Lima, 30/11/2009 – “A imprensa mudará quando deixar de informar apenas em masculino”, disse a vice-ministra da Mulher do Peru, Norma Añaños, diante dos presentes no seminário internacional para jornalistas “Mulheres trabalhando, mulheres liderando”, encerrado sábado na capital peruana.
O seminário foi organizado pela agência de notícias IPS (Inter Press Service), pelo Comitê da América Latina e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem) e pela Associação de Comunicadores Sociais Calandria, com patrocínio do MDG3 Fund (Fundo para os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio Número Três), do governo da Holanda. A atividade foi convocada pelas organizações não governamentais Demus, Associação de Desenvolvimento Comunitário (ADC) e Associação Nacional de Jornalistas, com participação da Comunidade Andina de Nações, Fundo das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) e Organização Internacional do Trabalho.
O encontro constituiu-se em um espaço para onde confluíram representantes da sociedade civil e de instituições do Estado, aproximadamente cem jornalistas e comunicadores especializados em igualdade de gênero e trabalhista, bem como mulheres que participam da política. Na agenda foi apresentada uma questão concreta: o que fazer para que estes temas sejam atraentes para os meios de comunicação.
Durante o seminário, a IPS lançou seu manual “As relações de gênero no trabalho produtivo e reprodutivo”, escrito pelas especialistas uruguaias Lílian Celiberti e Serrana Mesa. A antropóloga Mesa esteve presente na cerimônia e referiu-se ao conteúdo do texto como um trabalho destinado a colaborar com a “geração dessas pequenas variações”’ na forma como os jornalistas e os meios de comunicação abordam estes temas que, com o passar do tempo, contribuem para a mudança cultural. Na sexta-feira, a legisladora peruana Hilária Supa saudou o público em sua língua, o quéchua, e fez uma resenha sobre sua vida de exploração, luta e reivindicação das causas das mulheres de seu povo.
Lola Valladares, responsável para a área andina de Governabilidade e Violência do Unifem, disse que “a mulher, que representa metade da raça humana, não pode ser agredida violentamente e, entretanto, a imprensa não repercute esses fatos, e, se o faz, os trata como crônica marrom”. Representantes de organizações não governamentais somaram-se à chuva de críticas à mídia, porque, em lugar de promover uma cobertura equitativa da notícia com atores masculinos e femininos, reproduz agressivos estereótipos sobre a mulher.
Uma camponesa interveio com uma notável experiência própria. Rosa Palomino Chahuares, natural da localidade de Puno, no altiplano – que se definiu como comunicadora do povo aymara –, contou que, há 21 anos, apresenta um programa de rádio, com duração de uma hora, transmitido uma vez por semana e que se chama “Wiñay Pankiara” (Sempre Florescendo, em aymara) e que continuará apresentando até o último dia de sua vida. Ao contrário da grande maioria, esta vizinha do Lago Titicaca não se queixou.
“Como nenhuma emissora informava sobre as mulheres, e muito menos em aymara, então fiz o trabalho de produção do programa”, disse. “Eu não traduzo os jornais nem o que dizem as outras rádios ou a televisão. Vou até as comunidades para que as mulheres contem seus problemas, suas tristezas, suas esperanças. E depois, na rádio, divulgo o que dizem. Às vezes, não querem falar, então lhes digo para contarem cantando. E assim o fazem, e se sentem melhor”, contou Pankiara.
A diretora-executiva da Associação de Comunicadores Sociais Calandria, Mirtha Correa Álamo, deu razão à jornalista aymara quando disse que havia muitas notícias que a mídia passava por cima, como a cada vez mais reduzida participação feminina na política. “Vivemos em um país onde as estatísticas registram importante crescimento do produto interno bruto e redução da pobreza, apesar da crise econômica, mas é exatamente o fator econômico que limita a participação política das mulheres”, afirmou. Como exemplo, disse que, enquanto mais de 5% das prefeituras eram lideradas, “entre 1999 e 2002, por mulheres, hoje chegam a apenas 2%. Entre 2003 e 2006, havia três presidentes de governos regionais, agora não há nenhuma. Isto deveria ser noticia, mas não é”, acrescentou.
O seminário também serviu para que Mariela Jará, da organização não governamental Estudo para a Defesa dos Direitos da Mulher (Demus), apresentasse o Observatório Regional das Mulheres na Mídia, projeto do qual participam organizações da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru, e cuja finalidade é registrar e analisar a cobertura que os meios de comunicação dão à violência de gênero. “O objetivo é promover um jornalismo pela igualdade e não pela violência de gênero”, disse. “O Observatório dará indicadores para alertar os veículos sobre os níveis de difusão de mensagens que legitimam a violência de gênero, e tentaremos fazer com que a imprensa se pergunte se em suas próprias redações há igualdade”, acrescentou.
A editora regional para a América Latina da IPS, Diana Cariboni, demonstrou, a partir da experiência desta agência de notícias, que é possível fazer coberturas com a perspectiva de gênero. Entretanto, ressaltou que depende muito dos próprios jornalistas, mais do que dos meios de comunicação em si. Citando cifras do informe de 2005 do Monitoramento Global de Mídia, ressaltou que as mulheres representavam apenas 21% das fontes consultadas pela imprensa.
Contou que, para os assuntos de economia chegam a apenas 20%, e em política e governo, somente a 14%. Acrescentou que 86% dos porta-vozes citados pela imprensa são homens e 83% no caso de especialistas consultados. E, quando se trata de experiências pessoais, 31% são mulheres. “O monitoramento reflete uma evidente discriminação da mulher na cobertura jornalística, portanto, não há equilíbrio, e assim sendo, não se está fazendo bom jornalismo”, disse Cariboni.
“Mas, como equilibrar a balança? Primeiro, deixando de lado a busca estereotipada de fontes. E comecemos agora, invertendo os papeis. Por exemplo, quando se trata de abordar a crise econômica, que o especialista seja uma mulher e, em lugar de entrevistar uma dona de casa queixosa, busquemos um homem da rua”. Cariboni, mostrando exemplos da cobertura noticiosa realizada pela IPS no mundo, também desafiou os jornalistas a investigarem. “A notícia não cai do céu, é preciso ir buscá-la porque esse é nosso trabalho e é isso que esperam de nós”, ressaltou. “Deve-se falar com as pessoas, frequentar as comunidades, informar a partir do local dos fatos. Ninguém vai fazer por nós”, afirmou.
A editora da IPS também afirmou que deve ser desenvolvida uma rede de fontes não tradicionais, ouvir as mulheres não apenas como vitimas ou sujeitos passivos, mas como protagonistas. “Se queremos deixar de tratá-las de maneira discriminatória em nossas matérias, devemos citá-las com seus nomes e sobrenomes, e evitar chamar pelo nome de batismo as mulheres pobres”.
Cariboni apresentou várias reportagens de jornalistas da IPS caracterizadas por sua profundidade, variedade de fontes, por investigações no local dos fatos e, especialmente, porque se apresentava a voz dos que frequentemente não aparecem nas notícias. “Nosso trabalho não consiste em reproduzir as notas de imprensa e as declarações oficiais, mas em ir buscar e publicar as notícias que as pessoas necessitam”, concluiu. (IPS/Envolverde)


