Araçuaí (Minas Gerais), 27/08/2009 – Aos 11 anos, com uma figura miúda na qual se destaca seus longos cabelos, Higor fala como um veterano, com uma fluidez surpreendente.
“O Benjamim de Troupe não queria voltar para casa, que nem mesmo tem banheiro”, destacou uma revista ao informar sobre a excursão pela França, referindo-se a Higor. Na realidade, sua família dispõe de banheiro, mas do lado de fora da casa alugada em que vive, explicou o menino à IPS. Uma de suas metas é dar à sua mãe uma casa melhor. “Quero ser um cantor que também dança, como Michael Jackson”. Assim descreve seu sonho. Desde os 6 anos participa do coral que também se apresenta nas grandes capitais brasileiras. Em maio esteve em São Paulo, junto com outros 31 meninos de Araçuaí, dançado a dois metros de altura em varas de bambu, nas funções de “Pra Nhá Terra’, um poema musical ambientalista do GPP. “Os adultos vêm para São Paulo para cortar cana o como empregadas domésticas, mas nós viemos como artistas”, disse uma de suas colegas.
De Araçuaí, município de 37 mil habitantes no nordeste de Minas Gerais, partem todos os anos, entre maio e dezembro, milhares de trabalhadores para cortar cana-de-açúcar no Estado de São Paulo, 1.500 quilômetros ao sul. É um trabalho penoso, perigoso e de baixa remuneração, que só atrai homens que não encontram alternativas em suas terras distantes. Araçuaí está encravada no Vale do Jequitinhonha, conhecido por sua pobreza e suas semelhanças sociais e econômicas com o Nordeste semiárido do Brasil. A rua principal, com um comércio próspero e prédios modernos próximos da estrada se parece com a desordem própria de uma fronteira em expansão agrária, não com uma cidade tradicional do século XIX.
Mas é produto da grande inundação de 1979, que deslocou o comércio e os moradores do Centro Velho que ficavam em uma área baixa para terras mais altas e distantes dos rios. A aparente prosperidade se deve em boa parte ao dinheiro trazido pelos cortadores de cana. Com metade de sua população ainda vivendo em um campo regado por chuvas escassas, o município oferece poucas alternativas à juventude que não quer migrar para cortar cana ou trabalhar em outras áreas, como a de serviços domésticos.
Meninos de Araçuaí
Na realidade, o coral Meninos de Araçuaí abriu as portas para o sonho da infância local. Criado em 1998, obteve êxito imediato, com freqüentes aparições na televisão, elogiosas reportagens, aplausos emocionados do público e gravação de dois CDs e um DVD do show que realizaram em Paris. Os cinco espetáculos de teatro musical dos quais o coro participou são de autoria e direção do GPP, fundado em 1980 no município mineiro de Barbacena e reconhecido por seu teatro inovador. A presença infantil – meninos e meninas pequenos e vulneráveis, a maioria muito magra, negra ou mestiça – agregou emoção e peso social às obras.
Cinco dos mais antigos componentes do coral estão se convertendo em músicos profissionais. Um deles, o percursionista Yuri Hunas, foi premiado este ano como Jovem Instrumentista de Minas Gerais. Outro conclui este ano o curso na Escola do Teatro Bolshoi, a única que o famoso balé russo inaugurou no exterior, instalada desde 2000 na cidade de Joinville (SC). A identificação de tantos talentos entre crianças e adolescentes motivou a criação da Bituca Universidade de Musica Popular em Barbacena, 800 quilômetros ao sul de Araçuaí, por iniciativa do GP e com apadrinhamento de Nascimento, conhecido como Bituca, conhecido cantor e compositor de Minas Gerais.
Nessa escola livre criada em 2004 estudaram Yuri e seus companheiros e outros dois meninos araçuienses que se incorporaram este ano, entre 137 aprendizes aprovados, procedentes de várias partes do País. São exemplos que animam Higor, que não conseguiu ser selecionado este ano. “Quero estudar na Bituca, continuarei tentando”, afirmou, seguro de que tem “uma voz bonita” e é “bom na dança… o melhor na escola” onde estuda. Por isso não descarta o Bolshoi, que também tentou sem êxito porque no teste não conseguiu “colocar o pé na cabeça, por nervosismo”.
Outra consequência do coral foi a inauguração em 2008 de um cinema na cidade de Araçuaí, que ficou três décadas sem sala de exibição, e em torno do qual se criou um grupo de formação e produção audiovisual. Quase uma centena de crianças viveram a experiência do coro. O grupo inicial de 40 cantores foi renovado quatro vezes em 11 anos. Em abril foram selecionados 20 novos integrantes para substituir os que saíram por causa da idade ou outras razões. Muitos dos 130 não aprovados choraram, pois “todos desejavam participar”, contou Ana Paula Silva, coordenadora do projeto infantil “Ser Criança”, do qual saem os pequenos cantores e atores.
Educar brincando
Essa onda criativa em Araçuaí teve origem na inovação pedagógica praticada pelo Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), organização não-governamental fundada em 1984 por Sebasstiao Rocha, antropólogo que deixou a docência universitária para ser educador. “O professor só quer ensinar, o educador aprende”, costuma dizer. Seu método, a “pedagogia da roda”, promove o diálogo em circulo entre educadores e educandos, frente a frente, como “sujeitos da aprendizagem” em “um processo plural” que respeita as diferenças e o conhecimento acumulado pelas experiências de cada um. a sombra de uma arvore ou em um parque podem substituir o prédio escolar.
Aprender brincando é o lema. As atividades lúdicas e criativas substituem as aborrecidas aulas. As mesmas crianças e educadores fazem brinquedos pedagógicos que vão enriquecendo a “brinquedoteca” e as bolsas com jogos permitem levá-los às aulas ou rodas. “Eu era ruim em contas, mas melhorei muito com a gramática”, disse Higor, explicando que se trata de um jogo de damas com algarismos para as lições de matemática. Um Banco de Livros, onde o associado deixa um exemplar e leva outro, multiplicando por milhares o livro que cada um possui, é outra das muitas criações pedagógicas do CPCD.
Esse arsenal é aplicado desde 1984 na localidade de Curvelo, a 160 quilômetros de Belo Horizonte, nos projetos Ser Criança, para alunos de 7 a 16 anos, e Sementinha, para menores de 6 anos, apoiados pela prefeitura com instalações e professores. Atualmente, 140 crianças frequentam o primeiro e 40 o segundo no período livre das aulas oficiais. É uma gota em um município de 75 mil habitantes e cerca de 12 mil alunos no ensino primário.
Mas, estes projetos, reconhecidos por prêmios de várias instituições, difundiram a “pedagogia da roda” por dezenas de cidades brasileiras e chegaram a Moçambique e Portugal. Se fossem adotados os métodos do Ser Criança “não haveria ausências, repetições nem violência nas escolas”, segundo a professora municipal Marcelina Chaves, que trabalha temporariamente como educadora do projeto. Ali “tudo se resolve com diálogo”, afirma.
O salto artístico
Mas foi em Araçuaí que o CPCD teve um impacto mais visível quando reproduziu seus projetos a convite da prefeitura. A arte fez a diferença. Meninos de Araçuaí se transformou em uma marca de produtos de qualidade. Depois de iniciar ali o projeto Ser Criança em 1998, surgiu a idéia de formar um coral infantil. A população local é muito musical, explicam todos. Há pelo menos cinco coros permanentes na cidade. “Tião Rocha, com é conhecido o presidente do CPCD, pediu ao GPP que proporcionasse qualidade musical aos meninos. O encontro foi simbiótico, apesar das 15 horas de ônibus que demora a viagem entre Barbacena e Araçuaí. “Foi uma descoberta para todos” a existência de tantos talentos em Araçuaí, reconheceu Rocha. A destreza rítmica dos meninos, em especial, emocionou os músicos que lhes apresentaram painéis.
Os Meninos de Araçuaí “começaram a resgatar” a riqueza cultural do Vale do Jequitinhonha, conhecido por sua miséria, segundo Sergio Maioline, repórter da televisão católica local. Seu elogio, entretanto, vem acompanhado de uma crítica: o coral ganhou notoriedade, mas não tirou os menores da pobreza. “O CPCD ignorou iniciativas locais, decepcionando o movimento cultural de Araçuaí, que compreende cinco corais, três grupos teatrais e uma associação de artesãos”lamentou Dostoievsky Americano do Brasil, professor de arte em um colégio e membro de um grupo teatral.
O docente recordou que trabalhou como voluntário em painéis de teatro do “Ser Criança”. Mas, quando se conseguiu dinheiro de patrocínios, o CPCD trouxe o GPP para produzir o espetáculo. Os locais já não serviam”, disse ressentido. Dessa forma limitou-se os resultados do coro e de outros projetos na própria cidade, embora tenha sido “positivo divulgar a cultura local e abrir oportunidades e horizontes para as crianças”, concluiu.
* O projeto que deu origem a este trabalho foi ganhador das Bolsas AVINA de Investigação Jornalística. A Fundação AVINA e a Casa Daros, parceira na categoria Arte e Sociedade, não são responsáveis pelos conceitos,opiniões e outros aspectos de seu conteúdo.
(Envolverde/IPS)


