México, 29/09/2009 – Há mudanças que por serem silenciosas só são percebidas quando a nova realidade se instala. É o que correu no campo mexicano, onde fatores econômicos e sociais o deixaram em mãos majoritariamente das mulheres.
Fundamentalmente, a camponesa preencheu o vazio deixado pelo homem, somando às suas tarefas anteriores a de agente produtivo em uma feminização da economia rural, sintetizou o Banco Interamericano de Desenvolvimento.
Alberto Cárdenas, ministro da Agricultura e do Desenvolvimento Rural até o último dia 7, explicou pouco antes de deixar o cargo que essa pasta procura reorientar suas prioridades e seus recursos para responder à “feminização do campo” e mudar a cultura e as práticas machistas na atividade agrícola.
Verônica Martinez, produtora de flores de 29 anos, está à frente do negocio herdado de seus país e recebeu este ano crédito brando de US$ 22 mil, de um fundo estatal, para substituir a cobertura de suas estufas nos 650 metros de terreno onde sua família começou a plantar dálias há 20 anos.
“Graças a isso pude multiplicar a semeadura”, disse à IPS no povoado de San Gregorio, ao sul da capital, enquanto verificava as 40 mil sementes recém-plantadas de amor-perfeito e zempasúchtil, uma flor amarela muito usada no México no dia 2 de novembro, quando é celebrado o Dia dos Mortos.
San Gregorio faz parte da demarcação de Xochimilco (campo de flores, em língua náhuatl) que agora integra o Distrito Federal e onde a tradição de cultivar flores em uma especie de jardins flutuantes em seus lagos remonta a tempos ancestrais.
O caso de Martinez não é a maioria nas estatísticas, que dizem que o novo peso da mulher na agricultura não se traduziu em mudanças notáveis nos padrões da propriedade e do acesso a recursos como água e crédito, em uma ampliação de direitos ou em uma maior liderança feminina no desenvolvimento rural.
Ao contrário, a situação da mulher rural e de suas famílias se deteriorou em um fenômeno paralelo à deterioração do agro mexicano, devido ao Tratado de Livre Comércio da América do Norte, com Canadá e Estados Unidos, que desde sua entrada em vigor em 1994 pôs um torniquete ao desenvolvimento agrícola mexicano.
A população do México é de 107,6 milhões, dos quase 24,2 milhões vivem em 196 mil localidades com menos de 2.500 habitantes. Pouco mais da metade desse número, 12,3 milhões, são mulheres, segundo o Instituto Nacional de Estatística.
Entretanto, as mulheres representam 25% dos 4,5 milhões dos que possuem títulos de propriedade de direitos agrários. No país há 31.514 “ejidos” e comunidades que manejam quase 106 milhões de hectares.
Um “ejido” é um território usado em sistema de uso-fruto por um grupo camponês, com base na Lei Agrária de 1915, enquanto uma comunidade rural é uma exploração coletiva que data de muitos anos, inclusive séculos.
Na localidade de Santa Rosa de Lima, no central Estado de Querétaro, a 250 quilômetros ao norte da capital, um grupo de seis mulheres e um homem formaram há quatro anos a cooperativa Delícias Santa Rosa, que produz doces de tamarindo e goiaba, sementes assadas e fruta cristalizada em açúcar, entre outras guloseimas.
“Compramos a matéria-prima na região e tudo é artesanal”, disse à IPS Alejandra Olvera, uma de suas integrantes.
Um fundo estatal lhes emprestou US$ 16 mil em condições especiais, com os quais compraram um veiculo e ferramentas, para melhorar sua produtividade e distribuição.
“É um projeto rentável. Podemos viver disso e enviar nossos filhos à escola. Além do mais, a maioria das mulheres é de mães e assim não saem da comunidade”, afirmou Olvera.
Povoados sem homens
Garantir a sustentabilidade de comunidades rurais é um dos desafios em um país que viu como muitos povoados ficaram literalmente “vazios de homens” em Estados como Oaxaca e Guerrerno, no sul; Michoacán, no nordeste, ou o central Guanajuato, em uma maciça imigração masculina para os Estados Unidos e as cidades.
A isso soma-se a migração interna entre regiões agrícolas, em que famílias inteiras ou homens sozinhos se deslocam, geralmente desde o pobre sul do país para Estados do norte como Sinaloa e Sonora, para trabalhar em empresas agroindustriais.
Além disso, estima-se que a cada ano cerca de um milhão de pessoas deixam temporariamente seus locais de residência para trabalhar em atividades agrícolas no próspero norte mexicano. Estes diaristas se deslocam em 55,4% em grupo familiar.
As tarefas agrícolas continuam sendo, em geral, a dedicação de apenas 17,8% do total dos emigrantes rurais.
“A posição da mulher se deteriorou, pois há regiões onde a marginalização é muito grande e é principalmente ali onde pela migração masculina a mulher assumiu os encargos de levar dinheiro para casa”, explicou à IPS José da Cruz, professor do privado Instituto de Estudos Superiores de Monterrey.
Pelo menos 60% das mulheres que participam da atividade econômica na área rural não recebem remuneração ou trabalham por conta própria e, em geral, as mulheres do setor carecem de contrato e de acesso a serviços sociais.
Sete em cada 10 lares camponeses têm a mulher como único suporte da economia familiar. Além disso, a renda de 34,7% dos lares rurais que têm na chefia uma mulher é igual ou inferior ao salário mínimo mexicano, e a de 34,3% oscila entre um e dois salários mínimos.
De fato, apenas 31% das famílias rurais que tem à frente uma mulher obtêm mais de dois salários mínimos por mês, que no México está em torno dos US$ 120,00.
A Rede de Promotoras e Assessoras Rurais realizou uma pesquisa com mulheres do campo em 11 dos 32 Estados mexicanos, que mostrou que elas sofrem um aumento de trabalho, renda móvel, menor consumo de alimentos e combinação do impacto de baixos preços de seus produtos e alta de bens básicos de consumo, como óleo, carne e outros.
Para esta organização, a maneira de romper esta inércia é favorecer a produção para o autoconsumo e limitar a dependência do mercado.
Uma nova realidade de paradoxos
Entre os paradoxos que florescem no campo mexicano na nova realidade em construção se destaca que a migração para os Estados Unidos alterou seu desenvolvimento, sendo, por sua vez, os recursos provenientes dessa emigração que sustentam o mundo rural.
No primeiro semestre de2009, o México recebeu US$ 12,912 milhões em remessas, apesar de este ano este setor sofrer queda de 11% pelo impacto da crise financeira mundial, segundo previsões oficiais.
“O problema se exacerbou com a migração masculina e deixou à mulher o trabalho em um campo sem recursos financeiros e despovoados”, destacou de la Cruz.
E esses recursos são majoritariamente administrados pelas mulheres que os emigrantes deixaram para trás, cuidando das famílias e das terras, quanto as tinham em propriedade ou uso-fruto.
Embora o governo tenha implementado programas de apoio a projetos produtivos dirigidos por mulheres, não conseguiu resolver os problemas de fundo do meio rural.
No ano passado, as mulheres foram beneficiárias de 32% dos programas de capacitação e assistência técnica da Secretaria de Agricultura e de 60% do projeto Estratégico para a Segurança Alimentar, afirmou Cárdenas antes de deixar o cargo de ministro do setor.
“Os programas são positivos, mas, deveriam estar voltados ao desenvolvimento de pessoas com maior capacidade de empreendimento. Devem ter a função de gerar maior valor agregado”, disse de la Cruz.
A feminização agrícola se dá em condições de desvantagem porque a mulher é tradicionalmente marginalizada de elementos primordiais na produção, com a propriedade, o crédito ou a assistência técnica e financeira.
Além disso, sua incorporação como produtora por conta própria ou assalariada ocorre em condições de maior precariedade do que no caso do homem, por sua menor escolaridade e capacitação, junto com o fato de precisar compartilhar seu novo papel com os que lhe são tradicionais, como cuidar da casa, a reprodução e a família.
Porém, especialistas como de la Cruz e organismos nacionais e internacionais coincidem em afirmar que o resgate do ambiente rural é uma necessidade estratégica para o México e que o mesmo dependerá de as mulheres do campo se capacitarem e se desenvolverem como produtoras, o que, por sua vez, levará a mudanças em seus papeis tradicionais.
Entretanto, experiências positivas nesse caminho, como a da floricultura Martinez ou da cooperativa Delicias Santa Rosa, são ameaçadas por uma conjunção de problemas como a recessão econômica mexicana e a seca que afeta boa parte de seu território.
Uma conjuntura que coloca o mundo rural mexicano e as mulheres encarregadas majoritariamente dele perante uma crise em sua já minguada renda e perante o risco de uma crise alimentar.
Olvera tem clara a receita para que isso não aconteça: “mais recursos, mais capacitação, mais assistência técnica e mais participação nas decisões para as mulheres. Com tem sido, agora o campo está em mãos femininas, dizem, pois então que nos levem em conta”, ressaltou. IPS/Envolverde


