Paris, 07/07/2009 – Variada vestimenta feminina pode-se ver nas buliçosas ruas vizinhas ao Boulevard de Belleville, um dos bairros da capital francesa culturalmente mais diverso. Há vestidos de verão, jeans, chador e roupa típica africana, mas não as burcas que o presidente Nicolas Sarkozy quer proibir. Risos foi a resposta que a IPS recebeu após consultar um comerciante para saber se vendia esse tipo de roupa que cobre da cabeça aos pés. “Sim, tenho algumas, mas nunca vendi nenhuma. Há quatro anos não vendo uma. Onde estão as burcas que querem proibir?”.
Sarozky declarou no mês passado que essa vestimenta não tinha lugar na França, e que seu uso deveria ser restringido. “A burca não é um símbolo religioso, é um sinal de submissão das mulheres. Não será bem-vinda em nosso território”, afirmou o presidente diante de senadores e deputados reunidos no Palácio de Versalles no último dia 22. alguns legisladores se mostraram preocupados pelo aumento do uso da burca e de, talvez, não seja por própria escolha mas por pressão de fundamentalistas, por isso pediram urgência ao parlamento sobre medidas a respeito.
Com o governo analisando formas de deter a propagação do uso da burca, incluindo sua proibição, os comentários de Sarkozy levaram a um acalorado debate público e a uma dura resposta de uma organização que considera a si mesma uma filial da rede extremista Al Qaeda no norte da África. A organização considerou que a posição da França é uma declaração de guerra contra as muçulmanas e ameaço com represálias. O país está em alerta diante da possibilidade de um atentado terrorista, mas os franceses consideram que é um escândalo desnecessário e inclusive uma tentativa de distrair a atenção da crise financeira.
“Em oito anos talvez tenha visto uma mulher com burca e isso porque trabalho em um bairro de imigrantes”, disse uma trabalhadora social que pediu para não ser identificada. “Creio que o governo tenta criar um problema onde não existe. Querem nos distrair da crise financeira e se lembraram da burca”. Na França vivem cerca de cinco milhões de muçulmanos, a maior comunidade islâmica da Europa ocidental. Há tempo existem tensões entre esse setor populacional e as autoridades. A atual polemica poderia aprofundar as divisões.
“Toda proibição será contraproducente e enfraquecerá ainda mais a posição das mulheres quando forem obrigadas a usar buca ou niqab”, disse Jean-Marie Fardeua, diretor do capitulo francês da Human Rights Watch. “Será uma restrição à liberdade de expressão e de culto porque sabemos que algumas mulheres as usam por decisão própria”, disse Fardeau à IPS. “Também é uma proibição que objetiva apenas as muçulmanas e será uma discriminação tanto de uma perspectiva de gênero como de uma visão religiosa. Não cabe ao Estado decidir pelas mulheres”, acrescentou.
Os jornalistas inundam os bairros multiétnicos para saber o que pensam os muçulmanos sobre a burca, o que desconcerta e às vezes irrita os envolvidos. “É pura propaganda política”, disse Hafnaoui, gerente de uma loja que vende filmes, roupa e livros islâmicos. “A França tem problemas com o Islã quando se faz visível. Querem distrair as pessoas dos problemas internos, então buscam um inimigo comum. Sempre precisam encontrar algo”, disse, acrescentando que nunca viu uma burca, “só na televisão”. Clientes da loja uniram-se à conversa. Um homem perguntou “por que não falam das meninas muçulmanas agredidas e insultadas pelos franceses por usarem véu?”.
Além do mais, a palavra burca pretende criar alarme. Há outras palavras para se referir a essa vestimenta, como niqab. “O governo usa a palavra burca porque está associada ao terrorismo”, disse Hafnaoui. “Sabem que Irã piorar o sentimento anti-islâmico”. Uma comerciante com vestido e véu negro disse sentir-se “incomodada” quando vai a alguns bairros porque pensa que as pessoas estão contra sua roupa. “A vestimenta islâmica esconde o corpo da mulher e é falso dizer que se trata de uma prisão. É minha decisão”, disse à IPS. Mas, reconhece que algumas mulheres podem ser obrigadas a usar véu e uma “pequena minoria” a usa burca. “Não há muita diferença entre dizer o que usar e o que não usar. As mulheres devem poder escolher por si mesmas onde quer que estejam”, acrescentou. Outra mulher disse à IPS que devem ser respeitados os costumes franceses e que “não é certo” usar burca na França.
Os legisladores dizem querer proteger as mulheres forçadas a usar burca, como aconteceu quando quiseram proteger meninas de terem de usar véu na escola. A França resolveu o assunto com uma lei aprovada em 2004 que proíbe estudantes de levarem símbolos religiosos “ostentosos” nas escolas estaduais. A lei teve partidários e críticos. A questão da burca se apresenta da mesma forma, mesmo entre os ministros. A secretaria de Estado encarregada de política da cidade, Fadela Amara, é a favor de uma proibição total, enquanto o ministro da Imigração, Eric Besson, disse que não séria pratico.
Alguns muçulmanos acreditam que a proibição pode levar as mulheres a usarem burca ou véu como forma de protesto e para defender seus direitos em um país que diz promover a liberdade e a igualdade para todos. “Proibir a vestimenta que as pessoas decidem usar é realmente um excesso”, disse Lino, um francês de 26 anos convertido ao islamismo. “Brincam com nossas crenças. É triste”, afirmou. IPS/Envolverde

