BOLÍVIA: Terra, sinônimo de clamor de mulher

La paz, 25/11/2009 – As mulheres solteiras, viúvas ou sem documentação têm poucas possibilidades de ser proprietárias de uma área rural, devido às tradições patriarcais e aos usos e costumes dos povos indígenas, embora isso viole acordos internacionais assumidos pelo país.

Uma dirigente quechua boliviana participa de encontro em demanda de terras - Franz Chávez/IPS

Uma dirigente quechua boliviana participa de encontro em demanda de terras - Franz Chávez/IPS

A luta das bolivianas pelo acesso à titularidade de terra produtiva apenas começa, disseram à IPS representantes de zonas geográficas tão distintas como Los Andes, Amazônia e Chaco, em um encontro realizado este mês em La Paz.

O acesso à terra é um direito internacional consagrado há 30 anos pela Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher (Cedaw, sigla em inglês), sendo que no dia 18 de dezembro completará 30 anos da sua assinatura no contexto das Nações Unidas.

Essa Convenção, considerada a Carta Magna dos direitos das mulheres e da qual deriva a arquitetura de leis e normas nacionais e internacionais com que o mundo se dotou para propiciar a igualdade entre os gêneros, obriga os Estados a promoverem a participação da mulher no desenvolvimento rural em condições iguais à do homem. Mas o jurídico e o factual estão longe de seguirem de mãos dadas, no caso boliviano.

Poucas participantes sabiam que as mulheres rurais contam com direitos específicos contemplados na nova Constituição boliviana, vigente desde fevereiro, e em um parágrafo especial da Lei do Serviço Nacional de Reforma Agrária, em vigor desde 1996.

Menos, sabiam que o Comitê da Cedaw cobrou em seu último relatório sobre o país que em 2008 o Estado “adote medidas para assegurar a igualdade de acesso das mulheres à terra”, e ao mesmo tempo aborde com medidas explícitas as dimensões estruturais de pobreza que enfrentam as mulheres rurais, especialmente as indígenas e idosas.

A lei agrária de 1996 exige que sejam aplicados “critérios de igualdade na distribuição, administração, posse e aproveitamento da terra em favor da mulher, independente de seu estado civil”, no que abriga o mandato da Cedaw de que as mulheres rurais recebam tratamento igual nas reformas agrárias, nos créditos agrícolas e reassentamentos, entre outras obrigações.

Realidade distante das leis

Mas, na prática, leis e declarações são burladas por setores dominados por homens em comunidades camponesas e evitadas em instituições governamentais com diferentes argumentos, queixam-se as camponesas entrevistadas.

Na zona do altiplano e ocidental da Bolívia, as mulheres solteiras sofrem a rejeição da comunidade quando solicitam terras porque, ao se casarem, seu sobrenome paterno ficará relegado a segundo plano em relação ao do marido, segundo denunciou a ex-constituinte e líder camponesa Peregrina Cusi.

Na região do Chaco que compreende os departamentos de Tarija, Chuquisaca e Santa Cruz, a sudeste de La Paz, a líder da Assembleia do Povo Guarani, Alejandrina Avenante, luta contra a influente presença masculina para demonstrar que as mulheres solteiras têm vocação agrícola.

Na comunidade de Tarairí, no departamento de Tarija, a 1.215 quilômetros de La Paz, Avenante organizou as mães solteiras e, após vencer preconceitos das autoridades originarias, ajudou-as a obter terras por herança e incentivou a construção de casas e o começo da produção agrícola.

Muitas mulheres contrataram homens para que construam as casas, elas fabricaram com as mãos o adobe e agora estão embarcadas na produção de milho, mandioca, batata, pimenta picante e ervilhas.

“Elas demostram que podem contribuir com sua produção alimentar ou fabricando cosméticos para o cabelo com o fruto de árvores silvestres ou fazendo artesanato”, disse sem esconder seu orgulho.

Enquanto na região do altiplano e do Chaco há avanços, na Amazônia selvagem e inacessível pouco ou nada se conhece sobre os direitos de a mulher possuir uma área agrícola, denunciou a dirigente da Federação de Mulheres Camponesas de Pando Bartolina Sisa, Jesusaida Vaca.

A representante da comunidade Canahán, localizada no município de Bolpebra, uma cidade na fronteira tripartite com Brasil e Peru, viajou em dois dias cerca de 1.300 quilômetros em diferentes meios de transporte para chegar a La Paz e compartilhar com outras mulheres de regiões diferentes suas realidades e aspirações.

O Encontro Nacional pelo Acesso à Terra das Mulheres, promovido pela organização não-governamental Coordenadoria da Mulher, reuniu representantes das associações populares de camponesas e agricultoras, examinou o contexto legal e exigiu do governo o fim das práticas e dos procedimentos burocráticos que as discriminam na distribuição de terras.

“Até agora, o governo só legalizou as terras comunitárias e nenhuma individual. Uma mulher pobre dificilmente pode ter uma propriedade, só dizemos que é nossa porque trabalhamos, mas não temos nenhum título que certifique a propriedade”, disse Vaca. Na Amazônia as mulheres administram a terra quando morre o marido, e no geral estão relegadas ao lar e a cuidar dos filhos. “Do assunto não se fala quando o marido está presente”, explicou.

“O machismo é grande. Não somos a exceção”, disse a representante do Centro Afro-boliviano para o Desenvolvimento Integral e Comunitário (Cadic), Marfa Inofuentes, uma líder que colocou a comunidade negra de aproximadamente 35 mil pessoas no cenário social onde predominam as culturas aymara e quéchua.

Há seis meses, a comunidade afro-boliviana assentada desde a colônia nas regiões semi-tropicais dos Yungas, uma área localizada a 70 quilômetros ao norte de La Paz, recebeu 191 hectares de uma fazenda que pertenceu ao ex-presidente direitista Gonzalo Sánchez de Lozada (1993/1997 e 2002/2003).

“Foi a recuperação de terras originarias que no passado foram compradas por Lozada a preço de banana de nossos avós”, disse Inofuentes, sem esconder sua preocupação porque muitas terras onde habitam ainda não estão reconhecidas com títulos concedidos pelo Estado.

Mais preocupação lhe provoca o fato de ainda nessa área “nenhuma mulher ter uma propriedade em seu nome”. Só têm acesso às terras quando ficam viúvas e não existe um filho homem na família. É parte da história da falta de proteção que sofrem, contou. Justamente, no relatório de 2008, o Comitê da Cedaw exigiu do governo que “cuide do problema da vulnerabilidade especial das mulheres afro-bolivianas e em seu próximo informe (de 2011) indique as medidas adotadas”.

As províncias Caranavi, Inquisivi e Nor e Sud Yungas, de clima quente e abundante vegetação, invejam a comunidade afro-boliviana, e suas terras estão compartilhadas com colonos de ascendência aymara que chegam a estas regiões atraídos pela oportunidade de cultivar frutas e coca.

Carmen Ávila, representante da Coordenadoria, reconheceu à IPS os avanços na criação de normas com critérios de igualdade no acesso, na distribuição, posse e titularidade da terra. Porém, alertou que a mulher continua enfrentando dificuldades para alcançar esse direito.

Outro obstáculo que se soma à ineficiente institucionalidade do Estado é a falta de documentos de identidade entre as mulheres de áreas rurais e a “discriminação por parte dos funcionários públicos no momento de aplicar normas”, denunciou Ávila.

Salto em títulos

Em defesa de sua gestão, o diretor-geral de Terras, e até há pouco tempo dirigente dos povos indígenas do departamento de Oruro, Florián Soto, alegou que a confiança voltou às instituições encarregadas de administrar terras porque seus funcionários pertencem às organizações sociais de base.

Em seu relatório ao Comitê da Cedaw de 2008, o governo boliviano apoiou o esforço feito na entrega de títulos agrários às mulheres e se comprometeu com a implementação de ações voltadas “à participação eqüitativa” dos dois gêneros no acesso à propriedade e ao saneamento rural.

Soto mostrou um quadro comparativo, em que destaca que o governo de Evo Morales entregou entre janeiro de 2006, quando assumiu o poder, até janeiro passado, o total de 10.299 títulos de propriedade a mulheres, com uma superfície global de 164.401 hectares.

Esses números representam uma melhora radical em relação a administrações anteriores, segundo o documento oficial. Por exemplo, no segundo mandato de Hugo Banzer (1971-1978 e 1998-2001) somente foram entregues 431 títulos a mulheres. Na gestão de Jorge Quiroga (2001-2002), o número caiu para 347, enquanto no segundo mandato de Sánchez de Lozada os títulos entregues a mulheres foram 283.

O número aumentou substancialmente até 1.576 no governo de Carlos Mesa (2003-200%), enquanto seu sucessor, Eduardo Rodríguez (2005/2006), concedeu 1.488 títulos. Uma análise da Coordenadoria da Mulher, com base em dados do período 1997-2006, afirma que de um total de 29.063 titulos, apenas 4.973 correspondem a mulheres, enquanto os entregues a homens chegavam a 13.011, e a diferença (1.814) a organizações comunitárias e casais (9.265).

Esta análise não inclui o biênio 2007/2008 e o primeiro mês de 2009, que consta do estudo comparativo oficial. (IPS/Envolverde)

Franz Chávez

Franz Chávez es corresponsal de IPS en Bolivia desde noviembre de 2003. En busca de una cobertura adecuada de la compleja realidad boliviana, en especial para una audiencia internacional, Chávez se focaliza en esos temas en general ignorados por los grandes medios, poniendo esfuerzo en el contexto de uno de los países más pobres de América Latina. Nacido en La Paz, Franz trabajó para Radio Cristal entre 1985 y 1990, y luego formó parte del equipo editorial de los canales de televisión 2, 4, 7 y 11. Fue uno de los fundadores de los diarios La Razón, en el que se desempeñó entre 1990 y 1995, La Prensa (1998-201), y La Prensa-Oruro. Estudió sociología y comunicación en la Universidad Mayor de San Andrés en La Paz.

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