SANTIAGO, 18/08/2009 – (Tierramérica).- Bairro chileno avança a passo humano para a sustentabilidade ambiental.
Em 2003, a Vila Quatro Álamos iniciou um processo de transformação ecológica que, três anos depois, quando uma estudante de paisagismo se aproximou da comunidade para preparar sua tese de graduação, assumiu a forma de um ecobairro. “Estamos em processo de criar o primeiro ecobairro do Chile”, disse Márquez ao Terramérica. O projeto está em constante evolução e toma como referência algumas experiências européias. A vila foi construída em 1971 pelo governo de Salvador Allende (1970-1973), como parte de um projeto urbanístico para a classe operária, a ser implementado em etapas.
Entretanto, o golpe de Estado de 1973, que levou a uma ditadura de 17 anos, truncou os planos deste bairro que ocupa dez hectares e onde vivem 3.500 pessoas. São 28 edifícios que somam 808 apartamentos de 50 metros quadrados. Nas décadas de 70 e 80, a comunidade destacou-se por sua ativa resistência ao regime militar, mas a unidade foi se perdendo após o retorno da democracia, em 1990. Em 2003, a prefeitura decidiu desmatar um parque de 120 árvores para construir um colégio. Os protestos dos moradores salvaram apenas um exemplar de corticeira (Erythrina crista-galli).
No ano seguinte, os defensores do parque fundaram o Centro Corticeira e, em 2005, foram contemplados com um projeto do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) para construir um Centro Demonstrativo de Energias Renováveis e Educação Ecológica. A partir desse momento, almejaram, com êxito, fundos governamentais e comunitários para materializar o projeto de ecobairro. Hoje, o Centro Demonstrativo tem uma estufa e uma horta orgânica, além de um biorreator que produz adubo orgânico em 20 dias, que depois é transformado em húmus, com a introdução de minhocas californianas.
Com esses fertilizantes, plantaram mais de 500 mudas desde 2005. Criaram um jardim botânico com árvores e arbustos nativos, uma praça com árvores frutíferas e uma horta de plantas medicinais. Entre as crianças locais, são formados “ecolíderes” e “ecoartistas”, e nos próximos meses será iniciado um projeto-piloto para reciclar a água de pias de cozinha e banheiros, e outro de separação de resíduos sólidos. Os moradores de Quatro Álamos querem instalar painéis fotovoltaicos para iluminação pública e construir um anfiteatro.
O Centro Corticeira e a Junta de Moradores de Quatro Álamos trabalham com outras organizações, como a União de Mulheres de Maipú, que tece bolsas e toalhas de mesa com sacos plásticos, e com um grupo indígena mapuche. Também foram premiados por empresas. Porém, a transformação ecológica da vila não foi fácil, reconhecem. O trabalho voluntário desgasta, nota-se a falta de conhecimento técnico e os recursos são limitados para tantas idéias. Alguns moradores foram contrários à transformação de espaços que antes ocupavam para estacionar, lavar ou consertar automóveis.
A participação dos cidadãos ocorre em diferentes níveis, explicou Márquez. Alguns colaboram diretamente, outros apenas participam das votações, e a maioria contribui com a reciclagem, assegurou. Os moradores ouvidos coincidiram em dizer que o projeto não só ajuda a limpar e embelezar a área, como também a melhorar a convivência e a reduzir problemas como o narcotráfico. A partir da experiência de Quatro Álamos, e de outras duas localidades (Vale Verde e Esperança), este ano a Comuna de Maipú elaborou uma política e um plano de ação para contar com cinco ecobairros até 2012, explicou o prefeito, Alberto Undurraga. A iniciativa é parte dos Planos de Desenvolvimento dos Bairros que recolhe sugestões dos moradores para focar melhor os recursos e esforços, assegurou Undurraga.
As vilas Vale Verde e Esperança participam do Programa Quero Meu Bairro, impulsionado pela presidente Michelle Bachelet. Alejandra Vio, secretária-executiva deste plano de recuperação de 200 bairros vulneráveis, explicou ao Terramérica que “a dimensão ambiental está presente em todos os projetos desenvolvidos”, mas ainda não é possível falar de ecobairros. Apenas é trabalhada a “revalorização do conceito de comunidade e identidade dos bairros e a rearticulação do tecido social”, afirmou. Entretanto, a “incipiente preocupação dos moradores com o entorno” já se traduz em “iniciativas verdes” com objetivos econômicos, como a instalação de coletores solares para economizar gás, disse.
O Centro Corticeira auxilia estreitamente outro bairro de Maipú, Vila Serviu, que o governo também estuda converter em ecobairro. Ali vivem 252 famílias pobres em apartamentos de 39 metros quadrados construídos em 1985. Desde 2005, a Junta de Moradores tenta conseguir fundos para projetos para acabar com os graves problemas causados por um morro de pomacita (pedra natural que contém metais muito tóxicos, como chumbo, arsênico, cromo e cádmio) que se ergue como um muro diante de suas casas. Sem considerar os danos sanitários que causa a exposição a essas substâncias, a empresa construtora dos prédios cortou o monte pela metade sem colocar nenhuma cobertura.
O pó que se desprende do monte gera problemas estomacais, respiratórios e dérmicos, e deixa as casas constantemente sujas. Por isso, os moradores se dedicaram a produzir compostagem e húmus para cobri-lo de vegetação. “Com a cobertura vegetal, o pó diminuiu entre 70% e 75%”, assegurou a presidente da Junta de Moradores, Vitelia Musrri, que gostaria de seguir o exemplo de Quatro Álamos, mas para isso “precisamos do dobro de apoio que recebemos”, afirmou. Possuem hortas orgânicas medicinais, plantaram árvores frutíferas, separam lixo sólido e reutilizam os plásticos.
A partir deste mês, uma escola gratuita do Centro Corticeira incentivará a criação de outros ecobairros no país, com apoio do Fundo de Proteção Ambiental da governamental Comissão Nacional do Meio Ambiente. É necessária uma lei de fomento de ecobairros e uma associação estratégica com as universidades, propõem Márquez. “O ecobairro é uma utopia. Alguns dizem que as utopias nunca se concretizam. Nós acreditamos que sim, mas é preciso trabalhar muito para isso”, afirmou.
* A autora é correspondente da IPS. Este artigo é parte de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (http://www.comp


