ver experiências de grupos e comunidades rurais negras da América Latina para verem como elas vivem.

Esse é o tipo de colaboração que queremos no mundo, de intercâmbio e que possa gerar no futuro negócios solidários entre jovens de um bairro de Chicago com gente dos yungas (La Paz) na promoção da música ou aprendendo com a tecnologia.

IPS- Qual o caminho para atingir melhores relações com os Estados Unidos?

RH- A administração Obama nos dá um espaço cultural de poder para nos relacionar e é uma grande oportunidade, seja qual for a decisão democrática de um Estado. Os vínculos com os Estados Unidos devem ser reinventados e não podem estar marcados pelo passado. Como dizia Antonio Gramsci (teórico marxista italiano): a política não é apenas a arte do possível, mas na política tudo é para frente. É preciso ser audaz e quem não tem iniciativa em política perde. Devemos nos relacionar com a sociedade civil norte-americana, com as empresas, as universidades e o governo. IPS/Envolverde

Franz Chávez

Franz Chávez es corresponsal de IPS en Bolivia desde noviembre de 2003. En busca de una cobertura adecuada de la compleja realidad boliviana, en especial para una audiencia internacional, Chávez se focaliza en esos temas en general ignorados por los grandes medios, poniendo esfuerzo en el contexto de uno de los países más pobres de América Latina. Nacido en La Paz, Franz trabajó para Radio Cristal entre 1985 y 1990, y luego formó parte del equipo editorial de los canales de televisión 2, 4, 7 y 11. Fue uno de los fundadores de los diarios La Razón, en el que se desempeñó entre 1990 y 1995, La Prensa (1998-201), y La Prensa-Oruro. Estudió sociología y comunicación en la Universidad Mayor de San Andrés en La Paz.

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