Lima, 13/11/2009 – Os peruanos querem mais mulheres na política e elas já representam 44% da militância nos partidos do país.
No poder regional houve um revés total nas eleições gerais de 2006, quando nenhuma mulher ficou à frente dos governos dos 24 departamentos, sendo que antes representavam 12%. Nas prefeituras as mulheres também são uma exceção: 97,5% dos municípios têm um homem à frente.
“As pesquisas de opinião mostram tendência favorável à participação política da mulher. Porém, as resistências persistem nos partidos políticos, que finalmente definem os que chegam aos cargos de direção”, disse à IPS Mirtha Correa, diretora-executiva da não-governamental Associação de Comunicadores Calandria.
“O primeiro espaço de poder é interior do partido político. Se este não facilita, o caminho será difícil. Além disso, o tema econômico é fundamental, porque sabe-se que quem coloca mais dinheiro na campanha tem assegurado os melhores postos”.
Para reverter a escassa e nula presença feminina nos poderes local e regional, em 2008 foi criada a Rede Nacional de Mulheres Autoridades (Renama), formada por vereadoras, prefeitas, conselheiras, presidentes e vice-presidentes regionais, com uma agenda comum de gênero. Os conselhos são uma espécie de legislativo e as presidências equiparadas ao cargo de governador.
A Renama integra as demandas das mulheres e os problemas específicos que sofrem como políticas, além de ser um espaço de conhecimento e ação conjunta.
“É um espaço de acompanhamento de sua carreira política e – por que não? – para promover candidaturas aos governos regionais, um espaço de concertação. Aqui são fortalecidas em suas capacidades”, explicou a diretora da Calandria, promotora da rede.
“Deve-se dizer, as famílias não as apoiam e elas se sentem sozinhas”, revelou Correa, ao mostrar uma das barreiras com as quais os colegas homens não se deparam.
“A expectativa a respeito da participação política da mulher é grande, e o apoio provém tanto de homens como de mulheres, porque sua imagem está ligada à ética, à transparência e à honestidade. É importante a presença feminina, porque nossa sociedade tolera muito a corrupção”, explicou.
“A opinião pública acredita que a mulher está em melhores condições para promover uma vida democrática, porque tem sido atora de mudanças nos cargos que ocupou”, destacou.
Outra razão do apoio popular a presença feminina é a ideia majoritária de que as mulheres impulsionam as agendas sociais na política, como saúde e educação.
“Busca-se que estes assuntos sejam levados à agenda política pelas mulheres, embora alguns homens também sejam sensíveis a estas realidades, as mulheres são mais”, destacou Correa, com base em sua experiência de capacitadora de mulheres como autoridades locais.
Doze anos de lei de cotas
A participação política é impulsionada desde 1997 pela Lei de Cotas Eleitorais por Gênero, que estabelece 30% de presença de mulheres nas listas para órgãos colegiados, complementada em 2007 pela Lei de Igualdade de Oportunidade.
Mas, “Falta a lei de alternância para candidatos ao parlamento, aos municípios e governos regionais, que permitiria que as mulheres não fossem relegadas aos últimos postos”, disse à IPS Anel Townsend, ex-ministra da Mulher, a congressista mais votada em 2001 e incentivadora de variadas iniciativas legislativas com enfoque de gênero.
As cúpulas partidárias se mantêm marcadamente masculinas no Peru e resistem a perder espaço e poder, por isso colocam as mulheres em postos inelegíveis, acrescentou.
Para Townsend, a maior participação feminina não garante uma agenda de gênero mas é uma mostra de democratização política e, além disso, as mulheres, por sua experiência de vida, são mais sensíveis a temas como descriminação no trabalho em razão da maternidade ou uma diferença salarial frente a um homem com os mesmos títulos.
A ativista considera que outro elemento essencial para a participação política é a capacitação a partir da militância, e o mesmo é necessário em organizações sociais, empresas, nas coordenadorias, nos sindicatos e nas executivas.
No Peru, país com 28,7 milhões de habitantes, quase metade mulheres, Townsend considera que “é questão de tempo” as mulheres ocuparem cargos pessoais na proporção que lhes cabe, desde prefeituras à Presidência, onde considera que a dupla candidatura de Lourdes Flores “já abriu um caminho”, com seus erros e acertos.
“Os partidos não colocam as mulheres como candidatas a prefeitas porque nesse caso não existem cotas e não apostam nelas”, disse a pesquisadora Kristen Sample, chefe para os países andinos do intergovernamental Instituto para a Democracia e a Assistência eleitoral (Idea Internacional), que opera em nível mundial.
De fato, em 2006 as mulheres representavam apenas 7,7% das candidatas às prefeituras, o que explica somente 3% dos municípios terem uma prefeita. As coordenadoras chegam a 28,3% e as conselheiras regionais a 27,2% do total, perto da cota de 30% estabelecida na lei.
Porteiros que não abrem portas
Os partidos políticos continuam dizendo que “não há mulheres”, embora as militantes representem 44% desses coletivos, disse à IPS a pesquisadora.
Mas, existem avanços, com alguns partidos pedirem assessoramento à Idea para modificar seus regulamentos e capacitar as dirigentes internas, disse Sample.
“O partido político é um espaço de poder, e os temas de igualdade de gênero, cotas posição nas listas, são temas de poder, por isso este processo levará tempo”, reconheceu.
“O partido é o porteiro da política: confecciona a lista. Por isso, embora seja um espaço difícil, é necessário que as mulheres se organizem desde dentro e pressionem para as mudanças. E que a sociedade civil peça candidatas”, explicou.
“Os processos de mudança nas comunidades são liderados por mulheres, são muito reconhecidas como líderes. Mas, falta o salto à política”, explicou. Falta para isso que as agrupações sejam pró-ativas, se abram e sejam espaços mais amigáveis com a participação feminina.
A desigualdade dramática se dá no financiamento: um homem gasta, em média, 4,6 vezes mais do que uma mulher, ressaltou a representante da Idea.
Apesar de tudo, os eleitores, quando os deixam, votam nelas. Nas últimas eleições legislativas tiveram 39% de presença nas listas e receberam 38% dos votos.
Para enfrentar as diferenças de oportunidades, Sample propõe que se estabeleça legalmente uma posição nas listas de órgãos colegiados, como já ocorre na Costa Rica na Argentina, onde em cada três candidatos um tem de ser mulher.
A pesquisadora destacou com a mídia aborda de maneia muito diferente os candidatos e as candidatas e lhes fazem perguntas que não fariam a um homem, tais como se tem família ou com vão equilibrar suas diferentes responsabilidades, ou os comentários sobre elas se centram em sua roupa ou seu cabelo.
“Existem fortes estereótipos na mídia, que primeiro é importante lamentá-los, mas também combatê-los”, afirmou.
Tudo isso cria um problema adicional: o desânimo, que leva muitas mulheres a abandonar após um mandato. Para Sample, as mulheres devem aprender que desde a minoria também se pode consolidar uma carreira política.
Somente se mantiverem os postos alcançados as mulheres deixarão de ser as eternas “recém-chegadas”. “Na política peruana existe muita rotatividade, mais em mulheres do que homens”, disse a especialista.
Em todo o mundo, os partidos agem segundo interesses e colocam mulheres de acordo com esses fatores: se a lei os obriga, os eleitores pedem ou as mulheres pressionam desde dentro. “Na conjugação destes fatores se poderá ver avanços”, enfatizou Sample.
Por isso, a Idea capacitou 200 mulheres militantes de partidos políticos, seguindo a experiência dos países nórdicos europeus, onde a pressão para as mudanças surgiram desde dentro das forças políticas.
Um fenômeno animador das legisladoras atuais é que provêm de 15 departamentos e de três deles são representação majoritária, enquanto antes as mulheres chegavam ao parlamento com votos de eleitores de Lima.
Um único partido, União pelo Peru, colocou 15 das 35 legisladoras atuais. “Selecionaram bem suas candidatas. Eram líderes sociais reconhecidas, então aproveitaram esse capital político e social para ganhar” com candidatas em sua maioria de províncias, destacou a representante da Idea.
Isto jogaria por terra a ideia de que o voto de província é conservador ou que só os eleitores com maior formação e renda votam em mulheres. O fundamental é a seleção de “candidatas reconhecidas, que gozem da confiança da comunidade”, foi a receita de Sample. (IPS/Envolverde)


