MULHERES-PERÚ: Educar-se nas áreas rurais é uma proeza

Wawas, Peru, 14/07/2009 – Maria Belén Sabio, uma indígena awajún de 30 anos, conseguiu terminar seus estudos superiores de professora com seus cinco filhos nas costas.

 - Milagros Salazar/IPS

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“A vida no campo não é fácil, foi difícil prosseguir”, afirmou à IPS no nordeste da Amazônia peruana.

Nem todas as mulheres nativas podem seguir seus passos, a maioria fica no meio do caminho e só chega até o primário, afirmam estudos e especialistas.

O trânsito das mulheres pelas escolas é uma história incompleta. A oferta educacional cresceu e os números oficiais mostram que a cobertura educativa em geral supera os 90%, mas as meninas, adolescentes e jovens das zonas rurais são o elo mais fraco da cadeia educacional.

“Meus filhos também estudam porque somente assim poderão ter maiores oportunidades para eles e a comunidade. Mas o governo não facilita para que a carga seja menosprezada para nós que vivemos longe das cidades”, insistiu Sabio, que vivem na comunidade de Wawas, na província de Bagua, dentro da região nordeste da Amazônia.

Os inusitados protestos indígenas que em junho tiveram como epicentro esta região, chamaram a atenção para o cenário de exclusão em que vivem os povos indígenas e que desafia os esforços coletivos para reduzir iniqüidades e construir cidadania, alertáramos especialistas.

Os maiores problemas de escolaridade nas regiões rurais, onde vivem majoritariamente os povos originários, apresentam-se na fase inicial entre os 3 e os 5 anos, e nos cursos secundários entre 12 e 17 anos.

Na fase inicial, 56,5% das meninas da área rural ficam fora do sistema educacional contra 58,1% dos meninos, segundo a Pesquisa Nacional de Famílias de 2002. Entre os 12 e os 17 anos, 25,6% das adolescentes das zonas rurais abandonam a escola, enquanto o abandono entre os homens é de 18,3%.

A diferença fica mais evidente ao contrastar os números rurais e urbanos. Setenta e dois por cento dos estudantes urbanos concluem seus estudos secundários, enquanto apenas 36% dos rurais o fazem, segundo os números mais atualizados do Ministério da Educação.

No total, 426 mil meninas de áreas rurais engrossam o milhão e meio da população da faixa etária entre 2 e 17 anos que, em nível nacional, não estão matriculados nem freqüentem um centro ou um programa educacional, diz o estudo “As desigualdades de gênero na educação de zonas rurais”, da pesquisadora Carmen Montero.

Múltiplas causas do abandono

“As mães não mandam suas filhas à escola quando ficam maiores, porque preferem que as ajudem a cuidar dos irmãos menores ou nos afazeres domésticos”, disse à IPS o professor Fidel Datsa, de uma escola em Wawas.

A responsável pela educação da não-governamental Agência de Cooperação IBIS, da Dinamarca, Elena Burga, explicou à IPS que existem razões geográficas, sociais, culturais e econômicas relacionadas à exclusão das mulheres indígenas do sistema educacional.

A pobreza se concentra nas zonas rurais, na Amazônia e nos Andes, onde precisamente vivem as populações indígenas que em muitos casos devem priorizar atividades de sobrevivência sobre enviar os filhos à escola.

Na maioria das comunidades existem escolas primárias, mas para cursar estudos secundários as meninas normalmente devem ir para áreas distantes, o que assusta os pais.

“Muitos pensam que se enviarem suas filhas para longe de seus povoados elas poderão se perder ou enfrentar o ataque de outras pessoas colocando-as em perigo”, afirmou Burga.

Para o professor Datsa, “as mulheres têm pouco interesse no estudo” porque costumam se casar cedo e acabam se dedicando ao marido e aos filhos.

Na província de Bagua, 17,4% das mulheres não sabem ler nem escrever, quantidade que sobe para 18,9% se contabilizarmos as que têm entre 25 e 29 anos em todas as zonas rurais peruanas. Seu analfabetismo impede que ajudem seus filhos a aprender a ler e escrever, diz Montero em seu estudo sobre gênero e educação.

Mães lutam por inclusão

A precoce iniciação sexual das indígenas influi em sua deserção escolar, mas as próprias mulheres afirmam que esta situação está mudando, principalmente nas comunidades menos remotas.

“Queremos que nossas filhas estudem; como mães, fazemos todo o esforço para que sejam melhores do que nós. Mas, isso não ocorre sempre com as mulheres que vivem nas comunidades que estão mais afastadas. Elas estão mais dominadas pelos homens”, disse à IPS Julia Esamat, de 53 anos e da comunidade de Nazareth, a três horas de carro da cidade de Bagua.

Esamat colhe em seu terreno banana e mandioca e com a venda de seus produtos conseguiu educar seus filhos, que agora estudam na cidade de Chiclayo, na vizinha província de Lambayeque.

“Aqui todas as mulheres trabalham e aprendem a ganhar seu lugar pouco a pouco. As coisas vão mudando, embora ainda haja muito machismo a se vencer”, assegurou.

A pesquisadora do Instituto de Estudos Peruanos, Patricia Ames, explicou à IPS que as mulheres nas comunidades indígenas cumprem o papel fundamental de transmitir práticas culturais como a cerâmica ou cozinhar. “Ir à escola pode representar para elas deixar espaços de aprendizagem em seus povoados”, afirmou.

“Há um conflito legítimo nas mulheres indígenas que deve ser considerado pelo sistema educacional porque para elas essas atividades tradicionais fazem parte do processo de se converter em adultos do ponto de vista da comunidade”, acrescentou Ames.

A pouca qualidade da educação proporcionada soma-se à dificuldade em seu acesso. Nas zonas rurais, 8% dos estudantes repetem no ensino primário e nos espaços urbanos esse número cai para 4,6%, segundo dados oficiais mais recentes, de 2007.

O Peru conta com uma lei de promoção da educação das meninas e adolescentes rurais, com ênfase na dimensão de gênero e um Plano Nacional de Educação para Todos, que fazem parte de compromissos internacionais.

Mas, persistem problemas na hora de executar essas diretrizes.

Não há uma atenção eficaz para a educação intercultural bilíngue nem professores com formação suficiente capaz de enfrentar o desafio de educar nessas áreas vulneráveis. As escolas bilíngues representam pouco mais de 10% das escolas no Peru.

Este país conta com 28,7 milhões de habitantes, sendo um terço de indígenas, e destes 48% são mulheres. Os povos indígenas amazônicos são 56 e soma em torno de 10% da população assentada nessa região, que, por sua vez, representa, 13,4% do total nacional.

Nas escolas bilingues, apenas 10% têm um professor por série, enquanto 57% contam com um para cada duas ou mais series e 39% com um único professor ou professora para todos os cursos.

Para a especialista em povos originários Karem Escudero, o acesso à educação e à qualidade de ensino nas áreas rurais repercutirá de maneira direta nas lideranças que as mulheres possam assumir dentro do movimento indígena.

“As que sabem ler, escrever e se expressar bem são vistas como possíveis quadros dirigentes. Ser líder implica ter certas competências e habilidades sociais que a educação formal e não formal desenvolveram”, disse à IPS.

Por isso, o exercício de um direito fundamental como a educação permitirá às indígenas contar com uma cidadania ativa e defender outros direitos de maneira organizada para o bem de sua família e sua comunidade, resumiu a especialista. IPS/Envolverde

Milagros Salazar

Milagros Salazar comenzó a colaborar con IPS desde Perú en junio de 2006. Sus temas son los conflictos sociales y ambientales, en especial los vinculados a las industrias de la minería, el petróleo y el gas. Forma parte del equipo de investigación de IDL-Reporteros. Trabajó para el diario La República y fue corresponsal y editora de varios medios nacionales, entre ellos Expreso y El Peruano. Nacida en Lima en 1976, Milagros se graduó en comunicación social en la Universidad Nacional Mayor de San Marcos y obtuvo una maestría en derechos humanos en la Pontificia Universidad Católica de Perú. Ha profundizado además en estudios sobre gobernanza política en programas auspiciados por la estadounidense George Washington University.

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