Salvador, 10/09/2009 – Testar a arte em situações limite foi um aspecto involuntário do Projeto Axé, uma organização não-governamental que se propôs criar condições para que crianças que vivem na rua ou em risco social superem a exclusão educacional, familiar e comunitária.
Criado em 1990 pelo italiano Cesare La Rocca na capital baiana, o Projeto Axé acolheu cerca de 19 mil crianças e adolescentes, e com seus métodos conseguiu que quase todos voltassem ou permanecessem na escola formal, 80% com freqüência regular e o restante de forma intermitente. Já há muitos formados ou universitários, um nível praticamente inacessível para os negros e os extremamente pobres deste país, que são quase em sua totalidade os beneficiários do projeto.
A formação oferecida também se mostrou efetiva na profissionalização. Pelo menos 15 de seus ex-alunos de dança hoje trabalham no exterior, principalmente na Europa, e muitos outros bailarinos, músicos, atores de teatro e circo além de artistas visuais estão dispersos pelo Brasil, aos quais se somam profissionais da moda e do desenho gráfico. O projeto Axé entende que “a arte é fundamental”, anão apenas para os que podem ser artistas, mas par que outros descubram seus potenciais, negados pelo fracasso escolar, e desenvolvam sua criatividade. Mas, também é crucial continuar o ensino tradicional para superar a exclusão social, segundo Marle Macedo, coordenadora de Arte-Educação do projeto.
Por isso, além de oferecer sues cursos e práticas, o Axé tenta convencer seus alunos a prosseguirem nos estudos formais, para concluir pelo menos o secundário. “É indispensável para a inserção profissional”, embora se trata de um “ensino que molda as pessoas para manter o statu quo”, disse Macedo. “Repeti muitas series, mas terminou o ensino médio, porque é condição para ser educador do Axé”, contou Anderson Góis, de 25 anos, recordando sua infância de brigas nas ruas. “Era um grito de socorro, porque alguma coisa me atormentava”, afirmou. Não gostou da vida na rua e voltou para casa, mas continuou sendo agressivo.
Anderson uniu-se ao Projeto Axé aos 9 anos, convencido por uma educadora, mas ali também se envolveu em brigas. Por isso foi excluído do grupo que viajou à Itália para apresentações de música e capoeira. Após isso, “decidi mudar e entrei para a banda Axé, vi que era capaz e pude participar de viagens a São Paulo, três vezes para a Itália e Nova York”, disse Anderson, que concluiu a duras penas o ensino secundário para se converter em educador de rua do projeto e fazer parte dos 32% de seus funcionários que, como ele, são ex-alunos.
Desejo de história
Seus companheiros Ricardo Mendes e Sandro Cardoso, de 22 e 26 anos, respectivamente, tiveram um passado semelhante. O primeiro, agora professor de música, se incorporou cedo ao Axé, aos 6 anos, ainda perplexo, “buscando resposta” para a discriminação que sofria nas ruas. Agora quer estudar direito “como profissão”, ou história, para conhecer “melhores respostas”, especialmente após viajar a Nova York, o que lhe permitiu ver melhor o “racismo disfarçado” do Brasil. “Lá é mais aparente, mas o negro está em melhores condições”, constatou. A história também interessa a Anderson e há uma carreira superior que exerce uma atração justificada sobre os negros da Bahia, Estado de acentuada maioria afrodescendente.
Essa característica também é a que faz da percussão a atividade mais atraente para as crianças e os adolescentes, segundo José Carlos Freire, musicoterapeuta e supervisor de artes na unidade do bairro historio do Pelourinho na capital baiana. O ritmo está impregnado em todos desde o útero, mas na Bahia é básico na cultura, inclusive pela forte presença do candomblé, onde o atabaque é tocado com sutilezas tão refinadas que induzem ao transe, explicou Freire.
O Axé se integra ao máximo na cultura negra local, pois oferece a prática de percussão a todos os educandos e também destaca a dança e a capoeira, disse Macedo. A própria palavra “axé” é de origem africana e significa “energia que flui entre os seres”, “força da natureza” ou “realização”, segundo diferentes interpretações. Em todo caso, expressa um princípio vital positivo. Além do projeto, foi adotada para identificar o gênero musical surgido na Bahia e de grande êxito comercial nos anos 90.
Namoro pedagógico em xeque
Apesar de seus atrativos, Sandro Cardoso resistiu a entrar para o projeto até os 11 anos. Não conheceu seu pai. Trabalhava carregando compras em um supermercado para ajudar a mãe, lavadeira que sozinha criava três filhos. Sandro entrou para o Axé quando se torno grande o medo de “desaparecer como muitos amigos”, na Kombi que as autoridades usavam para recolher as crianças de rua, para “esconder a pobreza”. Anderson, Ricardo e Sandor, os três educadores do projeto, contam com a experiência “do outro lado” para exercer o que chamam de “namoro pedagógico”, destinado a atrair as crianças de rua, aquelas que vivem permanentemente nela, assumindo sua cultura e seu modo de vida “livre”, e são mais reacionários à mudança.
O projeto atende essa população infantil que, segundo Macedo, limita-se a algumas centenas e nunca passou de 800 nas pesquisas feitas, mas, também alcança preventivamente menores em “situação de risco”, como os que ficam algumas horas nas ruas, buscando dinheiro para ajudar suas famílias. Dos atendidos pelo projeto, alguns voltaram às drogas, cometeram crimes graves ou caíram na miséria. Há também presos e assassinados, mas a metodologia desenvolvida permitiu reintegrar uma imensa maioria à escola, à família e à comunidade, assegurou Macedo.
Um problema novo surgiu em Salvador nos últimos anos, “colocando em xeque nosso trabalho”. Trata-se do crack, derivado da cocaína em forma de pedras que são aquecidas para inalação, contra o qual se chocaram todas as técnicas dos educadores do Axé, admitiu Freire. O crack “desarticula tudo”, ao gerar uma rápida e “total dependência”, acrescentou. Uma reflexão interna do Projeto Axé concluiu que os viciados em crack “devem ser internados compulsivamente para tratamento”, acrescentou.
Isto contrária posições anteriores do Axé, mas e trata de “um problema de saúde pública, não de educação”, ressaltou Macedo. Ainda são poucos as crianças e os adolescentes afetados por essa droga em Salvador, mas “contagiam e aumentam a violência nas ruras”, afirmou. “O crack não tem solução”, segundo o educador de rua Ricardo Mendes, que, como seus colegas, conta historias terríveis de viciados mortos em seus bairros, roubando e matando por dinheiro para comprar as pedrinhas. Alguns inclusive “pediram ajuda ao Axé”, que freqüentaram durante algum tempo, afirmou.
Crise financeira
Outra barreira à ação do Projeto Axé são os problemas de financiamento que forçaram a suspensão desde junho de suas atividades às terças-feiras e quintas-feiras e a promover uma campanha de captação de recursos entre empresas e contribuintes individuais. Luciana Xavier, uma educanda que se converteu em educadora de ModAxé, atividade onde de 25 a 30 pessoas aprendem desenho e produzem roupas e acessórios, se queixa que está há vários meses sem receber seu salário.
Aos 24 anos, ela é apontada como exemplo de sucesso da arte-educação: formou-se em desenho, prepara-se para um mestrado e cria sofisticados produtos, como uma coleção de joias a partir de uma pesquisa que a levou a “descobrir as heroínas negras” da história brasileira do século XIX. No Axé desde os 12 anos de idade, é a mais jovem de uma família de 14 filhos, cujo pai morreu quando Luciana nasceu. Vendeu jornal, limpou vidro de carros e mendigou nas ruas de Salvador, antes de entrar para o Projeto, onde fez curso de costura, artesanato, canto e artes visuais. Somente cerca de 30% dos participantes do Axé são meninas, proporção semelhante à presença feminina no mundo das ruas. A dança, a moda e o canto são suas atividades preferidas.
O transporte é um alto custo para a organização, que atende a uma média de 1.500 crianças e adolescentes ao ano, procedentes das mais variadas partes da área metropolitana, disse Ená Benevides, coordenadora geral do Axé. Além da passagem, são oferecidas três refeições diárias a cada um. A doação de eletrodomésticos com pequenos defeitos para serem vendidos, feita por uma empresa, ajudará a reduzir a dívida salarial, e se busca superar a atual crise com uma ampla campanha para multiplicar contribuintes, segundo a direção do Projeto.
Apesar de seus reconhecidos êxitos, os métodos e as idéias do Axé ainda não se converteram em uma política pública, como é seu objetivo. A organização tampouco conseguiu promover uma reforma no ensino estatal de Salvador, como pretendia a partir da gestão de uma escola municipal entre 1999 e 2004. Mas o Projeto desenvolveu uma proposta pedagógica que exerce uma influência difusa e fortalece muitas iniciativas sociais, educacionais e artísticas. Sua sistematização analítica foi publicada em forma de livro para comemorar o décimo aniversario de sua criação. Uma conclusão importante foi que a arte é educação em si mesma, sem necessidade de ser instrumentada pela escola para gerar efeitos positivos. Além disso, permite “aprender com prazer”, uma dimensão que não existe no ensino oficial.
Uma família axé
“O Projeto Axé foi pai e mãe para meus filhos”, afirma Creuza Maria de Jesus ao contar com criou os seis que teve com dois maridos que “faziam filhos e iam embora”. Todos passaram longos anos no projeto, onde permanece o mais jovem, de 12 anos. Os dois mais velhos, gêmeos de 28 anos, dançam e dão aulas de dança popular e capoeira na Europa, contratados por 10 anos por uma empresa. Com suas economias já adquiriram quatro casas em Salvador, uma delas para a mãe, em um bairro mal urbanizado, mas menos violento do que o lugar onde viveu 25 anos e onde viu muitos cadáveres.
O terceiro bailarino da família, Diego da Cunha, de 20 anos, estuda na Escola do Teatro Bolshoi em Joinville (SC). Revelou seu talento e “vocação maior” no Axé, onde foi recrutado pela exigente academia de balé russo. Outro filho se encaminhou para a informática. A única mulher teve sua oportunidade no ModAxé, onde participou de desfiles de moda com seu “corpo bonito”, mas desistiu.
A comida que as crianças recebiam na organização “aliviou muito” os gastos da mãe, que só precisava alimentá-los nos finais de semana. Sua renda, como lavadeira e “babá dos filhos dos outros”, dava para pouco mais além do “gás, da roupa e dos remédios”. Mas, o mais importante foi “não deixá-los soldos na rua”, segundo esta mulher de 53 anos, que por medo das drogas e da criminalidade às vezes deixava os filhos “presos em casa”. Eles, entretanto, apesar de serem crianças, a ajudaram, vendendo sanduíches, fazendo entregas e limpeza.
“Nunca tive adolescência, meus filhos sim”, concluiu Creuza, uma dessas camponesas negras que mudaram para a cidade para cumprir o “trabalho escravo” de babá e cozinheira de uma família rica, entre os 7 e os 15 anos, “sem ganhar nada” nem poder estudar, contou. Também sofreu com o preconceito. “Senti vergonha por meus filhos bailarinos”, quando a vizinhança os via como homossexuais. “Depois relaxei, já que era o melhor para eles”, que não se importavam com os estereótipos e conquistaram o respeito do bairro quando voltaram como profissionais de sucesso em suas férias.
Pai traficante, filho educador
“Após assassinarem meu pai, um traficante, minha mãe vendeu tudo e foi viver na rua comigo, aos 4 anos de idade. Gostava da rua, tinha diversão, dinheiro e liberdade para fazer o que quisesse. Lavava carros, pedia dinheiro”. Edvaldo Lima vagabundeou por muitos bairros de Salvador, foi detido algumas vezes, chegou a se sentir perseguido pela polícia e rejeitado pelas pessoas, mas resistiu ao “desejo do Axé” até os 12 anos. Depois foram 14 em várias atividades da organização, especialmente no coral e na banda de percussão, que o levaram à Itália, aos Estados Unidos, à África e a outras capitais brasileiras. Mas, somente decidiu que “não queria mais as ruas” aos 20 anos.
Seus estudos foram intermitentes, apesar da pressão da organização. Concluiu o secundário aos 25 anos. Um ano depois, em 2008, passou a educador do projeto atendendo “crianças em situação de risco” e aproveitando sua longa experiência. “Tudo de bom em minha vida aprendi no Axé, minha segunda família, e agora procuro retribuir” afirmou. Edvaldo quer estudar ates cênicas na universidade e “provar que não sou igual ao meu pai”. Muitos, inclusive sua mãe, previam para ele uma vida criminosa como a de seu pai, porque era muito agressivo, “a única forma de obter respeito sendo da rua”, explicou. Por isso quis aprender capoeira, “para brigar melhor. Eu mais temia do que admirava meu pai”, disse, mas sente sua falta até hoje. “Choro quando meu filho me diz te amo. Meu pai nunca me disse isso, e nunca pude lhe dar um beijo”, confessou. IPS/Envolverde
* O projeto que deu origem a este trabalho foi ganhador das Bolsas AVINA de Investigação Jornalística. A Fundação AVINA e a Casa Daros, parceira na categoria Arte e Sociedade, não são responsáveis pelos conceitos, opiniões e outros aspectos de seu conteúdo.
(Envolverde/IPS)


