BRASIL: Energia artística como antídoto para a exclusão

Salvador (Bahia), 01/09/2009 – Por à prova a arte em situações limite foi um aspecto involuntário Projeto Axé, uma organização não-governamental que propôs criar condições para que crianças que vivem na rua ou em situação de risco social para superem a exclusão educacional, familiar e comunitária.

 - Gentileza Mila Petrillo

- Gentileza Mila Petrillo

A estética e a ética dos direitos humanos guiam a ação desta organização que a um arsenal artístico de música, dança, capoeira, teatro, circo, moda e artes visuais para a prática de sua “Pedagogia do Desejo”, o princípio reitor é a capacidade de sonhar uma nova vida.

Fundado em 1990 pelo italiano Cesare La Rocca, em Salvador, capital do estado da Bahia, o Projeto Axé acolheu cerca de 19.000 crianças e adolescentes, e com seus métodos conseguiu que quase todos voltassem ou permanecessem na escola formal, 80% com uma frequência regular e restante de forma intermitente. Há já muitos graduados ou estudantes universitários, um nível praticamente inacessível aos negros e os extremamente pobres deste País, que são quase ia totalidade dos beneficiários do Projeto Axé.

A formação oferecida pelo Projeto também se mostrou efetiva na área profissionalizante. Pelo menos 15 de seus ex-alunos de dança trabalham no estrangeiro, principalmente na Europa, e muitos outros dançarinos, músicos, atores de teatro e de circo e artistas visuais estão espalhadas por todo o Brasil, aos quais se somam profissionais da moda e do design gráfico. O Projeto Axé entende que “a arte é fundamental”, não só para aqueles que podem ser artistas, mas para que outros descubram seu potencial, negado pelo fracasso escolar, e possam desenvolver a sua criatividade. Mas é também crucial para continuar o ensino tradicional para superar a exclusão social, Marle Macedo, coordenadora de Arte-Educação do Projeto.

Assim, além de oferecer cursos e práticas, o projeto visa a convencer os alunos a prosseguirem seus estudos formais para terminar pelo menos o ensino médio. “É essencial para a inserção profissional”, embora seja um ensino que molda as pessoas para manter o status quo, reconheceu Macedo. “Repeti muitas séries, mas eu terminei o ensino médio, porque é uma condição para ser um educador do Axé”, disse Anderson Góis, 25 anos, relembrando sua infância dificuldades nas ruas. “Foi um grito de ajuda, porque foi algo que me atormenta”, disse. Ele não gostava da vida na rua e voltou para casa, mas manteve-se agressivo.

Anderson se juntou ao Projeto Axé aos 9 anos, convencido por uma educadora, mas lá também se envolveu em brigas de gangues. Por isso foi excluído do grupo que viajou à Itália para fazer apresentações de música e capoeira, disciplina que combina dança e luta.

Após essa lição, “decidi mudar, entrei para a banda Axé, vi que era capaz e pude participar de excursões para São Paulo, três vezes para a Itália e Nova York”, disse Anderson, que concluiu a duras penas o ensino médio para se tornar educador de rua do Projeto e fazer parte dos 32% de seus funcionários que são, como ele, ex-alunos.

Desejo de história

Seus companheiros Ricardo Mendes e Sandro Cardoso, 22 e 26 anos, respectivamente, tiveram um passado semelhante. O primeiro, agora professor de música, juntou-se ao Axé cedo, aos 6 anos, ainda perplexo, “à procura de resposta” para a discriminação que sofria pelas ruas. Agora ele quer estudar direito, “como uma profissão”, ou história, para aprender as “melhores respostas”, especialmente depois da viagem para Nova York, que lhe permitiu ver melhor o “racismo disfarçado” do Brasil. “Lá é mais aparente, mas o preto está em melhores condições”, disse. A história também interessa a Anderson e é uma carreira superior que exerce uma atração justificada sobre os negros na Bahia, o Estado brasileiro de acentuada maioria de afrodescendentes.

Esta característica é também a torna a percussão a atividade mais atraente para crianças e adolescentes, de acordo com José Carlos Freire, musicoterapeuta e supervisor das artes na unidade do Pelourinho, bairro histórico de Salvador. O ritmo está impregnado em todos desde o útero, mas na Bahia é básico na cultura, até mesmo pela forte presença do candomblé, religião de origem africana, na qual o atabaque é tocado com sutilezas tão refinadas que induzem transe, disse Freire. Axé integra o melhor da cultura negra local, oferecendo a prática de percussão para todos os alunos e também enfatiza a dança e a capoeira, disse Macedo. A própria palavra “axé” é de origem africana e significa “energia que flui entre os seres,” força “da natureza” ou “realização”, de acordo com diferentes interpretações. Em todo caso, expressa um princípio de vida positivo. Além do mais, o projeto, foi adotado para identificar um gênero musical surgido na Bahia, o grande sucesso comercial nos anos 90.

Namoro pedagógico em cheque

Apesar de seus atrativos, Sandro Cardoso resistiu a entrar no Projeto Axé até os 11 anos de idade. Ele nunca conheceu seu pai. Trabalhava carregando compras em um mercado de rua para ajudar a mãe, uma lavadeira, que criava três filhos sozinha. Sandro foi recebido no projeto tornou-se intenso o medo de “desaparecer como muitos amigos” na Kombi que as autoridades utilizavam para recolher as crianças de rua, a fim de “esconder a pobreza”.

Anderson, Richard e Sandra, os três educadores do Axé, têm a experiência “do outro lado” de exercer o que eles chamam de “namoro pedagógico”, destinado a atrair as crianças de rua, aqueles que vivem permanentemente nela, assumindo a sua cultura e modo de vida “livre”, e são mais resistentes à mudança. O projeto atende essa população infantil que, segundo Macedo, é limitado a algumas centenas e nunca passou dos 800 nas pesquisas realizadas, mas também alcança preventivamente menores em “situação de risco”, como os que permanecem algumas horas nas ruas, em busca de dinheiro para ajudar suas famílias. Dos atendidos pelo Projeto, alguns voltaram às drogas, cometeram crimes graves ou caíram na miséria. Há também presos e assassinados, mas a metodologia desenvolvida permitiu reintegrar uma imensa maioria à escola, à família e à comunidade, assegurou Macedo.

Mas, um problema novo surgiu em Salvador nos últimos anos, “colocando em xeque nosso trabalho”. Trata-se do crack, um derivado da cocaína em forma de pedra que é aquecido e inalado, com o qual se chocaram todas as técnicas dos educadores do Axé, admitiu Freire. O crack “desarticula tudo”, ao gerar uma rápida e “total dependência”, acrescentou.

Uma reflexão interna do Projeto Axé concluiu que os viciados em crack “devem ser internados compulsivamente para seu tratamento”, ressaltou Freire. Isto contraria posições anteriores do Axé, mas se trata de um “problema de saúde pública, não de educação”, explicou Macedo. São poucos ainda as crianças e adolescentes degradados por essa droga em Salvador, mas “contagiam e aumentam a violência nas ruas”, explicou. “O crack tem solução”, diz o educador de rua Ricardo Mendes, que, como seus colegas, conta historias terríveis de viciados mortos em seus bairros, roubando e matando por dinheiro para comprar as pedras. Alguns inclusive “pediram ajuda ao Axé”, que freqüentaram durante algum tempo, afirmou.

Crise financeira

Outra barreira à ação do Projeto Axé são os problemas de financiamento que o obrigaram a suspender desde junho suas atividades às terças-feiras e quintas-feiras e promover uma campanha de captação de recursos entre empresas e contribuintes individuais. Luciana Xavier, que se converteu em educadora de ModAxé, atividade na qual de 25 a 30 pessoas aprendem desenho e produzem roupas e complementos, queixa-se de que está há vários meses sem receber seu salário. Aos 24 anos, é apontada como exemplo de êxito da arte-educação: formou-se em desenho, se prepara para um mestrado e cria sofisticados produtos, como uma coleção de jóias a partir de uma pesquisa que a levou a “descobrir as heroínas negras” da história brasileira do século XIX.

No Axé desde os 12 anos, é a mais nova de uma família de 14 filhos, cujo pai morreu quando Luciana nasceu. Ela vendeu jornal, limpou pára-brisa de carros e mendigou nas ruas de Salvador, antes de entrar para o Projeto, onde fez cursos de costura, artesanato, canto e artes visuais. Apenas 30% das participantes do Axé são meninas, proporção semelhante à presença feminina no mundo das ruas. A dança, a moda e o canto são suas atividades preferidas.

O transporte constitui um elevado custo para a organização, que atende uma média de 1.500 crianças e adolescentes por ano, procedentes das mais variadas partes da área metropolitana, disse Ená Benevides, coordenadora geral do Axé. Além da passagem, são oferecidas três refeições diárias a cada um. A doação de produtos eletrodomésticos com pequenos defeitos para serem vendidos, feito por uma empresa, resolverá a dívida salarial, e busca-se superar a atual crise com uma ampla campanha para multiplicar contribuintes, segundo a direção.

Apesar de seus reconhecidos êxitos, os métodos e as idéias do Axé ainda não se converteram em uma política pública, como é seu objetivo. A organização tampouco conseguiu promover uma reforma do ensino estatal de Salvador, como pretendia a partir da gestão de uma escola municipal entre 1999 e 2004. Mas o projeto desenvolveu uma proposta pedagógica que exerce uma influência difusa e fortalece muitas iniciativas sociais, educativas e artísticas. Sua sistematização analítica foi publicada na forma de livro em 1990, comemorando o décimo aniversario da organização. Uma conclusão importante foi que a arte é educação em si mesma, sem necessidade de ser instrumentada pela escola para ter efeitos positivos. Além disso, permite “aprender com prazer”, uma dimensão que não existe no ensino oficial.

UMA FAMÍLIA AXÉ

“O Projeto Axé fio mãe e pai para meus filhos”, sintetiza Creuza Maria de Jesus ao detalhar como criou os seis que teve com dois maridos que “faziam os filhos e partiam”. Todos passaram longos anos no projeto, onde permanece a mais jovem, de 12 anos. Os dois mais velhos, gêmeos de 28 anos, dançam e dão aula de dança popular e capoeira na Europa, com contratos de 10 anos com uma empresa. Com suas economias já compraram quatro casas em Salvador, uma delas para a meã, em um bairro mal urbanizado, mas menos violento do que onde viveu 25 anos e no qual viu muitos cadáveres.

O terceiro bailarino da família, Diego da Cunha, de 20 anos, estuda na Escola do Teatro Bolshoi em Joiville (SC). Revelou seu talento e “vocação maior” no Axé, onde foi descoberto pela exigente academia de balé russo. Outro filho se encaminhou para a informática. A única mulher teve sua oportunidade no ModAxé,onde participou de desfiles de moda com seu “corpo bonito”, mas, desistiu.

A comida que seus filhos recebiam na organização “aliviou muito” os gastos da mãe que só tinha que alimentá-los nos finais de semana. Sua renda, obtida lavando roupa e “cuidando dos filhos dos outros”, dava para pouco mais do que “o gás, a roupa e remédios”. Mas, o mais importante foi “não deixá-los soltos na rua”, segundo esta mulher de 53 anos, que por medo das drogas e da delinqüência às vezes deixava os filhos “trancados em casa”. Mas eles também ajudaram, apesar de crianças, vendendo sanduíches, fazendo entregas e limpeza.

“Eu nunca tive adolescência, meus filhos sim”, concluiu Creuza, uma dessas camponesas negras levadas à cidade para cumprir o “trabalho escravo” de babá e cozinheira de uma família rica dos 7 aos 15 anos, “sem ganhar nada” nem poder estudar, contou.

Também sofreu preconceito. “Senti vergonha por meus filhos bailarinos”, quando a vizinhança os via como homossexuais. “Depois relaxei, já que era o melhor para eles”, que não davam importância e conquistaram o respeito do bairro quando regressaram com profissionais de sucesso em suas férias.

PAI TRAFICANTE, FILHO EDUCADOR

Depois que assassinaram meu pai, um traficante, minha mãe vendeu tudo e foi viver na rua comigo, aos 4 anos de idade. Gostava da rua, tinha diversão, dinheiro e liberdade para fazer o que quisesse. “Limpava carros, pedia dinheiro”. Edvaldo Lima vagou por muitos bairros de Salvador, foi detido algumas vezes, chegou a se sentir perseguido pela polícia e rechaçado pelas pessoas, mas resistiu ao “desejo do Axé” até os 12 anos. Depois foram 14 em várias atividades da organização, especialmente no coro e na banda de percussão, que o levaram à Itália, Estados Unidos, África e capitais brasileiras. Mas, somente decidiu que “não queria mais saber da rua” aos 20 anos.

Seus estudos foram intermitentes, apesar da pressão da organização. Concluiu o secundário aos 25. um ano depois, em 2008, passou de educando a educador do Projeto, atendendo “crianças em situação de risco” e aproveitando sua longa experiência. “Tudo de bom em minha vida aprendi no Axé, minha segunda família, e agora procuro retribuir”, afirmou. Edvaldo quer estudar artes cênicas na universidade e “provar que não sou igual ao meu pai”.

Muitos, inclusive sua mãe, previam uma vida criminosa para o menino, porque era muito agressivo, “a única forma de obter respeito sendo da rua”, explicou. Por isso quis aprender capoeira, “para brigar melhor”. Eu “tinha mais medo do que admiração pelo meu pai”, disse, mas sente sua ausência até hoje. “Chjoro quando meu filho me diz te amo. Meu pai nunca me disse isso, e nunca pude lhe dar um beijo”, confessou. IPS/Envolverde

* O projeto que deu origem a este trabalho foi ganhador das Bolsas AVINA de Investigação Jornalística. A Fundação AVINA e a Casa Daros, parceira na categoria Arte e Sociedade, não são responsáveis pelos conceitos,opiniões e outros aspectos de seu conteúdo.

(Envolverde/IPS)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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