Reikjavik, 15/10/2009 – A Islândia proporá na 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática que a restauração de pântanos seja considerada como método de redução de emissões contaminantes. A reunião acontecerá em dezembro na cidade de Copenhague. Os pântanos são áreas onde a água está presente ou próxima à superfície. Constituem um habitat importante para os pássaros e ajudam a controlar inundações. Na Islândia, vários pântanos secos foram restaurados, incluindo partes de um santuário de aves perto da localidade de Eyrarbakki, onde em 1997 foram tomadas medidas para impedir que a água se esgotasse.
“Quem assumir tal atividade terá de implementar um inventario exaustivo dos pântanos, tanto sobre os inalterados como a respeito dos secos”, disse à IPS Hugi Ólafsson, diretor de políticas e assuntos internacionais do Ministério do Meio Ambiente da Islândia. “Eles terão de poder apresentar informação crível sobre os créditos e débitos de carbono a partir das atividades de drenagem e restauração”, acrescentou.
“Na última década, a Islândia, bem como outros países do Anexo I (nações industrializadas que se comprometeram a reduzir suas emissões contaminantes sob o Protocolo de Kyoto), desenvolveu um bom inventário de atividades de silvicultura, e também um trabalho pioneiro de replantação. Portanto, há uma experiência considerável para dar forma a um inventário de pântanos”, disse Ólafsson, que pesquisou amplamente o assunto.
A prática de plantar arvores em terás não reflorestadas foi proposta como meio de vincular o carbono ao solo (mediante o processo de fotossíntese, pelo qual as árvores capturam dióxido de carbono) para compensar as emissões produzidas pela indústria e por indivíduos em sua vida diária. Cada vez que os pântanos são restaurados, reduzem a liberação de dióxido de carbono na atmosfera, fazendo com que o solo o absorva.
Quando os pântanos são alterados ou destruídos libera-se mais dióxido de carbono do que quando se corta uma floresta. Este é especialmente o caso das turbas, que contêm matéria orgânica morta, com uma proporção de carbono de aproximadamente 50%. Estas se formam em condições úmidas onde a falta de oxigênio dificulta a decomposição. Portanto, a umidade limita a liberação de dióxido de carbono. As negociações sobre a mudança climática renovaram o interesse pelas turbas devido ao seu alto conteúdo de carbono, liberado na atmosfera quando são danificadas ou drenadas.
Esta é a lógica que guia a conclusão da restauração de pântanos e turbas como meio para que os países do Anexo I obtenham créditos no contexto do acordo que sucederá o Protocolo de Kyoto que expira em 2012, e que, se espera, surja da reunião na capital da Dinamarca. As turbas e os pântanos representam cerca de 3% a 6%, respectivamente, da superfície da Terra (todas as turbas são pântanos, mas nem todos os pântanos são turbas).
Uma “avaliação global sobre as turbas, a diversidade e a mudança climática” realizada no ano passado pelas organizações não-governamentais internacionais Wetlands International e Global Environment Centre mostrou que as emissões de dióxido de carbono geradas a partir de turbas secas ou danificadas equivalem a mais de três bilhões de toneladas anuais, ou cerca de 11% das emissões mundiais de combustíveis fósseis. Os pântanos prejudicados ou destruídos continuam emitindo dióxido de carbono durante décadas, até toda a turba se esgotar, a menos que o habitat seja restaurado.
Reidratar as turbas pode causar aumento nas emissões de metano, mas isto quase sempre é compensado com uma diminuição muito maior nas emissões de dióxido de carbono e óxido nitroso. Estes três são gases causadores do efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento planetário. Para criar mais terra para a agricultura, os produtores islandeses drenaram uma porção considerável de pântanos durante a segunda metade do século XX, principalmente construindo deságues.
É difícil quantificar o alcance das emissões gerados pelos pântanos secos e prejudicados, mas, estima-se que equivalem a quase metade das liberadas pela queima de combustíveis fósseis e pelos processos industriais no país. Estas emissões podem ser reduzidas significativamente se forem bloqueados os deságues e aumentar-se o nível da água. Recuperando os pântanos, a biodiversidade local original também poderá ser restabelecida em boa parte.
“Reduzir a plataforma hídrica por meio de drenagem de turbas leva à rápida decomposição do carbono orgânico da turba”, explica Susanna Tol, do capitulo holandês da Wetlands International. “O oxigênio permite que se produza a decomposição aeróbica (com oxigênio), que é 50 vezes mais rápida do que a anaeróbica” (sem oxigênio), acrescentou. “As emissões de dióxido de carbono que se desprendem das turbas secas geralmente aumentam com uma maior profundidade de drenagem e climas mais quentes. O processo de oxidação pode ser interrompido com a restauração das turbas. Isto se faz reidratando as turbas drenadas”, afirmou.
A proposta foi feita nas reuniões sobre mudança climática desde que se introduziu a ideia da restauração de pântanos como atividade afim à seção sobre “Uso da terra, mudança no uso da terra e silvicultura” (LULUCF) nas conversações climáticas que aconteceram em agosto de 20089 em Accra. As atividades da LULUCF estão permitidas sob o Protocolo de Kyoto como maneira de os países compensarem suas emissões de gases de efeito estufa.
Ao plantar arvores, mudar as práticas agrícolas ou voltar a cobrir um território com vegetação, são produzidos captores ou reservas que vinculam o carbono e o gás estufa ao solo. Portanto. A LULUCF está permitida como método para que as nações informem suas emissões de gases contaminantes. “Recebemos muitos comentários positivos e sentimos que temos um bom apoio para a proposta. Recebemos muitas perguntas técnicas sobre como funcionaria na prática”, disse Ólafsson. Essas perguntas “são boas e necessárias para desenvolver a ideia até convertê-la em uma proposta operacional. Não ouvimos ninguém opor-se à proposta por questão de princípios, mas sabemos que será um trabalho árduo desenvolvê-la mais, junto com muitas outras propostas relativas à LULUCF”, acrescentou Ólafsson.
A Islândia comprometeu-se a reduzir em pelo menos 15% os gases de efeito estufa até 2020, em relação aos níveis de 1990. De fato, isto pode equivaler a uma redução de 25%, e atualmente é permitido liberar 10% extra de dióxido de carbono sob o Protocolo de Kyoto, devido à Disposição da Islândia, concedida a esse país por ter pouquíssima indústria pesada neste momento e porque quase toda a energia da Islândia procede de fontes renováveis. Foi permitido ao país aumentar suas emissões em1,6 bilhão de toneladas anuais de dióxido de carbono, a partir de novos projetos industriais, além de seus 10% extras no contexto do Protocolo de Kyoto.
A Disposição da Islândia pode se tornar irrelevante em janeiro de 2013, quando entrarem em vigor as regulamentações européias sobre as emissões da indústria pesada. Parte do objetivo de reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa até 2020 se conseguirá plantando arvores e outros tipos de vegetação. Se a restauração de pântanos for permitida como atividade LULUCF, a Islândia espera poder diminuir ainda mais suas emissões. IPS/Envolverde
* Este artigo é parte de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (http://www.complusal

