EUROPA: Popularização do comércio justo

Bucareste, 01/10/2009 – O comércio justo está se popularizando na Europa central e oriental, na medida em que organizações de ativistas criam consciência sobre a responsabilidade de ajudar o Sul em desenvolvimento e abre cada vez mais negócios e cafeterias que aderem a esta prática. “A Europa central e oriental não considerava a si mesma pertencente ‘à parte industrializada do mundo’. Por terem sido países fechados durante tanto tempo (no período do comunismo) também contribuiu para a limitada consciência sobre os problemas que o Sul enfrenta”, disse Justyna Szambelan, coordenadora da Coalizão para o Comércio Justo na Polônia.

“Por isso é importante criar consciência de que nossa região agora figura entre os ricos e deve assumir a responsabilidade por outras regiões do mundo”, disse Szambelan à IPS. “A geração jovem tem mais confiança em si mesma e compreende melhor seu poder como consumidora. Está ansiosa por conseguir uma mudança, e o comércio justo é uma ferramenta eficiente para esse fim”, acrescentou. O comércio justo é uma forma alternativa de intercâmbio comercial impulsionada por organizações sociais e que promove uma relação voluntária e justa entre consumidores e produtores, organizados em cooperativas.

A organização coordenada por Szambelan reúne vários tipos de entidades locais em diferentes pontos da Polônia. Trata-se de organizações não-governamentais de origem religiosa (como a Organização Polonesa de Comércio Justo, de Gdansk), outras vinculadas ao movimento contra a globalização (Fundação Alan Turing, da Breslávia), ecológicas (Polska Zielona Sie, da Cracóvia) e grupos estudantis (Grupo eFTe, de Varsóvia).

As entidades reunidas na Coalizão Polonesa para o Comércio Justo seguem duas linhas de ação: promovem esta prática e comercializam produtos que aderem a ela. Mas, como explica Szambelan, no momento os produtos não são importados diretamente de países do Sul em desenvolvimento. São comprados de empresas da Europa ocidental dedicadas ao comércio justo, como a alemã GEPA e a britânica Divine Chocolate. A situação na Polônia é representativa da toda Europa oriental e central. Cada vez mais pessoas estão interessadas no comércio justo, e várias organizações conseguem educar o público sobre sua importância.

Mas, de todo modo, a atividade apenas está começando, e ainda são poucos os contatos diretos com os produtores do Sul em desenvolvimento. A Sociedade para o Comércio Justo na República Checa, a mais ativa das organizações que trabalham neste campo, administra dois “comércios mundiais” e quatro pontos de venda especializada. Um terço dos produtos que vende procede da organização italiana Comércio Alternativo, e o restante é importado de várias empresas de comércio justo da Europa ocidental, como na Polônia. Porém, os ativistas trabalham para estabelecer contatos diretos com os produtores.

Segundo Tomas Bily, presidente da Sociedade para o Comércio Justo, o grupo encomendou há pouco artesanatos diretamente da associação indiana MESH, integrada por organização de pequenos produtores e integrante da Organização Mundial de Comércio Justo. No passado importou pulseiras da cooperativa Hazomanga, de Madagascar, e bonecas pequenas da empresa brasileira Ética, enquanto membros da Sociedade para o Comércio Justo estabeleceram contatos diretos com cooperativas de produtores africanos.

Bily se declara satisfeito com a atividade da Sociedade para o Comércio Justo desde que começou em 2003. “Experimentamos todo tipo de questionamentos relacionados ao comércio, desenvolvemos materiais e programas educativos muito bons, e somos reconhecidos como uma instituição de capacitação na área da educação para o desenvolvimento mundial”, afirmou. Dirigida principalmente por voluntários, a organização tem um papel importante para tornar a República Checa cada vez mais propensa a apoiar o comércio justo.

Atualmente, a organização tem seu foco direcionado para fora das fronteiras nacionais. “Nestes meses estamos trabalhando na iniciação de uma nova plataforma para a reunião e a cooperação de organizações de comércio justo da Europa central, oriental e meridional”, disse Bily à IPS. Esta cooperação se identificará com as siglas em inglês da Associação de Comércio Justo da Europa Central e Oriental: CEEFTA, ressaltou.

Os promotores húngaros do comércio justo também trabalham para criar redes em toda a região. Assim, entraram em contato com grupos de ativistas da Europa oriental, de países como Romênia e Bulgária, onde o movimento é incipiente. Segundo Gyorgyi Usjzaszi, da organização não-governamental húngara Vedgylet (Proteger o futuro), as entidades que promovem o comércio justo na Hungria cooperam muito estreitamente entre si desde que começou o movimento nesse país, em 2000.

Em 2006 foi criada a Associação por um Mundo Justo, que hoje reúne 11 grupos da sociedade civil da Hungria. Seus integrantes organizam eventos de consumo ético, realizando programas educativos sobre este tema em várias cidades do país. O movimento pelo comércio justo se orgulha de fornecer café aos escritórios do presidente húngaro e do Defensor do Povo sobre questões ambientais. Que fornece esse café ao presidente é Dan Swartz, proprietário da Livraria e Cafeteria Treehugger Dan, em Budapeste.

Swartz, que se descreve “primeiro como ativista ambiental, depois como empresário”, administra várias livrarias com cafeterias na capital húngara, onde vende livros usados em inglês, cafés e chás obtidos por meio do comércio justo. Swartz diz vender dois tipos de cafés misturados, um procedente de Guatemala, Colômbia, Peru e México e outro de Peru e Tanzânia. Ambos são importados pela Hungria da empresa Italiana Caffè Agust.

Ao contrário de algumas cafeterias e comércios que surgiram na região e que são populares na Europa ocidental, que não têm fins lucrativos e são manejados por voluntários, Swartz usa um modelo que se baseia no lucro, e tem empregados em tempo integral. Seus estabelecimentos são parte importante das crescentes redes húngaras e regionais que promovem os produtos do comércio justo. A popularidade de seu negocio ajuda a conscientizar sobre esta pratica e sobre as atividades das ONGs que se dedicam a ela. E, o que é crucial, contribui para mudar os padrões de consumo no país.

Swartz abastece vários bares e cafés de Budapeste com chá e chocolate quente derivados do comércio justo. E está associado a três restaurantes da capital que vendem exclusivamente seu café. Isto constitui um compromisso particularmente forte, já que “os restaurantes compraram suas próprias máquinas de café, para poder ter independência suficiente para vender apenas o comprado através do comércio justo”, afirmou. “As máquinas de café são muito caras e frequentemente o estabelecimento fica preso em acordos de máquinas ‘gratuitas’ com as empresas que vendem café”, explicou Swarts. A armadilha é que as cafeterias são obrigadas a continuar comprando café caro da grande companhia que lhe fornece a máquina.

O sucesso do estabelecimento de Swartz é um sinal de que nos mercados da Europa central e oriental existe muito espaço para a prática do comércio justo. “Na Hungria existem 1.500 fazendas orgânicas, 150 ONGs ambientais e 80 estabelecimentos comerciais orgânicos, por isso é obvio existirem suficientes clientes e suficiente conscientização para apoiar estas organizações e empresas”, afirmou Swartz. IPS/Envolverde

Claudia Ciobanu

Claudia Ciobanu covers Central and Eastern Europe for IPS. Romanian, she is currently based in Prague, Czech Republic. She is particularly interested in environmental issues and social activism in post-socialist countries.

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