Buenos Aires, 28/08/2009 – Natividad Obeso tem várias vidas. Houve um tempo em que vivia em seu país natal, Peru, como próspera empresária e mãe de quatro filhos. Houve outro tempo no qual sobreviveu perambulando sozinha e sem dinheiro pelas ruas da capital Argentina, fugindo de uma perseguição política que nunca entendeu
Segundo vários organismos internacionais, nos últimos anos o número de mulheres que emigram cresceu mais do que o de homens. Na Argentina chegou uma onda de bolivianos, paraguaios e peruanos na década de 90 e a maioria era de mulheres sozinhas. Em um café de Buenos Aires, Obeso se desculpou com a IPS porque em seguida chegaram outras mulheres. Procedem de Peru, Colômbia, Paraguai, Venezuela. Não mais a solidão daqueles primeiros tempos longe de seu país, quando se cansava pelas ruas vendendo doces e sonhando acordada que abraçava seus filhos.
Em 1993, Obeso viva com quatro filhos menores de 11 anos no departamento de Cajamarca, norte do Peru. Era dona de uma distribuidora de cerveja e candidata à prefeitura de sua cidade, embora nunca tenha vencido. Em um dia desse ano, quando o presidente era Alberto Fujimori (1990-2000), um policial amigo lhe mostrou uma ordem de prisão emitida contra ela. Apesar de ser vítima do grupo armado Sendero Luminoso, que a obrigava a pagar uma contribuição mensal e inclusive chegou a seqüestrá-la, a justiça a acusava de terrorista e Obeso deve de fugir do país. Em questão de horas deixou os filhos com sua mãe e partiu rumo à Argentina, “a Europa da América Latina”, acreditava na época.
“Foi tão diferente do que eu imaginava”, recorda agora, aos 48 anos. Trabalhou como vendedora ambulante e como empregada doméstica. Viveu em pensões, dividiu quartos com outras pessoas. Demorou cinco anos para voltar a abraçar seus filhos, que agora frequentam a universidade pública na Argentina graças a uma lei que ela mesma exigiu que fosse sancionada. Obeso é fundadora e presidente da Associação Mulheres Unidas Migrantes e Refugiadas na Argentina (Amumra) e já percorreu cerca de 20 países para fazer ouvir a foz daquelas que são forçadas a emigrar em busca, diz, de “uma melhor qualidade de vida para suas famílias”.
IPS – Como chegou à Argentina?
Natividad Obeso – Sou de Cajabamba, uma província da serra norte, no departamento de Cajamarca. Vim em 1994 fugindo do Peru porque me acusaram de terrorista. A Argentina não pedia visto e era considerada a Europa da América Latina, então vim. Mas o que encontrei foi tão diferente…
IPS – O que deixou para trás?
NO – Tudo. Viajei sozinha. Minha mãe, meus quatro filhos, meus irmãos. Eu era mãe solteira e meus filhos ficaram com minha mãe. Tinham entre 4 e 11 anos. Eu era empresaria, tinha uma distribuidora da cerveja Pilsen Trujillo. Vivíamos muito bem.
IPS – E o que foi pior nos primeiros anos no país onde chegou?
NO – O vazio. Não ter ninguém. O migrante é o ser mais indefeso que há sobre a terra. Mas eu tirei forças de onde não tinha para não virar vítima.
IPS – O que fez quando chegou?
NO – Vim de ônibus com outros peruanos. Acreditava que nos deixariam no Hotel Sheraton. Mas, me deixaram em uma fábrica ocupada. Os migrantes dessa época eram puro sofrimento. Cheguei com dinheiro para me estabelecer, mas por não ter informação nem uma mão amiga, se vai direto para a pobreza. Fui vendedora ambulante. Vendia chocolate na rua. Trabalhei por horas como empregada doméstica. Sem dormir no serviço. Luto para que nenhuma mulher trabalhe com doméstica que dorme no local de trabalho. Depois montei um locutório (local para chamadas telefônicas) e cada peruana que falava com seus filhos era uma punhalada no meu coração. Eu era uma delas. Havia perambulado por essas ruas sonhando que abraçava meus filhos.
IPS – Como foi sua experiência trabalhando como doméstica?
NO – Trabalhei para uma senhora que me considerava uma filha. Em um 25 de Maio (feriado nacional) não fui trabalhar. No dia seguinte, de maneira prepotente, me perguntou por que havia faltado e respondi que não fui por ser feriado. Ela me disse: “As empregadas domésticas não têm feriado”. Isso me marcou. Decidi que nunca mais faria esse trabalho. Então veio um irmão e montei o locutório. Vinham muitas peruanas e paraguaias que eram trabalhadoras do lar. Não gosto de dizer domésticas.
IPS – A emigração se transformou em um fenômeno essencialmente feminino?
NO – A migração não é um fenômeno. É uma experiência. Uma realidade que se vive cotidianamente. Não gostamos de falar em fenômeno, como se fosse um desastre natural ou algo do tipo. Saímos de nossos países em busca de melhor qualidade de vida para nossas famílias, melhor educação para nossos filhos. E nos encontramos com políticas migratórias desumanas, xenófobas.
IPS – E nessa experiência, nota que as mulheres estão sendo protagonistas?
NO – Sim, de 1990 em diante a migração ficou feminina. Os homens têm medo de sair e não encontrar trabalho e elas tomaram impulso. As mulheres fazem o que for para conseguir dinheiro para a família. O homem não. Se entrega à solidão… à dó de si mesmo…
IPS – É diferente o compromisso delas no envio de dinheiro?
NO – Naturalmente. As mulheres têm uma responsabilidade que jamais irão nos tirar, que é a de nossos filhos. Nós podemos deixar nossos maridos, mas não nossos filhos. Ninguém toca neles. Mais ainda se somos migrantes. Podem fazer o que quiserem, podemos suportar atropelos, discriminação, solidão, mas, se tocam em um de nossos filhos, os defendemos com unhas e dentes.
IPS – Quando pôde ver seus filhos?
NO – Depois de cinco anos. E aí começaram as dificuldades para o acesso à educação. Não tanto no primário, que eram mais flexíveis, mas no secundário e na universidade, cujo acesso era impossível. Meu filho de 16 anos chorava porque após tantos anos voltávamos a estar juntos, mas ele não podia estudar como queria. Então, bati na porta de todos os órgãos que trabalhavam com imigrantes, e nada. Tive de lutar com deputados e senadores até conseguirmos uma lei de acesso à educação pelos imigrantes. Quando conseguimos, muitas vieram me ver. Eu lhes disse “perfeito, mas não vou trabalhar sozinha”. Em 2003 tivemos os primeiros 41 jovens migrantes na universidade. E criamos a Amumra.
IPS – Quais são hoje os maiores problemas que as imigrantes enfrentam?
NO – O abuso das autoridades consulares e os maus-tratos por parte de muitos empregadores.
IPS – Em quais setores se emprega mulheres?
NO – Agora se conseguiu mais autonomia. Já não há tantas mulheres trabalhando como domesticas que dormem no emprego. Trabalham por hora em casas de família e depois, por exemplo, vendem coisas na rua.
IPS – E continuam enviando dinheiro?
NO – Sim. Ficam com um mínimo para sobreviver. Mas desde 2001 muitas trouxeram a família e já não precisam enviar.
IPS – O que ficou com experiência desta imigração?
NO – Uma profunda mudança em minha pessoa. Graças a muitos professores e professoras daqui que me apoiaram. Quando viram qual era minha luta, apontaram os erros com críticas. Dou graças a Deus por não ter sido eleita prefeita no Peru, porque é preciso sair de nosso país para se saber o que ocorre de fato em nossa terra. IPS/Envolverde


