POPULAÇAO: Nova conferência mundial enfrenta desafios

Nações Unidas, 20/10/2009 – A Organização das Nações Unidas, que a cada 10 anos realiza conferências internacionais sobre população, enfrenta novos desafios econômicos e sociais relativos ao crescimento demográfico, os direitos reprodutivos, o poder das mulheres e a violência sexual. Quando a ONU comemorou na semana passada o 15º aniversário da histórica Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento realizada em setembro de 1994 no Cairo, uma das perguntas que muitos fizeram foi: chegou a hora de planejar outra?

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirma que, apesar dos importantes avanços obtidos, ainda há 200 milhões de moveres sem acesso a métodos anticoncepcionais seguros e efetivos, enquanto “muitas recorrem a abortos inseguros porque não podem contar com planejamento familiar”. A diretora-executiva do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), Thoraya Ahmed Obaid, disse na semana passada que 179 governos reunidos há 15 anos na capital do Egito “acenderam a faísca da mudança que continua melhorando as vidas dos povos”.

O direito à saúde sexual e reprodutiva e o poder das mulheres são centrais para os vínculos entre população e desenvolvimento, afirmou Obaid. A seu ver, a agenda da Conferência aborda as necessidades e os direitos de todas as pessoas, independente de suas situações (migrante, refugiado fora ou dentro de seu país) e estabelece a conexão entre população, meio ambiente, paz, segurança e desenvolvimento.

Consultado sobre a possibilidade de uma nova conferência, Jyoti Shankar Singh, observador permanente junto à ONU da Sócios para a População e o Desenvolvimento, disse à IPS que deve haver um trabalho preparatório detalhado antes de se concretizar outra conferência mundial. É preciso autorização da Assembléia Geral, de 192 membros, e também um mínimo de dois a três anos de preparação, acrescentou. “Mas, 2010 ou 2015 seriam um bom momento para uma conferência global”, disse Singh, ex-subdiretor executivo do UNFPA e coordenador executivo da reunião do Cairo.

A primeira destas instâncias de debate sobre temas demográficos foi a Conferência Mundial sobre População, realizada em 1974 na Romênia. A seguir vieram a Conferência Internacional sobre População, em 1984, no México, e em 1994 a do Egito. Anika Rahman, presidente da organização Americans for UNFPA, disse à IPS que uma conferência de avaliação com participação de atores intergovernamentais e não-governamentais proporcionará um fórum excelente para analisar objetivos e determinar os passos a seguir. “Embora os debates ocorram regularmente, 2014 seria um momento adequado para que a comunidade internacional se uma formalmente aos governos para avaliar os próximos passos”, afirmou.

A proposta também chega em um momento em que a ONU prioriza o cumprimento de seus oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Definidos em 200 pela Assembleia Geral, estes incluem reduzir pela metade a proporção de pessoas que sofrem fome e pobreza (em relação a 1990), garantir educação primária universal, promover a igualdade de gênero, reduzir a mortalidade infantil e materna. Também constam combater a Aids, a malária e outras doenças crônicas; assegurar a sustentabilidade ambiental e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento. Tudo isto tendo como data limite 2015.

Entretanto, o êxito destas metas foi afetado pela crise financeira mundial e por uma redução na ajuda ao desenvolvimento por parte dos doadores do mundo rico. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio estão estreitamente relacionados com várias questões vinculadas à população. Entre elas, a mortalidade materna, redução da pobreza e potencialização das mulheres. Rahman disse que essas metas representam todo um desafio e que “agora é tempo de acender uma chama no mundo para acelerar os compromissos políticos e financeiros para obtê-los”.

Em sua opinião, as metas foram criadas para atingir avanços muito necessários na saúde e dignidade das mulheres e das famílias em todo o mundo. “É essencial maior compromisso para salvar as vidas das mulheres, já que o quinto Objetivo (sobre saúde materna) é o mais esquecido”, acrescentou. Rahman também disse que os atuais debates e consultas sobre a próxima conferência de população são essenciais, “já que trabalhamos para implementar o Programa de Ação da Conferência do Cairo e para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”.

Ao falar na reunião de 15º aniversário da Conferência, realizada na semana passada nas Nações Unidas, o chanceler da Índia, Shashi Tharoor, disse que uma avaliação determinará que os progressos mundiais foram variados. É de se lamentar que “ainda estamos longe de concretizar a educação primária universal, enquanto a mortalidade de bebês e crianças e de mães continua registrando altas proporções e que o acesso à saúde reprodutiva universal continue distante em muitas partes do mundo”, afirmou.

“Porém, creio firmemente que estes propósitos ainda podem ser alcançados”, disse Tharoor, ex-subsecretário-geral da ONU para as comunicações e a informação pública. É necessária vontade política e uma ação mundial concertada, acrescentou. “Os parâmetros fixados pela Conferência do Cairo continuam destacando a onerosa tarefa que temos pela frente”, ressaltou.

Na Índia, segunda nação mais populosa do mundo, com mais de 1,1 bilhão de habitantes, o Programa de Ação do Cairo levou a uma virada no enfoque do governo para estabilizar a população, abandonando os objetivos para escolher uma política de decisões informadas e voluntárias. O Consenso do Cairo “proporcionou boa parte das bases para os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”, que agora pautam o desenvolvimento sócio-econômico, afirmou. Singh, por sua vez, disse à IPS que o Programa de Ação do Cairo chegará ao fim em 2014. “Uma conferência mundial nos permitirá avaliar os avanços no êxito desse plano e dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”, disse.

Tal conferência também “nos permitirá ver quais dasafios e oportunidades se apresentam e que o que devem fazer no futuro governos, organizações não-governamentais e a comunidade internacional”, afirmou Singh, autor do Livro “Criar um novo consenso sobre população: Políticas de saúde reprodutiva, direitos reprodutivos e poder das mulheres”. IPS/Envolverde

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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