PARAGUAI: Liderança de mulheres indígenas, um valor em alta

Assunção, 10/11/2009 – Animam-se, organizam-se e ganham espaços. No Paraguai, a liderança das mulheres indígenas cresce dentro de suas comunidades e ganha novo protagonismo nacional, por sua luta pelos direitos de seus povos e contra a discriminação de gênero.

Estela Maris Álvarez - Cortesía Tierraviva

Estela Maris Álvarez - Cortesía Tierraviva

Estela Maris Alvarez é uma das mulheres que decidiram enfrentar os obstáculos, os maus-tratos e as discriminações, dentro e fora de sua comunidade. “Para conseguir ser respeitada como líder agora, sofri muito antes”, confessou à IPS. Alvarez pertence à etnia enxet, assentada no Chaco paraguaio, e vive na comunidade La Herencia, 340 quilômetros a noroeste da capital, no ocidente do país. É uma comunidade formada por seis aldeias, onde residem 610 famílias e cerca de 1.800 pessoas, sendo 600 mulheres adultas, boa parte chefes de família. Alvarez, de 40 anos, separada e com dois filhos para cuidar, exerce a medicina natural há 10 anos. É auxiliar de enfermagem e atende os casos de saúde que se apresentam próximos a ela. “Não é fácil uma mulher tomar decisões em um povoado indígena”, disse, ao recordar que quando já se perfilava como dirigente não era convidada para as grandes reuniões dos caciques, “mas, mesmo assim, eu ia”. Para a trabalhadora social Lívia Ruiz, que fez pesquisas nas comunidades do baixo Chaco como a de La Herencia, a liderança das mulheres indígenas começou a ser visível a partir da maior presença nos espaços externos de suas respectivas comunidades. “Dentro das comunidades, a liderança feminina para realizar ações que têm a ver com seu povo é muito alta, mas os caciques continuam sendo, em sua grande maioria, homens”, disse a integrante da organização não-governamental Tierraviva, que atende os direitos indígenas paraguaios, especialmente das localidades do Chaco. Inclusive o governamental Instituto Nacional do Indígena (Indi) restringe aos homens o reconhecimento de lideranças, denunciou Alvarez, “quando deveria ajudar a fortalecer a participação das mulheres”. “Quando as mulheres indígenas reclamam junto ao Indi a favor de nossos direitos ou por problemas concretos que nos afetam, nos respondem que não somos caciques, e não nos atendem”, ressaltou. A realidade subjacente nos povoados indígenas do Chaco é a existência de caciques com atitudes muito autoritárias e violentas, destacou Alvarez. “Julgam-se no direito de decidir sobre a vida da comunidade, pelo fato de serem caciques”, resumiu. Dentro dessa conduta patriarcal, a violência contra as mulheres se mantém como uma situação recorrente e aceita nas comunidades indígenas. “São práticas que geram discriminação, que por mais que façam parte da cultura das comunidades devem ser erradicadas”, destacou. Como líder comunitária, sua postura não deixa dúvidas. “Os direitos das mulheres indígenas devem ser defendidos até mesmo acima dos interesses das comunidades”, porque, além disso, a seu ver, é falso que se deva optar entre eles. Alvarez recordou o homicídio de duas nativas m`bya guarani em meados de outubro, em um assentamento do departamento de San Pedro, o de maior índice de pobreza do país. Ambas foram torturadas até a morte em sua comunidade por serem consideradas bruxas, e em razão desse crime estão presos o cacique local e mais três implicados no caso. “Nós mulheres precisamos nos unir, porque somente nós poderemos lutar para acabar com essas práticas dentro de nossas comunidades” e que um caso assim não se repita, disse a dirigente enxet. Alvarez arrancou com perseverança o direito de reunião e organização das mulheres em sua comunidade e a faculdade de participar e opinar nas assembléias de La Herencia. Ao mesmo tempo, saem de seu entorno para trocar experiências e criar redes com mulheres de outros povoados originários, com situações similares. La Herencia, como boa parte das comunidades indígenas paraguaias, vive da agricultura de subsistência e do trabalho assalariado nas fazendas da região, onde os homens conseguem US$ 100 mensais como peões, e as mulheres menos da metade no serviço doméstico. As mulheres também conseguem algum dinheiro com seu trabalho de artesanato, além de cuidarem da casa e trabalhar na terra da família. Atualmente, a população indígena no Paraguai chega a 108. 308 pessoas, das quais 49,1% são mulheres. Os habitantes originários representam cerca de 2% do total nacional, em um país majoritariamente mestiço e onde o guarani, língua ancestral, é de uso generalizado.

Ruim na comunidade, pior fora dela

A discriminação que as mulheres sofrem dentro das comunidades indigências não diminui fora de seus territórios ancestrais. Pelo contrário, se reforça e amplia quando convivem com o resto da sociedade paraguaia. “Fora de nossas comunidades sofremos rejeição e discriminação. O próprio Estado nos discrimina”, denunciou Alvarez. De fato, a origem étnica determina uma das formas de desigualdade no país, que se traduz em aspectos essenciais que segregam os povos indígenas, como saúde, educação, emprego e moradia digna, segundo o informe “Equidade para o desenvolvimento”, publicado em 2008 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Alguns exemplos são dados pela Pesquisa Domiciliar Indígena 2008. nos lares da população originaria, apenas 1,4% têm acesso à água potável, 38,9% dos indígenas com mais de 15 anos são analfabetos e apenas quatro em cada 10 concluíram o segundo ano do ensino básico. No caso de Alvarez, apesar de há 11 anos ser voluntária na área da saúde comunitária, seu trabalho não é reconhecido pelas instituições governamentais do setor. “As mulheres indígenas sofrem dupla discriminação, é cotidiano”, afirmou. “Quero que nossa voz seja ouvida, que o Estado e a sociedade nos respeitem pelo que somos, que nos dêem nosso lugar”, disse Alvarez, que integra a Comissão Povos e Comunidades Indígenas do Chaco Parabguaio CPI – Chaco Py, como uma das referências comunitárias. Ruiz destacou que as indígenas se organizam de forma crescente em associações locais ou redes, que lhes permitem maior protagonismo. Uma dessas entidades é a Coordenadora Nacional de Organizações de Mulheres Trabalhadoras Rurais e Indígenas, que em abril realizou um encontro nacional de mulheres indígenas. Essa reunião serviu de trampolim para um novo reconhecimento e respeito para o tecido de associações nascidas para defender seus direitos. “As mulheres indígenas ainda lutam para sobreviver e suas reclamações objetivam isso, os aspectos básicos de subsistência”, disse Ruiz, reconhecendo que a luta pelos espaços de igualdade de gênero é incipiente. Nas atividades que desenvolve dentro de sua comunidade, Alvarez trabalha especialmente com mulheres e jovens e se sente animada porque “agora vejo os frutos do sacrifico dos últimos seis anos”. Um desses frutos é o tratamento que recebe dos demais membros de sua comunidade, bem como o reconhecimento dos direitos femininos fundamentais. La Herencia, asseguro, deu passos que não são freqüentes em outras aldeias. “Posso dizer que os homens agora nos respeitam, mas, não foi fácil conseguir isso e é muito difícil manter”, ressaltou. Considerou fundamental que os esforços sejam colocados no acompanhamento e na capacitação das mulheres indígenas, como paineis de planejamento familiar e alternativas trabalhistas, para enfrentar as necessidades que afetam as comunidades. Para Alvarez, “a esperança já chegou”, embora falta tanto por fazer. “Hoje me sinto orgulhosa quando vejo que as mulheres da minha comunidade já não sofrem o que sofri”. (IPS/Envolverde)

Natalia Ruiz Diaz

Natalia Ruiz Díaz escribe para IPS desde Paraguay, como periodista free lance. Ejerce la profesión desde 1995, y ha trabajado en los diarios Noticias y La Nación de su país, cubriendo noticias sociales y políticas. En su calidad de comunicadora social, desarrolla acciones de difusión y comunicación institucional para organizaciones no gubernamentales y agencias de cooperación internacional en materia de derechos humanos, ambiente y género.

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