REPORTAGEM: Uma entidade patronal com selo indígena

MÉXICO, 13/10/2009 – (Tierramérica).- Em dois anos ficará pronto um diagnóstico sobre a dimensão econômica e social das empresas indígenas do México, que estão no caminho de criar sua primeira organização corporativa.

Madeireira da comunidade indígena de Nuveo San Juan Parangaricutiro, Michoacán - Cortesia da comunidade

Madeireira da comunidade indígena de Nuveo San Juan Parangaricutiro, Michoacán - Cortesia da comunidade

O México está prestes a se converter no primeiro país da América Latina com uma câmara empresarial indígena, dedicada a promover e representar um setor com mais de um milhão de micro e pequenos negócios nascidos para desafiar a pobreza. Habitantes de quatro municípios do Estado de Puebla formaram, em 2005, a Rede de Turismo Alternativo Totaltikpak de pequenas empresas sociais que oferecem trilhas ecológicas, de aventura e rurais, alojamento e alimentação na região da Sierra Norte.

“Nosso objetivo principal era integrar o produto das diferentes empresas. Foi uma boa iniciativa, porque conseguimos difundir projetos desconhecidos, e que os sócios, por si só, não poderiam ofertar”, disse ao Terramérica Misael Morales, secretário da Totaltikpak, que significa “nossa terra” em língua náhuatl. Esta é uma das muitas empresas indígenas que operam no México, mas que carecem de uma associação maior que atue em seu nome. Por essa razão, um grupo de investidores criou um plano para formar a Câmara Empresarial Indígena do México, que estará legalmente constituída em maio de 2010.

“É muito interessante o desafio de somarmos em uma iniciativa desta natureza, com nossas próprias empresas. Depois, ver como estas pequenas iniciativas vão somando a outros integrantes da própria comunidade, em algumas ocasiões como sócios, em outras como trabalhadores”, disse ao Terramérica o diretor da Rede Indígena de Turismo do México (RITA), Cecilio Solís, uma das propulsoras da futura câmara. A RITA foi formada em 2002. Os membros das 155 microempresas associadas são de 17 povoados nativos com presença em 15 dos 32 Estados que formam a república mexicana.

Estima-se que existem 1,2 milhão de micro e pequenas empresas assentadas em territórios indígenas, com média de 25 trabalhadores cada uma, que se dedicam a uma variedade de atividades, desde ecoturismo até extração mineral, mas não há dados de sua contribuição para a economia mexicana. Dos mais de 107 milhões de habitantes do México, quase 12 milhões são indígenas, segundo estatísticas oficiais. A ideia da câmara empresarial indígena conta com o patrocínio de entidades especializadas.

O projeto foi apresentado na oitava sessão do Fórum Permanente para as Questões Indígenas das Nações Unidas, realizado de 18 a 29 de maio, em Nova York, pelo Fórum Internacional de Mulheres Indígenas (FIMI) e pelo Programa México Nação Multicultural, da estatal Universidade Nacional Autônoma, que pesquisa sobre povos nativos e afromestiços. O FIMI é uma rede de dirigentes indígenas da América, Ásia e África, que nasceu em 1995 em Pequim, por ocasião da Quarta Conferência Mundial sobre a Mulher.

O fórum permanente, integrado por 16 especialistas independentes, metade deles nomeada pelos governos e metade por organizações indígenas, foi criado em 2000 e fez sua primeira sessão em 2002, para analisar os problemas dos povos aborígines e recomendar ações à comunidade internacional. “Estamos convencidos de que isto que estão fazendo é uma mudança fundamental para que os povos indígenas participem do desenvolvimento. As empresas de turismo são as que estão mais organizadas neste momento”, explicou ao Terramérica José del Val, diretor do Programa México Nação Multicultura.

Este programa começou os trabalhos para elaborar um diagnóstico sobre as empresas indígenas para saber quantas são, o que fazem, quantas pessoas empregam e quais dificuldades enfrentam, com prazo de conclusão de dois anos e que servirá para desenhar políticas específicas. Contudo, há algumas pistas: muitas adotam a forma de associações civis. Frequentemente reinvestem os lucros para melhorar suas técnicas e práticas. Há em suas propostas um interesse expresso no aproveitamento sustentável dos recursos e na capacitação. Porém, há atrasos em matéria de gênero: poucas mulheres ocupam cargos superiores.

A câmara indígena será a primeira de seu tipo na América Latina. No Estado norte-americano de Novo México – na fronteira com o México – os navajos criaram uma entidade semelhante, e existem outras no Canadá e na Nova Zelândia. Em março, uma delegação mexicana visitou os navajos para ver de perto essa experiência e conhecer seus processos de trabalho. “No México estaríamos desafiando a nós mesmos, não apenas quanto à possibilidade da criação, mas também em estar gerando todo o processo, já que não há nada escrito a respeito”, disse Solís.

“A mudança em relação aos povos indígenas é considerá-los sócios dos projetos. Dessa forma, todos se desenvolvem. Do contrário, os únicos a se desenvolver são os ricos, e os pobres desaparecem. O que nos interessa é ver como estes grupos organizados podem melhorar suas condições”, afirmou Del Val. Embora as pequenas e médias empresas possam aspirar apoios financeiros governamentais, as sociedades de perfil indígena carecem de uma instância específica para ter acesso a esses recursos.

“Nos territórios indígenas existe uma grande quantidade de recursos naturais que, durante muitas décadas, foram explorados ou usados por empresas estrangeiras que chegam e se estabelecem, e os moradores da região entram apenas com a mão-de-obra”, afirmou Solís. A Totaltikpak, por exemplo, integra sete empresas comunitárias que dão trabalho a 70 pessoas nos municípios de Xochitlán, Zapotitlán, Cuetzalan – que abriga as conhecidas grutas de mesmo nome – e Tenampulco. “Uma ideia pode ser a criação de centros de capacitação empresarial em diversas regiões, e as próprias empresas construírem seus próprios processos”, sugeriu Del Val.

* O autor é correspondente da IIPS.

Emilio Godoy

Emilio Godoy es corresponsal de IPS en México, desde donde escribe sobre ambiente, derechos humanos y desarrollo sustentable. En el oficio desde 1996 y radicado en Ciudad de México, ha escrito para medios mexicanos, de América Central y de España.

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