Paris, 22/10/2009 – A possibilidade de ser desenvolvida em breve uma vacina contra o vírus da Aids enche de entusiasmo e esperança a comunidade científica, mas não está clara a eficácia do medicamento na guerra contra a pandemia. O diretor-conjunto do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Onusida), Michel Sibidé, admitiu que o primeiro teste de sucesso de uma vacina, anunciada no mês passado na Tailândia, constitui um marco na luta contra a doença.
Porém, Sibidé alertou na segunda-feira, perante cerca de mil especialistas de todo o mundo reunidos na anual Conferência Mundial da Vacina contra a Aids, que a notícia está cercada por “alguns ruídos sobre como interpretar os dados”. Os “resultados dos testes tailandeses, mais além desta ou aquela porcentagem, mais além de seu significado estatístico, mostram um caminho a seguir para a pesquisa sobre a vacina contra o vírus da deficiência imunológica humana”, causador da Aids, acrescentou o funcionário. As conclusões dos testes, em revisão na conferência de Paris, sugerem que uma combinação de duas vacinas reduz em 31% o risco de infecção com HIV.
Estas vacinas são a ALVAC, da companhia francesa Sanofi Pasteur, e a inicialmente falida AIDSVAX, criada pela firma norte-americana VaxGen e cuja patente hoje está nas mãos da organização sem fins lucrativos Global Solutions for Infectious Diseases. Os dados obtidos nos testes estão ainda em processo de análise. Cientistas acreditam que a baixa taxa de infecção entre os 16.400 voluntários na Tailândia não constitui uma prova definitiva sobre a eficácia da vacina nos grupos sociais “de risco”. Mas, os resultados dos testes, patrocinado pelos governos dos Estados Unidos e da Tailândia, marcam um avanço nunca antes atingido, disse em entrevista coletiva na terça-feira o coronel do exercito norte-americano Nelson Michael. “A porta foi derrubada e vamos irromper na sala coletivamente”, acrescentou.
Uma vacina para impedir a infecção com HIV poderia conter seu avanço, estimado hoje em 7.400 novos casos por dia. Mas, pouco faria para ajudar os 33 milhões de pessoas que já vivem com o vírus em todo o mundo, alertaram analistas. Esses especialistas reclamaram mais atenção nas “vacinas terapêuticas”, pois apenas 45% dos portadores de HIV em países de pequena e média renda têm acesso a tratamentos avançados, entre eles os antirretrovirais.
“Uma vacina não é a única resposta. Deveria complementar outras formas de prevenção”, disse o médico Supachai Rerks-Ngarm, do Departamento de Controle de Enfermidades do Ministério de Saúde Pública da Tailândia. “Ainda nos resta um longo caminho a percorrer”, acrescentou o médico Alan Bernstein, diretor-executivo da aliança de pesquisadores, governos, ativistas e organizações de caridade Global HIV Vaccine Enterprise, instituição encarregada da conferência anual que acontece em Paris. “O importante é conseguir uma vacina, e isso o mais rápido possível”, disse Bernstein, para quem as pesquisas avançam mais rapidamente do que em qualquer outro momento desde que a Aids foi detectada na década de 80.
Este especialista considera que uma vacina contra HIV/Aids será desenvolvida nos próximos cinco anos. Este avanço seria de grande ajuda, particularmente para a África subsaariana, onde residem 67% de todos os portadores de HIV e onde vivem 72% dos dois milhões de pessoas que morreram de Aids em 2007, segundo a Onusida. “Na África temos grande necessidade de uma vacina”, disse à IPS Ponciano Kaleebu, presidente do Programa Africano pela Vacina contra a Aids, que pediu urgência aos governos da região para destinarem 15% de seus orçamentos às pesquisas, tal como propõe a ONU. “Este é um problema africano, e como africanos devemos solucioná-lo”, disse Kaleebu.
A Conferência Mundial da Vacina contra a Aids, realizada pela primeira vez na capital francesa em 2000, se tornou um importante fórum para a troca de informação científica sobre a doença. Este ano foi objeto de inédita atenção, devido ao anúncio do mês passado na Tailândia. “Não vejo o debate entre esta ou aquela vacina”, disse à IPS a chefe de assessores científicos da Onusida, Catherine Hankins. “Nosso objetivo é o acesso universal ao tratamento, à prevenção, ao cuidado e apoio, por isso devemos avançar em todo tipo de frentes”, acrescentou.
Entre eles mencionou a promoção da circuncisão, que reduz a infecção com HIV entre 50% e 60%, segundo alguns cientistas; o desenvolvimento de microbicidas, incluído um gel que as mulheres possam usar antes do ato sexual, e a educação voltada a setores sociais de risco. Uma vacina poderia ser particularmente útil para pessoas que não têm com adotar medidas de prevenção por vários motivos, entre elas mulheres que não sabem que seus parceiros sexuais têm o vírus. IPS/Envolverde

