MUDANÇA CLIMÁTICA-CHILE: O custo de não fazer nada pode ser alto

Santiago, 23/11/2009 – O Chile poderá perder mais de US$ 30 bilhões, cerca de 1,1% de seu produto interno bruto, até 2010, se ocorrer o pior cenário traçado na “Economia da mudança climática no Chile”, estudo apresentado sexta-feira em Santiago Nem todos os cenários avaliados no informe indicam custos econômicos. Considerando uma emissão menor de gases que provocam o efeito estufa, o país poderia obter beneficio de US$ 25 bilhões até 2010, diz o informe elaborado por acadêmicos das Universidades Católicas de Chile e de Valparaíso, sob a direção da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

“O Chile, efetivamente, é vulnerável à mudança climática, mas de maneira não catastrófica, manejável e, fora isso, há os incentivos para agir, para conseguir reduzir os impactos. Essa é uma das grandes conclusões do ensino”, disse à IPS Sebastián Vicuña, diretor do Centro de Mudança global da Universidade Católica e Coordenador do informe. “Mas, também somos um país que contribui para que exista a mudança climática. As emissões desses gases aumentaram na última década, e a previsão e de que continuarão aumentando. A razão principal é que o desenvolvimento econômico traz consigo um crescimento no consumo de energia e, portanto, de emissões”, acrescentou.

Entre 1984 e 2008, o Chile aumentou em 166% suas emissões de dióxido de carbono, principal gás-estufa, passando de 36 milhões para 95 milhões de toneladas. O setor energético responde por 85% delas. No mesmo período, o país aumentou suas emissões por habitante de dióxido de carbono três toneladas anuais para 5,7 toneladas. Até 2030, se prevê que as emissões desse gás terão aumentado 243%, chegando a 233 milhões de toneladas, o que elevaria a contaminação por pessoa para 11,9 toneladas ao ano. O Chile tem “um desafio importante em termos de continuar se desenvolvendo economicamente, mas ao mesmo tempo, precisa ser mais eficiente no uso e consumo de energia”, disse Vicuña.

O documento divulgado na sexta-feira (20/11) pela ministra do Meio Ambiente do Chile, Ana Lya Uriarte; pelo ministro de Energia, Marcelo Tokman, e pela secretária-executiva da Cepal, Alicia Bárcena, faz parte de um estudo latino-americano que inclui Argentina, Bolívia, equador, Colômbia, Paraguai, Peru, Uruguai, América Central e Caribe. É financiado por vários governos europeus, entre eles o britânico, e conta com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). No dia 16 de dezembro, a Cepal apresentará os resultados preliminares deste estudo regional na 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que acontecerá em Copenhague entre 7 e 18 de dezembro.

Na parte referente ao Chile, foi analisado o impacto econômico da mudança climática nos setores de fruta, pecuária e florestal, na geração hidrelétrica e no consumo de água potável, em dois cenários, denominados A2 e B2. Do primeiro consta um mundo sem maior controle de emissões e o segundo com mitigação das emissões. O Chile possui zonas costeiras baixas, além de áridas e semi-áridas, que o convertem em um país muito vulnerável à mudança climática.

Segundo o estudo, a temperatura média aumentaria dois graus centígrados no médio prazo e quatro graus entre 2070 e 2100, sobretudo na zona de cordilheira, o que afetaria a disponibilidade de água. Também haveria redução das precipitações próxima de 30% na região central do país, entre as áreas de Valparaíso e Los Lagos. Isto implica mudanças na disponibilidade de água para irrigação, geração hidrelétrica, produção mineira e consumo humano.

Quanto à mitigação, Vicuña elogiou as “ações já tomadas” pelo Chile para diminuir suas emissões, como a criação do Programa País Eficiência Energética e a Lei de Incentivo de Energias Renováveis Não Convencionais (ERNC). “Por sua matriz energética, o Chile terá problemas para conter o ritmo de crescimento de suas emissões, e precisa explorar todas as suas oportunidades. Além disso, uma parte do país é altamente vulnerável à mudança climática e isso vai ter custo para a economia chilena”, disse José Luis Samaniego, diretor da Divisão de Desenvolvimento Sustentável e Assentamentos Humanos da Cepal.

Entretanto, Samaniego disse que o país tomou a decisão de traçar um “mapa do caminho”. O “estudo mostra que o custo estimado no pior dos cenários será aproximadamente de um ponto percentual ao ano (do PIB). É uma quantia importante se comparada com o impacto que teve a crise econômica global sobre a economia chilena em 2008 e 2009, ou com o gasto público em matéria ambiental ou pesquisa e desenvolvimento”, acrescentou.

A ministra Uriarte disse que “nos fóruns internacionais apresentamos com muita força nossa posição como país. Dizemos que os custos de adiar decisões, tanto para o meio ambiente como para as economias mundiais, superarão com juros o valor de adotar medidas agora”. Uriarte exortou os países a acordarem na capital da Dinamarca no próximo mês “uma ambiciosa” meta de redução das emissões globais de gases-estufa de, pelo menos, 50% até 2050.

Para isso – disse a ministra – é preciso um duplo compromisso dos países desenvolvidos: redução em suas emissões e apoio financeiro “público” a nações em vias de desenvolvimento para transferência tecnológica, porque “o mercado não será suficiente para esta tarefa”. Os países em desenvolvimento, como o Chile, também podem avançar na redução de emissões “com políticas fortes e ordenadas”, mas sempre de acordo com as realidades nacionais, enfatizou. Uriarte rejeitou eventuais imposições dos países desenvolvidos, como um imposto ao transporte internacional, que afetaria as exportações chilenas.

A secretária-executiva da Cepal, Alicia Bárcena, afirmou que “Copenhague é o lugar onde se deverá traçar um caminho claro de ação. Todos gostaríamos de já chegar com as metas quantitativas. Não chegaremos. Mas na capital dinamarquesa sim”, pode-se desenhar um mapa com vistas à conferência ambiental que acontecerá no México em dezembro de 2010. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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