DIALOGUES: “A mobilização pela água é tudo”

SANTIAGO, 15/09/2009 – (Tierramérica).- A privatização da água potável e do saneamento está retrocedendo no mundo, mas o escasso recurso é privatizado por outras vias, alerta nesta entrevista exclusiva a ativista Maude Barlow.

Barlow, ativista ambiental - Gentileza da entrevistada

Barlow, ativista ambiental - Gentileza da entrevistada

A água deve ser declarada “patrimônio comum” da humanidade, e a mineração e a agroindústria de exportação devem “retroceder”, disse ao Terramérica a canadense Maude Barlow, que há 20 anos pesquisa e denuncia a degradação e a privatização dos recursos hídricos. Barlow preside o Council of Canadians, a maior organização civil de seu país, e em 2005 recebeu o Right Livelihood Award, o prêmio Nobel alternativo. Com 16 livros escritos, hoje é assessora do presidente da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o nicaragüense Miguel d’Escoto.

O Terramérica conversou com ela no Chile, onde apresentou sua última obra, “O convênio azul: a crise global da água e a batalha futura pelo direito à água”.

TERRAMÉRICA: Qual a situação dos direitos da água no mundo?

MAUDE BARLOW: Esta é a questão mais contenciosa na discussão mundial sobre a água: se será mantida como um patrimônio da humanidade e um bem comum ou será convertida em uma mercadoria à qual se terá acesso por meio das regras do mercado. Este debate ocorre porque o mundo está ficando sem água. Caminhamos para um tempo onde dois terços da humanidade não terão acesso a ela. Há empresas, investidores e alguns governos que concordaram que o mercado decidirá sobre a disponibilidade de água. Isto apresenta três grandes problemas. O primeiro é que a água iria apenas para quem pudesse comprá-la, não necessariamente para quem necessitasse dela. O segundo é que, obviamente, não haveria nenhuma proteção da água para a reprodução da natureza. E o terceiro é que se criaria um desestímulo para proteger as fontes hídricas, porque, quanto mais escassa for a água limpa, mais alto será seu preço.

TERRAMÉRICA: Qual o grau de privatização da água atualmente?

MB: Ainda é muito pequeno, entre 10% e 15% dos sistemas mundiais de água potável e saneamento. Inclusive, existe um retrocesso porque muitos municípios estão recuperando sistemas públicos depois de tê-los privatizado. Nosso exemplo favorito é Paris, que esteve por quase dez anos sob um sistema privado e agora recuperou a água para a gestão pública. A outra forma de privatização é o engarrafamento. Essa é uma grande batalha em muitas comunidades do mundo. A última tendência é a privatização por meio de direitos: a água é considerada um direito de propriedade privada, vendida e comprada inclusive por intermediários (que cobram comissões no processo de comercialização). Também estão sendo criados bancos de água. O principal problema é que é gerada mais quantidade de direitos do que a água que existe fisicamente. Porém, felizmente, há pouquíssimos países que provaram este sistema. O Chile é um deles, e o mais extremista. Outros países que estão apenas começando são Espanha, Austrália e parte dos Estados Unidos e Canadá. Outro dos últimos extremos nesta tendência de mercado é que países ricos que não possuem muita água, como Japão, Arábia Saudita e alguns europeus, estão comprando terras em nações pobres apenas para ter acesso aos seus recursos hídricos. Começaram na África e agora se movem em direção à América Latina.

TERRAMÉRICA: Como vê esta região na área hídrica?

MB: Provavelmente possui a maior disponibilidade de água por pessoa, porque tem muitos recursos hídricos. Porém, na prática, conta com uma das menores disponibilidades. E há três razões para isso: contaminação maciça de águas superficiais e também de algumas subterrâneas, desigualdade no acesso e privatização.

TERRAMÉRICA: Como assessora do presidente da Assembléia Geral da ONU, que regulamentação mundial propõe?

MB: Que a Assembléia Geral adote um programa e uma resolução reconhecendo a crise mundial da água. O plano deveria basear-se em três princípios. O primeiro é a proteção das fontes de água doce e sua restauração em todos os países. O segundo é que a água tem de ser considerada um patrimônio comum. Deve-se garantir que todas as pessoas tenham acesso equitativo a ela. Isto implica em priorizar seu uso para a produção alimentar local, longe da monocultura para exportação. O terceiro princípio é estabelecer o acesso à água como direito humano. Seria um erro que qualquer um pudesse apropriar-se da água, quando há muita gente morrendo por sua falta. Nós reclamamos que os países mudem suas constituições, como o Uruguai fez há três anos, para adotar esta concepção que dá ao Estado a responsabilidade de manter a água limpa e garantir o acesso a ela.

TERRAMÉRICA: O que propõe para atividades industriais intensivas com relação ao uso da água, como a mineração?

MB: A mineração precisa retroceder. As companhias de mineração não podem continuar contaminando a água. Há empresas que praticamente estão governando alguns países. E isso tem de mudar porque os governos são para o povo e o povo deve formular as políticas. O uso comercial da água, incluída na mineração, vem depois das prioridades anteriores. Deve-se solicitar uma autorização e pagar por ela, e se destruírem as fontes ou contaminarem a água, as permissões devem ser canceladas. Existem dois setores que vão sofrer: as mineradoras (com muita tristeza tenho que dizer que grande parte das companhias de mineração no Chile é canadense) e a grande agroindústria de exportação.

TERRAMÉRICA: Que importância dá à mobilização da sociedade civil?

MB: A mobilização é tudo. As mudanças começam na base. Eu vi as pessoas mais pobres do mundo ficarem de pé para lutar pela água, e isto porque sem água morremos. Lembro de um homem idoso em Cochabamba, na Bolívia, que estava em um enfrentamento e eu lhe perguntei por que lutava. Ele respondeu que preferia morrer por uma bala do que seus filhos morrerem por causa da água suja.

* A autora é correspondente da IPS

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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