Bangcoc, 20/08/2009 – A visita de um senador norte-americano do governante Partido Democrata à Birmânia foi considerada “um sucesso” em círculos diplomáticos, mas, criticada por defensores da democracia desse país do sudeste da Ásia Diplomatas ocidentais em Bangcoc, que pediram para não serem identificados, “aplaudiram o grande avanço”. Porém, opositores da ditadura disseram que a visita do senador Jim Webb pode servir para melhorar a imagem do general Than Shwe, principal integrante da junta militar de governo, e para obter concessões sem que melhore em nada a situação dos direitos humanos, nem permitir uma abertura democrática na Birmânia.
Webb defende o diálogo com a junta militar, autoproclamada Conselho de Estado para a Paz e o Desenvolvimento (CEPD). Também pediu o fim das sanções econômicas porque não conseguiram avanços democráticos. Poucos se perguntam pelas razões do tratamento dado ao senador, semelhante ao dos chefes de Estado. O senador se reuniu com Than Shwe e com a líder opositora Aung San Suu Kyi. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, não pôde encontrar-se com ela em julho, quando visitou o país.
A prêmio Nobel da Paz de 64 anos está em prisão domiciliar cerca 14 anos nos últimos 20. A última fase de sua detenção começou após sofrer ataques de gente ligada à ditadura, juntamente com outros dirigentes do principal partido de oposição, a Liga Nacional Democrática (LDN), por participar de uma atividade partidária no centro da Birmânia em 2003. Ban pediu a libertação de Kyi e de outros presos políticos em sua reunião com Shwe.
“Não há nada de surpreendente ao tratamento dado a Webb. Shwe quer ter boas relações com os Estados Unidos e conhece sua opinião sobre esse país”, explicou Zin Linn, diretor de informação do Governo de Coalizão Nacional da União da Birmânia, eleito nas urnas e obrigado a se exilar na Tailândia. “Os ganhadores foram a Junta e Shwe, não Webb”, afirmou. O general “explorou a situação como faz com outros visitantes estrangeiros. Sabe quando ignorá-los e quando se reunir com eles”, acrescentou.
O maior êxito da visita de Webb foi assegurar a libertação de John Yettaw por razões humanitárias. Este cidadão norte-americano de 53 anos foi condenado a 7 ano de prisão e trabalhos forçados no último dia 11 por atravessar um lago de Rangun a nado e entrar na casa de Kyi, afrontando as duras leis de segurança interna. O mesmo tribunal, localizado dentro da conhecida prisão de Insein, considerou Kyi culpada de violar as condições da prisão domiciliar ao deixar Yettaw entrar em sua casa no dia 3 de maio.
O fato ocorreu quando a junta ficava sem argumentos para manter fora do cenário político a máxima dirigente da LND. A líder da oposição foi condenada a mais 18 meses de detenção domiciliar, confirmando a opinião de alguns analistas birmaneses de que o julgamento era uma “farsa”. O argumento de Yettaw para justificar sua ação foi que escrevia um livro sobre o “heroísmo baseado na fé”, o que só serve para tornar mais kafkaniano o episódio.
O que importa aos defensores da democracia é o isolamento de Kyi, não o gesto humanitário conseguido por Webb. A decisão de deixá-la fora das eleições gerais, que a junta promete organizar em 2010, demonstra claramente as intenções da ditadura. “O importante é que Kyi seja libertada. É preciso analisar o êxito ou o fracasso da visita de Webb em função disso”, afirmou Bo Kyi, presidente da Associação de Assistência aos Presos Políticos da Birmânia, com sede na Tailândia. “A libertação de Yettaw não é tão importante”, acrescentou.
De fato, sua libertação não é nenhuma surpresa, disse Bo à IPS por telefone desde a localidade fronteiriça de Me Sot. “Ela já não serve o regime, que só precisou dela para manter Kyi sob prisão domiciliar”. O mesmo tipo de críticas causou outra mensagem divulgada por Webb após sua visita de dois dias no final de semana passado: aliviar as sanções contra o regime. Webb, que preside a subcomissão para Assuntos do Sudeste da Ásia e Pacífico, da Comissão de Relações Exteriores do Senado, tenta reunir adeptos para seu “novo enfoque” na relação com a junta militar.
Essa atitude é um vício da postura que surgiu nesta região em 1997, quando a Birmânia foi aceita na Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean). O bloco de 10 países, integrado por Birmânia, Brunei, Camboja, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Cingapura, Tailândia e Vietnã, qualifica sua posição em relação a esse país como “construtiva”. O regime da Birmânia, governado desde 1962 por sucessivas juntas militares, tem a proteção da Asena, que desvia as críticas do Conselho de Segurança da ONU e decidiu não aderir às sanções impostas pelas nações da União Européia e pelos Estados Unidos.
“A Asean adotou uma nova política para a Birmânia em 1997: não critiquem o regime, não o pressionem”, disse Debbie Stothard, da organização de direitos humanos Rede Alternativa da Asean para a Birmânia. “Creio que poderia conseguir mudanças mediante o diálogo”. Mas, na última década ocorreu exatamente o contrário. A junta endureceu e aumentaram as violações dos direitos humanos, destacou Stothard. “O regime é um nefasto inimigo e um amigo muito pior. Por isso os defensores da democracia ficaram surpresos com a mensagem de Webb”, acrescentou. “Eles se indignaram com o fato de sua posição poder aliviar a pressão sobre o regime, que tenta desesperadamente legitimar as eleições de 2010”, ressalto.
(IPS/Envolverde)

