San José, 30/09/2009 – Vanessa Madrigal era secretária em uma clínica privada da capital da Costa Rica e perdeu seu trabalho um mês após voltar da licença maternidade, em uma das ondas de demissões que sacudiram a América Central desde que a economia mundial foi arrastada pela tsunami financeira.
Segundo previsões da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mais de meio milhão de pessoas ficarão desempregadas na América Central e na República Dominicana ao final deste ano.
A OIT detalha que no istmo há 37,6 milhões de pessoas em idade de trabalhar, das quais 55,4% forma a força de trabalho. Destes 20, 8 milhões de pessoas, 1,270 milhão já carece de emprego e outros 500 mil ficarão sem ele ainda este ano.
Se a previsão se cumprir, a média subrregional de desemprego passaria a afetar 9% da população ativa, três pontos percentuais a mais do que antes, o que representaria um retrocesso de cinco anos em matéria de emprego, com suas sequelas sócio-econômicas para o isto.
E a maioria dos afetados pelo desemprego está sendo,e serão, as mulheres, segundo diferentes organismos internacionais, como a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e organizações não-governamentais que trabalham o tema.
O cálculo é que o desemprego feminino por impacto da crise mundial até agora é superior ao masculino entre 3% e 4%, como média latino-americana, disse em julho a secretária-executiva da Cepal, Alicia Barcena.
Na América Central, embora não existam números oficiais sobre o assunto, há coincidência quanto ao impacto ser ainda maior porque as mulheres centro-americanas, com pouca escolaridade e preparação técnica, estão situadas, profissionalmente, em setores muito susceptíveis à crise: a indústria do vestuário e suas maquiadoras, as flores e o comércio.
Emprego vulnerável
“A crise econômica tem rosto de mulher”, afirmou à IPS na Nicarágua Sandra Ramos, diretora-executiva do Movimento de Mulheres Empregadas e Desempregadas “María Elena Cuadra”, diante da demissão em massa de mulheres em empresas sob o regime de Zonas Francas
No final de junho – contou – a redução de horas de trabalho e fechamento de maquiadoras deixou sem emprego 4.364 mulheres, das quais cerca de duas mil são mães solteiras e chefes de família.
A crise já era evidente no último trimestre de 2008, quando 27 mil mulheres perderam seus empregos, com o fechamento de maquiadoras devido à baixa venda nos Estados Unidos.
Este tipo de indústria da produção para exportação que se instala em países pobres para se beneficiarem de isenções de impostos e flexibilidade trabalhista em troca de criar empregos, é determinante na América Central para o emprego feminino até um nível que mesmo as frias estatísticas desnudam.
Na Nicarágua, 70,7% dos empregos que essa indústria gera são ocupados por mulheres; 82% em El Salvador, 74,8% na Guatemala, 70% em Honduras. De todas elas, 51% têm entre 18 e 24 anos. Os dados são do Centro de Estudos para o Desenvolvimento da Mulher, com sede no Chile.
Na Guatemala, 62% das pessoas demitidas na primeira metade do ano foram mulheres, afirmou Rosario Escobedo, do Setor de Mulheres, organização da Coordenadora 8 de março, durante um fórum sobre “O impacto da crise econômica nas mulheres”.
Durante 2008, nesse país a indústria maquiadora oferecia 80 mil postos de trabalho, mas no primeiro trimestre de 2009 esse número baixou para 60 mil, devido à queda nas exportações.
A Comissão de Vestuário e Têxteis da Associação de Exportadores da Guatemala assegurou que entre janeiro e fevereiro de 2009 as exportações de têxteis caíram 31%, em relação ao mesmo período do ano passado.
Briggitte Obrock, coordenadora da Comissão de Plantas Ornamentais dessa mesma associação, afirmou que a produção do setor caíra até março em pelo menos 10%, com a consequente redução do emprego.
Trata-se de um setor que emprega 60 mil pessoas, 20 mil de forma direta. Destas últimas, 80% são mulheres.
Efeito dominó
Em Honduras, analistas e meios de comunicação coincidiram este mês que durante 2009 a crise já deixou 13 mil pessoas desempregadas, oito mil delas na indústria maquiadora. Isso depois de no ano passado o país ter perdido 120 mil postos de trabalho, sendo 28 mil nesse setor.
Guillermo Matamoros, representante da Associação Hondurenha de Maquiadoras, destacou um paradoxo do setor: é uma indústria que emprega 70% de mulheres porque as considera muito responsáveis, mas, são as primeiras a serem demitidas quando há problemas.
“O impacto é maior se considerarmos que, na média, cada emprego perdido nesse setor tem impacto em outros quatro empregos indiretos. Isso significa que se há nove mil mulheres desempregadas, há 68 mil pessoas cuja situação econômica foi afetada pela crise”, afirmou Matamoros.
A Costa Rica é um caso distinto. A maior parte das maquiadoras abandonou o território há anos devido aos altos custos sociais. O país optou por buscar empresas de alta tecnologia para obter salários mais altos e maior capacitação técnica da mão-de-obra.
Por isso, os setores mais atingidos são hotelaria e construção, embora esteja longe de escapar da crise.
O vice-ministro do Trabalho, Eugenio Solano, disse que a Costa Rica pode acabar o ano com 7% de desemprego, depois de fechar 2008 com uma taxa de 4,9%, mas, ressaltando à IPS que se trata de uma previsão que deve ser confirmada por um estudo estatístico oficial sobre o problema, atualmente em elaboração.
Dados oficiais situaram o fechamento de 2008 à participação feminina no mercado de trabalho em 41,7%, mas por outro lado em matéria de desemprego as mulheres superam os 48% das 101.905 pessoas afetadas.
Adriana Ramírez foi demitida de seu posto de recepcionista em uma empresa de serviços em agosto, quando ela e seu marido planejavam a chegada do primeiro filho.
“Meu chefe me disse que haveria modificações em meu posto. Mas o fato é que me demitiu apenas alguns dias depois de eu ter comentado com algumas colegas que estava tentando engravidar. Agora, temos de adiar este desejo porque precisamos dos salários dos dois”, disse Ramírez à IPS.
Ramírez e Vanessa Madrigal estão convencidas de que sua própria demissão tem ligação com a maternidade, embora não possam provar. A primeira sofreu o que os especialistas chamam de “demissão preventiva” e que se agrava durante a crise, quando as empresas recorrem a diferentes argúcias para evitar ter uma funcionária ausente por três ou quatro meses.
“Encontramos que alguns patrões ignoram o que diz a lei: “Que não se pode demitir mulheres grávidas ou depois do parto”, disse à IPS Erick Briones, chefe do departamento de Inspeções do Ministério do Trabalho, embora também tenha citado casos de “mulheres que acreditam que engravidando podem faltar ao trabalho”. IPS/Envolverde


