Lilongwe, 21/09/2009 – Os resultados de uma nova investigação coloca em xeque a afirmação do governo de Malaw de quase toda a população urbana deste país tem água potável e saneamento. Um estudo do não-governamental Instituto Internacional de Ambiente e Desenvolvimento (IIDE), divulgado em agosto, conclui que mais da metade dos moradores urbanos carecem de água corrente. Nas zonas rurais é comum ver mulheres e meninas carregando baldes com água sobre a cabeça, mas a prática agora se estendeu a grandes cidades como Lilongwe, Blantyre e Mzuza.
A investigação do IIED indica que Malawi está longe de alcançar a meta de acesso à água potável e ao saneamento, contida no sétimo dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM): garantir a sustentabilidade ambiental ate 2015. Os números oficiais são enganosos e geram confusão, dizem os investigadores. O estudo do IIIED, patrocinado pelo governo da Escócia, um dos principais doadores de Malawi, revela eu o acesso à água e ao saneamento é totalmente inadequado nos assentamentos urbanos superpovoados, onde vivem cerca de 60% da população das cidades.
Por sua vez, as autoridades afirmam que quase todos os habitantes urbanos gozam desses serviços. O informe de Malawi sobre os ODM de 2007 indicava que o acesso urbano à água havia melhorado muito, passando de 47%, em 1992, para 75%, em 2006. martha Kaliwo, moradora do assentamento de Ntandile, nos arredores de Lilongwe, disse que a situação não melhora há dois anos. “As torneiras estão secas e as pessoas são obrigadas a caminhar pelas ruas em busca da água. De fato, nos surpreende quando o serviço funciona três dias seguidos. Somos obrigados a depender de fontes pouco confiáveis e na maioria das vezes temos de caminhar longas distâncias até encontrar água potável”, disse Kaliwo, de 54 anos.
As mulheres costumam se ocupar do fornecimento de água. As que têm trabalho, invariavelmente chegam tarde. “Estamos cansadas de ir buscar água quase de madrugada e nossa produtividade cai”, lamentou Kaliwo. Pouquíssimas casas possuem banheiro. Os poços existentes costumam ser compartilhados por várias casas. “Há grupos de oito famílias que usam a mesma latrina no assentamento onde vivo”, disse Kaliwo. Aproximadamente, 42% dos lares jogam seus excrementos em poços cavados em seus quintais, segundo o estudo do IIED, 21% os deixam em caminhos ou rios e 9% os jogam em lixões.
As autoridades não colocam caçambas para receber lixo e os poços existentes estão em áreas inacessíveis para os caminhões de coleta. Nos nove assentamentos estudados pelo IIED, apenas uma em cada quatro casas está ligada à rede de fornecimento de água. Metade tem de ir buscar água nos quiosques fornecedores e 13% a compram dos vizinhos que possuem o serviço. As fontes de água comunitárias nem sempre funcionam, costumam abrir por volta das três horas da manhã e três da tarde e permanecem fechadas à noite. É comum ver longas vilas nesses pontos e as mulheres perdem muito tempo, lamentou Boyd Kalumo, morador do assentamento de Ndirande. “De noite não temos água. Temos de guardar. É um grande inconveniente”, acrescento Kalumo, de 52 anos.
A irregularidade do serviço obriga as pessoas buscarem água insegura, como em pântanos “Muita gente constrói banheiros fora de casa porque não podem usar os que possuem cisternas”, disse Kalumo. Cerca de 10% dos habitantes da cidade de Blantyre e 8% dos de Lilongwe moram em casas com saneamento. Em Mzuxu, ao norte da capital, diretamente não há infraestrutura, segundo pesquisadores do IIED. As conclusões do estudo contradizem as estatísticas oficiais que afirmam que o país realizou importantes progressos para alcançar a meta do milênio sofre água e saneamento.
“É claro que as estatísticas oficiais não foram feitas com base na mesma definição de saneamento manejada no texto dos ODM”, que, por certo, é ambígua, explicaram os investigadores. O texto do compromisso, assinado pela comunidade internacional em 2000, diz que uma das metas é “reduzir pela metade, ate 2015, a proporção de pessoas sem acesso sustentável à água potável e a serviços básicos de saneamento”. Se por “serviços básicos de saneamento” se entende latrinas elementare compartilhadas por varias famílias e sem manutenção, então Malawi pode alcançar essa meta nas cidades.
A pouca clareza dos números oficiais não impede que o governo veja que precisa melhorar o acesso à água e ampliar a infraestrutura de saneamento. Na apresentação do orçamento nacional 2009-2010, o ministro das Finanças, Ken Kandodo, prometeu que o governo garantirá que o fornecimento de água potável seja mais efetivo. Será preciso ver se as autoridades cumprirão sua promessa. Atualmente as torneiras continuam secas. IPS/Envolverde.

