Moscou, 08/07/2009 – Os presidentes Dmitry Medvedev, da Rússia, e Barack Obama, dos Estados Unidos, conseguiram um grande avanço rumo à redução mundial de armas, especialmente as nucleares, ao assinarem em Moscou um acordo nessa área após meses de negociações. Ambos também criaram uma comissão presidencial binacional de cooperação econômica e selaram um pacto de cooperação que permite o uso de território russo para a distribuição de equipamentos destinados a combater o movimento extremista Talibã. O novo acordo obriga a Rússia e os Estados Unidos reduzirem seus arsenais nucleares entre 1.500 e 1.675 ogivas operacionais no prazo de sete anos a partir de sua entrada em vigor, além de limitar em grande parte os veículos de distribuição.
“Assinamos um entendimento conjunto para um tratado de acompanhamento do Start (Tratado de Redução de Armas Estratégicas), que reduz nossas ogivas e nossos sistemas de distribuição em até um terço com relação às limitações de nosso tratado atual”, explicou Obama ao assinar o acordo, segunda-feira. A visita do presidente norte-americano à Rússia, que começou segunda-feira e termina hoje, faz parte das muito anunciadas intenções dos Estados Unidos de recompor as relações com Moscou. O vínculo se ressentiu nos últimos anos pela guerra de cinco dias na Geórgia (agosto de 2008), pela expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) rumo à fronteira russa e pelos planos norte-americanos de instalar um sistema antimíssil na Europa central.
Obama admitiu que persistem as diferenças sobre este último ponto, e reiterou que a planejada base européia fará frente a “um míssil que chegue do Irã ou da Coréia do Norte, ou de algum outro Estado”. Analistas em Washington acreditam que séria imprudente desativar o sistema antimísseis devido a um novo tratado, e que descartar sua instalação convenceria Moscou de que a ameaça e a intimidação são a melhor maneira de influir sobre o governo de Obama. Por outro lado, as armas nucleares são o último atributo da Rússia como superpotência. Agora, poucos a consideram um ator político ou econômico de destaque no cenário internacional. Portanto, autoridades civis e militares desse país se opõem ativamente a reduzir o arsenal nuclear em nome da paz mundial, mais do que em troca de importantes concessões norte-americanas.
Entretanto, Moscou também necessita de um novo tratado porque suas armas estratégicas continuam caducando sem que novos sistemas bélicos garantam sua substituição adequada. Portanto, muitos admitem que é melhor sincronizar com Washington o inevitável descarte de seus mísseis.
Os dois presidentes encontraram outros interesses comuns. “Por certo, uma solução para o problema do Afeganistão que inclua a neutralização do Talibã e outras forças extremistas e a instauração de um governo forte e democrático ali é importante tanto para os Estados Unidos quanto para a Rússia”, disse à IPS Yevgeny Volk, diretor da filial em Moscou do centro de estudos políticos The Heritage Foundation. A Rússia pode, inclusive, ter maior interesse nisso do que os Estados Unidos, porque o Talibã ameaça política e militarmente seus vizinhos da Ásia central e a influência regional de Moscou, acrescentou. Mas os interesses comuns têm limite. “À Rússia não agrada o aumento da influência norte-americana e da Otan neste país e na Ásia central e meridional, em geral, e vai querer conter ou, pelo menos, controlar essa influência”, disse Volk.
Robert Orttung, do Instituto Jefferson, com sede em Washington, disse à IPS que “será difícil para Estados Unidos e Rússia trabalharem juntos por causa dos valores fundamentais subjacentes em seus regimes. A “Rússia é cada vez mais autoritária e depende fortemente da retórica oficial antinorte-americana para garantir sua legitimidade”, acrescentou. Depois da cúpula Obama-Medvedev, “Moscou e Washington terão de encontrar áreas onde possam trabalhar juntos, uma pode ser a eficiência energética”, disse Orttung. “Os dois países são importantes produtores e consumidores de energia, apesar de habitualmente concentrar-se a atenção na produção russa e no consumo norte-americano. Terão interesse em trabalhar juntos no desenvolvimento de tecnologias para a eficiência energética”, acrescentou o especialista.
A recessão foi uma prioridade da agenda. Entrevistado pelo jornal russo Novaya Gazeta, Obama desconversou sobre seu país ser responsável pela crise financeira mundial. “Precisamos passar menos tempo pensando em quem culpar e mais tempo trabalhando juntos para fazer o que deve ser feito, para que nossas economias avancem na direção correta”, disse Obama. A crise econômica é consequência de uma “cultura de irresponsabilidade em matéria financeira” nos Estados Unidos, na Europa e em outros países e regiões, afirmou, e pediu urgência no sentido de se promover em conjunto uma era de responsabilidade. “O livre mercado é a força mais poderosa de criação de prosperidade, mas não é uma licença para ignorar as consequências de nossas ações”, afirmou Obama.
Alexey Pushkov, da Academia Diplomática do Ministério das Relações Exteriores em Moscou, disse que “depois que o antecessor de Obama negou-se a respeitar os interesses da Rússia por dois mandatos, o governo dos Estados Unidos tenta demonstrar que realmente mudou sua postura”, recomeçando do zero suas relações. IPS/Envolverde

