Havana, 28/09/2009 – Há mais de três anos que se separou de sua segunda mulher e descobriu que não tinha um lar para onde regressar.
“Neste tempo trabalhei como guarda noturno em lugares onde podia dormir. Agora estou há alguns meses sem trabalho. Às vê durmo no corredor de algum edifício ou no sótão de alguns amigos, mas não é fácil o frio que faz lá em cima. Quase sempre fico no parque”, contou à IPS este homem de 59 anos.
Assegurou que nunca lhe falta dinheiro, a rouba guarda na casa de alguns amigos e toma banho regularmente, sempre procurou ser um homem honesto e trabalhador, mas, no pior momento de sua vida não houve uma amizade, um familiar ou um filho em condições de lhe oferecer um espaço para viver.
Com sua primeira mulher, mãe de dois de seus filhos e a quem continua “querendo como no primeiro dia”, nem mesmo conseguiu manter uma amizade. Olhando para trás reconhece que bebia muito, sempre chegava tarde e bêbado em casa, não deixava faltar nada material, mas não lhe dava o que ela precisava: “lhe faltava eu”, disse.
Muito concentrados em fazer suas vidas, nenhum de seus três filhos, apesar de gestos isolados, pôde atenuar o abandono e a solidão. “Aqui não tem homem duro”, reconhece agora, com lágrimas nos olhos, é um dos momentos-chave do documentário “O pai nosso. O masculino e o feminino de nossas almas”.
Martinez foi encontrado pela diretora cubana Lizette Vila para ser o fio condutor de uma historia que pretende “registrar em tempo real” a construção social da masculinidade a partir de uma percepção de absoluta vulnerabilidade emocional, sentimental e humana.
Vitima de um dos problemas sociais mais graves de Cuba, o déficit de moradia, também é a síntese desse homem que, desde muito pequeno, foi educado nas rígidas margens da masculinidade heterossexual hegemônica que só quando colocado no limite começa a falar dos sentimentos.
“Se os homens se dessem conta de que têm direito de chorar, de confessar seus sentimentos publicamente, de usar suas cores mais sublimes, de conviver com o humano e o divino, não estaríamos, talvez, falando de violência, de vulnerabilidades humanas, de desafios com caminhos cada vez mais lentos”, disse Vila à IPS.
Diretora geral do projeto cultural Palomas e realizadora de uma longa lista de documentários, vários deles sobre homens, Vila está convencida de que o macho cubano, como o mexicano ou o latino em geral, sofre muito porque não lhe é dada a possibilidade de surgir desde uma percepção de paz”.
Vulnerabilidade masculina
Estes homens “vivem em uma competição latente, na necessidade de enganar amorosamente, de ser ícone sexual, e acabam se escondendo quando têm dificuldades com sua sexualidade ou sua próstata. São escravos de um poder imaginário e se tornam muito vulneráveis porque não são nem tão rígidos e nem tão fortes, são seres humanos”, afirmou.
Em Cuba, com população de 11,2 milhões de pessoas, divididas quase em partes iguais entre homens e mulheres, a taxa bruta de divórcios saltou de 0,41 por mil habitantes, em 1955, para 3,2 por mil em 2006, segundo estudo da pesquisadora Maria Elena Benítez, do Centro Demográfico da Universidade de Havana.
Diferentes estudos coincidem em afirmar que, apesar de viver em sociedades patriarcais onde ostentam o poder e o exercem sobre a mulher e a família, o modelo de masculinidade socialmente imposto coloca os homens diante de uma situação de vulnerabilidade que passa pelo cuidado com a saúde e os coloca, constantemente, em contextos violentos.
No geral, as mulheres estão melhor preparadas para enfrentar a aposentadoria e a viuvez, ao longo da vida estabelecem laços de amizade profundos e duradouros e qualitativamente diferente dos homens e, em casos de perda da casa ou de solidão, costumam ser melhor acolhidas por familiares ou amigos.
Elas, também marcadas nos estereótipos de gênero e na função social que cumpriram ao longo de suas vida, são vistas como uma possível ajuda no cuidado da casa e da família. Eles, embora tragam dinheiro, são recebidos como uma carga extra, alguém com quem se preocupar, e, em casos extremos, como um verdadeiro estorvo.
“O homem cai na solidão, na depressão, não sabe o que fazer de sua vida. Ao final, a masculinidade o leva à dependência total da mulher, à inutilidade, a um processo doloroso”, disse à IPS Julio César González Pagés, professor da Universidade de Havana e coordenador da Rede Iberoamericana de Masculinidades.
Embora não existam estatísticas públicas sobre as pessoas que vivem em situação de indigência em Cuba, uma pesquisa da especialista em antropologia social Juana Maria Jiménez conclui que a maioria é da terceira idade, predominantemente do sexo masculino, sem filhos nem parentes próximos e com riscos de alcoolismo.
Em condições sociais diferentes, os homens também são maioria entre os que vivem nas ruas. Um estudo de caso realizado na cidade espanhola de Barcelona mostra que 89,5% das pessoas sem teto eram homens, mas, ao contrário de Cuba, 62% eram imigrantes estrangeiros.
No final de 2007, 184 milhões de pessoas viviam na pobreza na América Latina e no Caribe, 68 milhões delas em condições de indigência, segundo o Panorama Social da América Latina 2008, publicado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).
Do total, cerca de 120 milhões carecem de moradia ou vivem em casas de papelão.
No entanto, o último Informe Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio apresentado por Cuba reconhece que, mesmo com amplas garantias de segurança e assistência social, foram identificados na ilha sinais de vulnerabilidade familiar como envelhecimento, baixa renda e privações de casa ou de seu equipamento.
Homens com alma de mulher
“Sou pobre, estou na rua, mas não sou um indigente… tenho de andar bem limpo”, afirma Martinez em uma seqüência que alterna com outras imagens masculina: um homem quase nu dormindo na calçada, outro com uma garrafa de rum nas mãos, um terceiro vasculhando no lixo e vários outros matando o tempo em uma mesa de dominó.
“Um homem que está se afogando precisa de uma mão que o ajude?”, perguntou Lizette Vila ao mostrar à IPS as fotos de um cubanos regatado do mar muito tarde. “Todos o viram se afogar e ninguém se moveu para ajudá-lo. O que teria acontecido se fosse uma mulher se afogando?”, disse.
Certa de ser uma “mulher-homem”, desde o momento em que reconheceu o masculino que há nela, Vila considera que “se todo mundo compreendesse que esses dois elementos são psicológicos, sociológicos e podem ser perfeitamente complementares, haveria muito mais sustentabilidade na igualdade dos gêneros”.
“Se os homens e as mulheres pudessem reconhecer o masculino e o feminino que tem cada um e cada uma, a construção da personalidade, a interação social, inclusive a reconstrução de suas próprias vidas em qualquer circunstância, seria muito mais harmoniosa”, assegurou.
E, acrescentou, “quando digo harmônica estou falando de igualdade, de justiça e de direitos”.
(Envolverde/IPS)


