Washington, 20/10/2009 – A crise econômica global agravou a fome e a desnutrição nos países mais pobres, com dramáticas consequências para a segurança internacional e a estabilidade política, segundo dois informes divulgados sexta-feira passada, Dia Mundial da Alimentação.
“A conclusão mais comovente do informe é que mais de um bilhão de pessoas sofrem fome”, disse à IPS a porta-voz do PMA, Bettina Luescher. A tendência à alta da desnutrição dura uma década, e se manteve constante mesmo no período de baixos preços e prosperidade econômica, no começo desta década, quanto na atual fase de encarecimento e queda do produto bruto, segundo o estudo das agências da Organização das Nações Unidas. Tudo isto deixa evidente problemas no “sistema mundial de gerenciamento da segurança alimentar”, acrescentou Luescher.
“Os líderes mundiais reagiram à crise financeira e econômica mobilizando com sucesso milhares de milhões de dólares em um curto espaço de tempo. Afora, são necessárias ações igualmente fortes para combater a fome e a pobreza”, disse o diretor-geral da FAO, Jacques Diouf. “O crescimento da população faminta é intolerável. Temos os meios econômicos e técnicos para fazer a fome desaparecer. O que falta é uma vontade política mais forte para erradicá-la”, acrescentou Diouf cobrou “investimentos na agricultura nos países em desenvolvimento”, dizendo que é “essencial não apenas para derrotar a fome e a pobreza, mas também para garantir o crescimentoeconômico, a paz e a estabilidade do mundo”.
A FAO destacou que a situação enfrentada pelos países mais pobres do mundo se deteriorou ainda mais pela crise econômica. Populações já vulneráveis à insegurança alimentar sofrem cada vez mais dificuldades, devido ao encarecimento da comida e à queda das remessas dos imigrantes, do emprego e dos salários. “Aqueles que têm menos responsabilidade na crise financeira são os mais afetados. Primeiro são atingidos pelos altos preços dos alimentos e depois pela crise”, disse Luescher. Nas últimas duas décadas consolidou-se a integração dos países em desenvolvimento à economia global, o que aumentou sua vulnerabilidade às idas e vindas financeiras.
“As 17 maiores economias latino-americanas, por exemplo, receberam US$ 184 bilhões em fluxos financeiros em 2007, quantia que diminuiu para US$ 89 bilhões em 2008, e a previsão é de que deve cair para US$ 43 bilhões no final de 2009”, diz o estudo do PMA. “Isto implica redução do consumo, e para algumas nações de baixa renda e com déficit alimentar significa reduzir as muito necessárias importações de comida, equipamento sanitário e medicamentos”, acrescenta.
Outro informe conhecido na sexta-feira, elaborado pelo não-governamental Instituto para a Pesquisa de Políticas Alimentares Internacionais (IFPRI), constata tendências semelhantes às do estudo da FAO e do PMA, e detalha a situação de regiões e países em seu habitual Índice Global da Fome (IGF). O estudo destaca o lento avanço na tarefa de reduzir a fome, evidente na queda o IGF em apenas um quarto desde 1990, e alerta que a situação em 33 países é “extremamente alarmante”.
O IFPRI também detectou importantes avanços no sudeste asiático, Oriente Médio, África setentrional e América Latina. Por outro lado, a incidência da fome continua alta na Ásia meridional e África subsaariana. Os países onde houve melhorias destacáveis foram Kuwait, Tunis, Fiji, Malásia e Turquia, e as piores situações em Angola, Etiópia, Gana, Nicarágua e Vietnã. Na outra ponta situam-se Burundi, Cadê, República Democrática do Congo, Eritréia e Serra Leoa.
A maioria dos países com IGF mais alto sofreu guerras ou conflitos violentos que agravaram a pobreza e a insegurança alimentar, segundo o IFPRI. Este informe coincide com o da ONU ao assinalar o vínculo entre a crise financeira e a instabilidade alimentar como um problema complexo. O IFPRI também enfatizou que combater a fome mundial é um passo crucial na mudança para a igualdade de gênero.
A preocupação pela segurança alimentar é compartilhada não apenas pela ONU e as organizações não-governamentais especializadas, mas também por instituições de assistência, com a Fundação Bill e Melinda Gates, que investem milhares de milhões de dólares em projetos de saúde pública e desenvolvimento em alguns dos países mais pobres. “Melinda e eu acreditamos que ajudar os pequenos agricultores mais pobres para que produzam melhores colheitas e tenham acesso aos mercados é a ferramenta mais poderosa para reduzir a fome e a pobreza”, afirmou Bill Gates ao anunciar um projeto de US$ 120 milhões com esse objetivo. “A próxima Revolução Verde precisa ser mais verde do que a anterior”, acrescentou o empresário. “Deve ser guiada pelos pequenos agricultores e adaptada às circunstâncias locais, bem como ser ambiental e economicamente sustentável”, acrescentou. IPS/Envolverde


