DESENVOLVIMENTO: ONU impulsiona cooperação Sul-Sul

Nova York, 05/11/2009 – Enquanto a crise financeira mundial continua afetando as economias mais frágeis, a Organização das Nações Unidas prepara para o próximo mês uma conferência internacional de alto nível destinada a promover a cooperação Sul-Sul. O encontro, que acontecerá nos dias 1, 2 e 3 de dezembro, em Nairóbi, tem como principal objetivo fortalecer o comércio, as finanças e o fluxo de investimentos entre os países em desenvolvimento. A Índia, país considerado um dos principais sócios comerciais e investidores do Sul, dá “grande importância” à próxima conferência.

“Esperamos participar ativamente deste acontecimento”, disse à IPS o ministro para Assuntos Externos indiano, Shashi Tharoor. A cooperação Sul-Sul cresceu principalmente através de impulsos bilaterais e multilaterais próprios das nações em desenvolvimento. “Esperamos que uma conferência sobre o tema reafirme esses esforços, utilizando as tecnologias, experiências e enfoques do Sul em iniciativas de desenvolvimento da ONU”, disse Tharoor. “Apesar de não apresentarmos a conferência como uma solução para a crise financeira, acreditamos que a cooperação Sul-Sul proporcionará ajuda e apoio adicional aos países em desenvolvimento”, acrescentou o chanceler.

Em um novo informe sobre “O estado da cooperação Sul-Sul”, apresentado no mês passado, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, destacou que a tendência geral, antes da crise atual, era “um notável aumento no comércio, nas finanças e no fluxo de investimento” entre as nações em desenvolvimento. Desde 1995, o comércio Sul-Sul cresceu, em média, 13%, alcançando em 2007 os US$ 2,4 milhões (20% do intercâmbio mundial), enquanto a taxa de crescimento do comércio internacional era de apenas 0,9%. Mas, “devido à atual crise econômica, a vasta maioria dos países experimenta um drástico revés do robusto crescimento ocorrido no período 2002-2007”, acrescenta o informe.

Somente na África, uma das regiões mais vulneráveis do mundo, espera-se que o crescimento econômico diminua 4,1% em 2009, em relação aos 5,1% do ano passado, segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), com sede em Genebra. Um diplomata da Ásia disse à IPS que o trabalho prévio para as grandes conferências internacionais é feito, em geral, com pelo menos um ou dois anos de antecipação. Mas a Assembléia Geral, de 192 membros, após anos de longas negociações, decidiu realizar a conferência de Nairóbi apenas no mês passado, dando pouco tempo para sua preparação. A Assembléia exortou os Estados-membros a participarem da conferência “no mais alto nível possível”. O lema do encontro é “Promoção da cooperação Sul-Sul para o desenvolvimento”. Islândia e Iêmen foram designados facilitadores para preparar um plano de ação a ser adotado no encontro.

Consultado sobre o significado da reunião de Nairóbi, o secretário-geral da Unctad, Supachai Panitchpakdi, disse à IPS: “A conferência é um êxito simbólico muito importante para os países em desenvolvimento e uma reflexão sobre a crescente importância da agenda Sul-Sul”. Mas, reconheceu que elaborar e negociar um completo plano de ação em poucas semanas é bastante ambicioso. “Porém, como foi a Conferência das Nações Unidas sobre a Crise Financeira e Econômica Mundial de junho passado, também será importante o acompanhamento depois do encontro, dando às nações a oportunidade de ir mais além das declarações de apoio, com indícios mais claros de como fazer avançar a agenda”, acrescentou.

Por sua vez, Tharoor disse que a conferência Sul-Sul está sendo preparada há bastante tempo, apesar de a resolução final ter sido aceita apenas recentemente. “É lamentável que a organização da conferência tenha demorado, devido à longa negociação, para concretizar as modalidades da resolução”, acrescentou. Além disso, o chanceler indiano disse que as principais diferenças entre os países do Norte industrial e o Sul em desenvolvimento eram sobre temas de “efetividade da ajuda” e sobre financiamento para o desenvolvimento. Consequentemente, o tempo relativamente pouco poderia acrescentar dificuldades para todos, especialmente para o país anfitrião, o Quênia. “Entretanto, não temos dúvidas de que, com a necessária vontade política e a cooperação de todos os envolvidos, a conferência Sul-Sul será um sucesso”, afirmou Tharoor.

A Índia, importante ator da Associação da Ásia Meridional para a Cooperação Regional e IBSA (iniciativa trilateral de desenvolvimento que inclui Índia, Brasil e África do Sul) esteve tradicionalmente à frente dos esforços de cooperação Sul-Sul. “É com esse espírito positivo e construtivo e em seu continuado compromisso para a cooperação Sul-Sul que a Índia pode encarar e participar da próxima conferência”, afirmou Tharoor. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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