MOÇAMBIQUE: Sensibilização para reduzir a mortalidade materna

COBUE, Moçambique, 01/10/2009 – Na província do Niassa, no noroeste de Moçambique, uma médica tem estado a trabalhar com as comunidades locais no sentido de superar os atrasos responsáveis por três quartos das mortes maternas todos os anos. A Drª. Peg Cumberland, uma inglesa esguia e enérgica, trabalha em Moçambique há 13 anos. Veio para a região do Niassa em 2004, quando soube que a comunidade estava a pedir ajuda.

Desde essa altura, formou perto de 400 pessoas locais sobre cuidados de saúde remotos. Desse número, só oito são remuneradas. As outras pessoas são voluntárias.

“Nos dois primeiros anos, não tinha casa. Só tinha uma mochila e viajava pelas comunidades a pé, ficava em casa das pessoas e passava muito tempo a falar com os líderes tradicionais.”

“Decidi criar aquilo que as pessoas queriam ver tornar-se realidade, e ainda uma forma de podermos trabalhar juntos, mas esclareci que, primeiro, não podia ministrar medicamentos, que teriam de ser disponibilizados pelo governo e, segundo, que não podia pagar às pessoas.”

Mais de meio milhão de mulheres morrem durante a gravidez e o parto em todo o mundo todos os anos, número que tem diminuído aproximadamente em menos de um por cento todos os anos desde 1990. Perto de 99 por cento destas mulheres vivem em países em vias de desenvolvimento, e mais de metade na África Sub-Sariana.

Um dos mais ambiciosos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), – e aquele que tem registado menos progresso – é provavelmente o da Saúde Materna, que visa reduzir a mortalidade materna em três quartos até 2015.

Isto exige uma redução de 5.5 por cento na taxa de mortalidade materna por ano, o que pode ser facilmente alcançável se todos os partos forem assistidos por trabalhadores de saúde qualificados, ou parteiras, enfermeiras ou médicos com formação adequada. Porém, presentemente, só 59 por cento dos nascimentos são assistidos por profissionais no mundo em desenvolvimento.

As mulheres pobres nas zonas rurais são as que correm maior risco. Confrontadas com grandes distâncias entre as suas casas e o estabelecimento de saúde, a maior parte das mulheres que sofre complicações durante o parto morre antes de chegar ajuda.

Cumberland e a sua equipa trabalham com 43 comunidades ao longo de 143 quilómetros na margem do lago, e ainda nas montanhas, situadas a três ou quatro horas a pé do lago. “A maior parte das comunidades só pode ser alcançada de barco ou a pé. Algumas delas, no sul, podem ser alcançadas ocasionalmente de carro,” disse Cumberland.

Formação

Na única sala de formação da pequena vila de Cobue, no noroeste de Moçambique, um grupo composto por cerca de 25 pessoas caminhou durante dois dias para participar nas sessões de formação organizadas por Cumberland sobre cuidados e serviços de saúde remotos.

“Antes do projecto começar,” disse Pedro Engalamau, um voluntário que participa na sessão de formação, “as pessoas andavam muitos quilómetros, por vezes três dias, mas agora, devido ao postos (instalações com cuidados de saúde remotos geridos por voluntários), as pessoas não precisam de percorrer distâncias tão grandes.”

Desde que Cumberland começou a formar parteiras tradicionais e voluntários nas comunidades sobre a forma como identificar problemas cedo e de encaminhar as mulheres para os postos ou clínicas, houve uma diminuição significativa nas mortes maternas na região.

“Para obter estatísticas acerca da mortalidade materna, é necessário coligir um grande volume de informação para determinar essa diminuição. Não nos é possível fazer isso e, portanto, julgo que não podemos demonstrar estatisticamente essa redução. Mas, decorrente daquilo que as comunidades dizem, houve uma grande diminuição e, até agora, não tivemos mortes maternas,” disse Cumberland.

Causas da mortalidade materna

No passado, a falta de educação em áreas remotas queria dizer que a maior parte das pessoas iam aos curandeiros quando precisavam de assistência.

“Antes do projecto ter começado, as pessoas estavam a morrer,” disse Jordan Baltazarsambau, voluntário no projecto de Cumberland. “Estavam a morrer e não sabiam porquê.”

A própria cunhada de Baltazarsambau morreu. “A primeira vez que deu à luz teve de ser submetida a uma cesariana e, quando ficou grávida pela segunda vez, não tinha a certeza se devia ir para o hospital; decidiu ir ao curandeiro, que lhe disse que ela estava bem. Mas, quando chegou à altura de dar à luz, surgiram grandes problemas e ela morreu. Agora, as parteiras saberiam como encaminhar um caso como esse.”

De acordo com uma crença tradicional, o parto lento é causado pelo facto da mulhar estar em conflito com alguém na comunidade e, para que o parto avance, essa pessoa tem de lavar a boca com água e cuspi-la para o abdómen da mulher, permitindo ao bebé sair da barriga.”

“O que é preciso acontecer é que temos de contactar com a pessoa, que tem de vir à clínica para fazer o ritual, para podermos prestar os cuidados obstétricos necessários e, ao mesmo tempo, respeitar as tradições,” afirmou Cumberland.

O baixo estatuto das mulheres e a ausência de direitos das mulheres são outra causa de mortalidade materna no mundo em desenvolvimento, apesar de, para Cumberland, isto não constitui a preocupação principal.

“A educação é uma questão importante mas, na realidade, é necessário ter acesso a serviços de saúde razoáveis. Também precisamos de serviços de saúde de nível elevado, que façam cesarianas e transfusões de sangue, embora eu pense que estamos muito longe de ter tais instalações nesta zona. Muito depende da melhoria das infra-estruturas básicas,” acrescentou.

O hospital mais próximo onde há estes serviços está localizado na ilha de Likoma. “É difícil conseguir uma transferência para a ilha. Pode levar dois ou três dias de viagem. E não é mais rápido usar uma canoa e remar,” disse Cumberland.

“O processo de transferência das mulheres para Likoma é lento, não porque são impedidas pelos homens, mas porque estão a ser bloqueadas pelas mulheres mais velhas com base em crenças tradicionais.”

Uma história de sucesso

No entanto, apesar do acesso limitado a recursos, de uma população dispersa, e da existência de fundos limitados na região, os projectos semelhantes aos de Cumberland devem ser encarados como uma história de sucesso. Ela e a sua equipa estão a conseguir progressos, não só na redução da mortalidade materna em Moçambique, mas também na luta contra o flagelo do VIH / SIDA e da malária nesta região.

Projectos como este, juntamente com a contínua melhoria dos projectos governamentais ligados a infra-estruturas e recursos, podem eventualmente garantir que a maioria dos nascimentos seja assistida por trabalhadores de saúde qualificados, fazendo dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio Sobre a Saúde Materna uma meta realizável.

Jessie Boylan

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