Bangcoc, 04/09/2009 – O regime militar da Birmânia recorre a uma conhecida estratégia: enviar tropas para impor sua vontade no nordeste, fronteiriço com a China. A operação joga por terra um acordo de paz assinado há 20 anos com a organização rebelde da etnia kokang, que controla parte desse terreno montanhoso.
Os kokang são uma das quatro etnias rebeldes que assinaram acordos de cessar-fogo entre 1988 e 1989. O recomeço das hostilidades tem muito a ver com as eleições gerais prometidas para o próximo ano pelo regime militar. A junta quer que após as eleições de 2010 surja uma “democracia que prospere na disciplina”. Caso se concretize, este ato eleitoral será o primeiro depois que os resultados do último, em 1990, foram anulados.
Os enfrentamentos entre as forças birmanesas e os kokang começaram no início de agosto, e cresceram no final desse mês em uma área perto da fronteira chinesa. Ainda se desconhece a quantidade de vítimas. “Cerca de sete mil soldados com tanques, blindados e canhões pesados tentam controlar a região. A junta está enviando mais três mil efetivos”, disseram representantes da Campanha dos Estados Unidos pela Birmânia, uma organização de exilados políticos birmaneses com sede em Washington.
Ontem, uma tensa calma havia voltado a Laogai, capital da região do Kokang, no Estado de Shan, agora nas mãos dos soldados, segundo uma trabalhadora de assistência humanitária que pediu para não ser identificada. “Cerca de 40 mil pessoas que fugiram dos confrontos cruzando a fronteira para a China começaram a voltar”, afirmou. Ouviam-se sons esporádicos de tiroteios, recordou, dizendo que os moradores do lugar não estavam certos de recorrerem a “ataques guerrilheiros” contra as forças do exército caso os rebeldes de Kokang sejam derrotados. Em Laogai há uma forte presença de empresários chineses que participam da economia fronteiriça como mineração e cassinos.
Os combates interromperam os programas agrícolas administrados pelo Programa Mundial de Alimentos, única agência da Organização das Nações Unidas com presença permanente nesta região conhecida pro seus cultivos de papoulas, de onde se extrai o ópio, e pelo florescente comércio de narcóticos. “Nossas operações foram suspensas. A população da área é pobre e depende de nossos programas como alternativa ao cultivo de papoula”, disse Chris Kaye, chefe de operações do PMA na Birmânia, em entrevista por telefone desde Rangun. O trabalho desta agência da ONU implica ajudar os membros da etnia kokang a cultivar chá, arroz e milho como fonte alternativa de renda, e também ajuda os moradores a superarem a insegurança alimentar.
Isto ocorreu depois que os líderes dos grupos étnicos anunciaram o fim do cultivo de papoula em 2005, na área que fez parte do Triângulo dourado, uma das maiores zonas produtoras de ópio da Ásia. Porém, preocupa o fato de o ataque dos soldados não ser um fato isolado, mas parte de um plano mais amplo da junta para perseguir outros grupos étnicos armados ao longo da fronteira nordeste do país. Entre eles estão os wa, os rebeldes mais armados, com uma força de aproximadamente 25 mil integrantes, e os kachin, um grupo menor. São preocupações geradas pelos acontecimentos políticos das áreas étnicas do país, que nunca puderam controlar todas suas fronteiras desde que ficaram independentes da Grã-Bretanha há seis décadas.
O país tem 135 grupos étnicos registrados, dos quais o birmanes é o maior. Dezenas de rebeldes iniciaram batalhas separatistas para criar Estados independentes. A paz voltou à fronteira nordeste da Birmânia no final dos anos 80, depois que os wa, os kachin e os kokang uniram-se a outros 14 movimentos étnicos insurgentes para assinar acordos de cessar-fogo em troca de maior autonomia política, liberdade para suas comunidades e mais independência econômica. “O ataque contra os kokang é uma tentativa de intimidar os outros grupos do cessar-fogo para que se alinhem com os planos do regime para as eleições do ano que vem”, disse Win Min, especialista em segurança nacional da Universidade de Payap na localidade tailandesa de Chiang Mai. “Negociarão com eles, um a um, para impor o que a junta pensa que será a unidade no país. Mas trata-se apenas de uma unidade imposta militarmente. O exército birmanês não terá vida fácil. Ir atrás dos wa causará muitas vítimas, porque são o grupo étnico armado mais forte do país”, disse Min por telefone.
Este ponto de vista é reiterado por outras pessoas familiarizadas com esta região birmanesa, parte do Estado de Shan e que abriga a grande comunidade de mesmo nome. “Se o regime birmanês pensa que poderá submeter os grupos étnicos rebeldes antes das eleições está sonhando. Haverá uma escalada das lutas na fronteira”, disse à IPS Khuensai Jaiyen, editor da Shan Herald Agency for News.
“Os ataques são uma violação do cessar-fogo e nos preocupa quem será o próximo alvo”, disse o coronel James Lum Dau, subchefe de Relações Exteriores da Organização para a Independência Kachin. “Eles querem que mudemos militarmente e fiquemos sob completo controle birmanês antes das eleições. Somos contra isso”, ressaltou. “Isso pode ser bom para eles, mas não para nós. Esta é uma solução militar e não política. Estamos prontos para apoiar as eleições que garantirão nossa liberdade”, afirmou por telefone.
Sob a nova Constituição, aprovada em 2008 num referendo fraudulento, na Birmânia só pode haver um grupo armado, o exército. E para fazer com que muitos grupos étnicos armados cumpram essa disposição, o regime militar ordenou a todas as organizações insurgentes que se convertam em parte de uma guarda fronteiriça antes das eleições. Essa força, anunciada em abril, despojará os rebeldes de sua força militar e de sua independência neste sentido, já que cada um dos batalhões limítrofes ficará sob comando de um oficial birmanês. Foi um plano de desarmamento rechaçado pelos kokang e pelos combatentes wa e kachin, entre outros. “É impensável esperar que os wa cumpram o plano da guarda fronteiriça. Seu ódio pelos birmaneses está profundamente arraigado”, disse à IPS um diplomata europeu que visita a Birmânia com regularidade e que pediu para não ser identificado. “Também há oposição a esta nova força porque nenhum destes grupos étnicos sabe quais concessões políticas serão feitas depois da votação. As próximas semanas revelarão se os ataques contra os kokang obrigarão os wa e outros a voltarem à mesa de negociações em relação à guarda de fronteira”, acrescentou.
(Envolverde/ )

