Jerusalém, 12/11/2009 – “Veja que seu pai recebe isto”, disse um inspetor municipal israelense a um garoto palestino de 10 anos na porta de sua casa em Jerusalém oriental, enquanto lhe entregava uma notificação judicial de demolição do imóvel. O documento “número 59” é um, aviso de iminente demolição para as casas que carecem da devida autorização de construção. Na parte de cima diz: “Destinatário desconhecido”. Agora “se dirigem a mim com desconhecido. Mas sabem muito bem meu nome para me enviarem cobrança de impostos municipais e outros”, disse Musa Udeh, pai de cinco filhos e um dos 78 proprietários do bairro de al-Bustan, na área de Silwan em Jerusalém, cujas casas têm aviso de demolição. Silwan, de maioria árabe, está cercada pela Cidade Velha de Jerusalém.
Dez casas de al-Bustan foram demolidas desde que o novo prefeito israelense assumiu o cargo há um ano. Um grupo de policiais israelenses armados bloquearam o estreito beco onde fica a casa de Musa, chamando a atenção dos vizinhos. Musa discutiu em hebreu com o sargento Fares, ao lado do coordenador do Comitê contra a Demolição de Casas em Silwan, Fakhiri Abu Diab. “Este é o Estado de Israel, esta é a terra de Israel”, disse o sargento. “Do que está falando?”, respondeu Musa. “Meu pai, meu avô e o avô de meu avô nasceram aqui. Somos de Silwan, vocês são os ocupantes”, acrescentou. “Pode ser que seja sua terra, mas também é nossa”, respondeu Fares.
Em seguida, um oficial com óculos de sol passou o braço pelos ombros do sargento, o separou alguns metros e sussurrou: “Calma, não entre em uma discussão política”. O que “não entendo”, disse Fakhri, “é o motivo da provocação. Por que vêm nos intimidar com seus uniformes antidistúrbios, seus rifles e veículos todo-terreno? Apenas para nos incitar à violência e justificar o que estão fazendo. Se vão distribuir ordens de demolição, por que não enviam pelo correio, como o resto dos impostos?”, prosseguiu.
“Quantas notificações entregaram hoje? As 78?”, perguntaram os jornalistas presentes, entre eles o da IPS, aos dois funcionários municipais que foram ao local. “Não lhes diz respeito. Estão atrapalhando, fora”, disse um deles. “Sua política é entregar os avisos aos poucos”, explicou Mohammad Najal, coordenador comunitário dos bairros palestinos de Jerusalém oriental. “Se o fizessem de uma só vez, todos iriam para cima deles”, afirmou.
Mohammad estava em Silwan por casualidade para se reunir com Fakhri e analisar futuras estratégias para reforçar a resistência pacífica diante das ativas políticas israelenses contra a população árabe de Jerusalém oriental. O processo de demolição sempre é inoportuno para os palestinos, mas desta vez pode também o ser para o Estado judeu, porque ocorreu na véspera da reunião de segunda-feira entre o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.
O encontro foi em Washington a portas fechadas sem declarações posteriores e sem que ambos aparecessem diante dos jornalistas, fato que revela a tensão entre os dois países. Os palestinos tinham esperanças de que Washington se mostrasse mais duro na reunião em relação às políticas israelenses no território ocupado de Jerusalém oriental. No domingo viajará a Washington o ministro da Defesa israelense, Ehud Barak, para se encontrar com seu colega norte-americano, Robert Gates, e com o representante especial da Casa Branca para o Oriente Médio, George Mitchell.
Por sua vez, os Estados Unidos tentam acalmar o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, que disse na semana passada que não disputaria novo mandato nas eleições de janeiro devido à paralisação do processo de paz, o que complica ainda mais as coisas. “Estamos cada vez mais decepcionados. Obama ainda tem de concretizar suas promessas”, afirmou Mazen Abu Julbein, outro ativista de Silwan. “Mas, ainda não perdemos a esperança. Sua posição com relação a Jerusalém oriental colocará à prova suas verdadeiras intenções”, acrescentou.
Os dois veículos todo-terreno Land Rovers e as duas caminhonetes Toyota, com uma malha de ferro no pára-brisa para protegê-los de pedradas seguiram a toda velocidade para o próximo destino. A apenas 200 metros dali se ergue a enegrecida cúpula prateada da mesquita de Al-Aqsa, dentro de Haram al-Sharif, o complexo religioso da Esplanada das Mesquitas, o Monte do Templo para os judeus, dentro das muralhas da Cidade Velha do século XVI.
Os veículos policiais pararam diante de um novo edifício de apartamentos de sete andares. Um cartaz azul e branco com uma grande estrela de David pende por toda a fachada. É um dos vários prédios de Silwan, onde nos últimos anos se assentaram nacionalistas israelenses religiosos para aumentar a presença judia no bairro árabe. Durante um tempo foi um segredo que seus habitantes tampouco tinham permissão para construção. Organizações de direitos humanos processaram a municipalidade, segundo a imprensa local, pela demolição de uma pequena casa palestina. O juiz do caso intimou um inspetor municipal e lhe perguntou por que não enviara um aviso de demolição a prédio de sete andares. O funcionário respondeu: “Porque não o vi”. O tribunal ainda deve dar uma sentença a respeito.
Policiais aguardavam perto da casa de Musa, preparados para algum problema. A delicada situação piorou quando, não muito longe dali, caiu uma chuva de pedras de um dos telhados. As forças da ordem tomaram posição de combate, mas o sargento Fares levantou a mão para conter a represália. Fakhri também se adiantou para acalmar o grupo de espectadores palestinos. “Não queremos mais problemas. Nossa intenção e que sejam anuladas essas ordens, a violência não vai nos ajudar”, disse aos policiais e às pessoas atraídas pela agitação.
Musa continua furioso. Enquanto os veículos se preparam para partir, jogou a notificação na cara do inspetor, que a devolveu com desdém. “Ainda esperamos ver a luz no fim do túnel”, disse Fakhri, como corolário do pequeno incidente, que poderia acabar de forma pior. “Temos de continuar aferrados às esperanças. Mas, lamentavelmente, se um pouco de luz entra no túnel, não é do trem da paz, mas a de sempre, que nos sufoca e cega uma vez mais”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

