Montevidéu, 30/09/2009 – Destacar a herança negra na cultura e nos costumes da América Latina é o primeiro passo para resgatar a população afrodescendente da exclusão e marginalização em que ainda vive, concluiu um seminário regional realizado na capital do Uruguai
Do seminário, que começou domingo e terminou ontem, participaram representantes de Brasil, Argentina, Belize, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.
“É muito difícil encontrar dados sobre a população afrodescendente. Não existem estatísticas para saber o que está acontecendo, não há indicadores específicos de seus níveis de mortalidade infantil ou materna, ou de nutrição”, disse à IPS a diretora regional para América Latina e Caribe do Pnud, Rebeca Grynspan, ao explicar o conceito de “invisibilidade” manejado no encontro. “Só podemos nos aproximar territorialmente, pois muitos vivem em regiões bastante identificáveis, e então podemos saber o que ocorre apenas por via indireta”, afirmou.
Mas os afrodescendentes também sofrem uma “invisibilidade de sua contribuição à América Latina, de sua contribuição histórica, de seus movimentos, de sua contrição cultural, de sua influência no que fazemos, no que cantamos”. O Pnud realiza uma série de projetos para recuperar a “visibilidade” da população negra na região, especialmente realçando sua influência na cultura latino-americana e procurando obter mais informação sobre a situação desse setor quanto à situação de seus direitos. “Este é o primeiro passo, porque se você não vê algo, tampouco se preocupa, não pensa que é preciso melhorá-lo e nem acredita que existe um problema”, acrescentou Grynspan.
Apesar da “invisibilidade estatística”, o Pnud pôde constatar uma grande desigualdade em termos de condições de vida e acesso a serviços para os afrodescendentes, como saúde e educação. Na Colômbia, a taxa de analfabetismo nacional é de 6%, enquanto entre a população afro-colombiana chega a 31%. No Peru, a escolaridade média está em 7,3 anos, mas entre os negros é de 6,3. Segundo o Pnud, a incidência da extrema pobreza entre indígenas e afrodescendentes duplica, aproximadamente, a constatada no restante da população da região.
No Uruguai, a remuneração média de um homem assalariado negro equivale a 70% da de um que não seja afrodescendente. No Brasil, o desemprego afeta mais os afrodescendentes do que o resto da população, e quando se incorpora a dimensão de gênero, se percebe que a falta de trabalho entre as mulheres negras mais do que duplica a dos homens negros. Sessenta por cento da população negra colombiana não têm acesso a serviços básicos de saúde, enquanto 51% não possuem seguro medico, afirmou o Pnud. A taxa de mortalidade infantil na América Latina, segundo os últimos dados, é entre 40% e 50% mais alta entre os afrodescendentes do que entre os demais habitantes.
Embora admita que a crise econômica também afetou especialmente este setor, Grynspan destaca que “a discriminação não se reflete apenas no material, sendo mais profunda. É um problema de discriminação cultural, discriminação em termos dos direitos, e as instituições reproduzem essa discriminação que atenta contra nossos valores éticos de igualdade”, disse à IPS. Os presentes ao encontro coincidiram quanto à necessidade de utilizar a cultura como mecanismo integrador.
Por exemplo, no Uruguai “a difusão do candomblé, transformando-se em um sinal de identidade de toda a população, é um modelo de ponte entre as diferentes raças, um símbolo de unidade e integração social e, portanto, um canal para a superação da população negra”, disse à IPS o deputado uruguaio Edgardo Ortuño, da governante coalizão esquerdista Frente Ampla. “A cultura é uma grande ponte de união entre os seres humanos acima das diferenças étnicas e raciais, e tem potencial para sensibilizar e promover valores de integração humana muito importante”, acrescentou Ortuño, o primeiro e até agora único deputado negro do Uruguai.
Por sua vez, Silvia García Savino, diretora do projeto “População afrodescendente da América Latina”, do Pnud, também destacou a importância da “visibilidade” cultural. “Coincidimos quanto a necessidade de deixar clara a cultura da população afrodescendente, esses traços, esses modos e recursos da linguagem, essa sabedoria comunitária, que geralmente se conhece através da musica e da dança”, disse ao término do seminário. “Queremos cidadãos que desfrutem plenamente seus direitos, e cremos que o reconhecimento dos direitos culturais terá um impacto positivo sobre os demais direitos. Temos de continuar por esse caminho”, acrescentou.
Também se destacou como símbolo de importante peso em todo mundo a chegada ao governo dos Estados Unidos de Barack Obama, primeiro presidente negro desse país. “É dos mais simbólicos e poderosos fatos dos últimos tempos, na medida em que transmite a ideia de possibilidade de superação de toda a coletividade negra com esforço e, ao mesmo tempo, nos manda um forte sinal de avanço da sociedade (norte-americana) em seu conjunto, colocando os valores humanos acima das diferenças raciais”, disse Ortuño. “Vindo de um país com uma historia de racismo muito dura como os Estados Unidos, irradia-se para todo o mundo um sinal de esperança e integração social que devemos reproduzir em toda a América Latina”, acrescentou. IPS/Envolverde


