Jerusalém, 06/11/2009 – O compromisso do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, com o processo de paz entre palestinos e israelenses conseguiu superar a falida política de seu antecessor. Porém, Washington continua dando passos em falso. Apesar das opiniões desfavoráveis a Washington que se multiplicam no Oriente Médio, talvez nem tudo esteja perdido para a iniciativa de Obama. Um exemplo do lamentável estado dos esforços do mandatário norte-americano, ganhador do prêmio Nobel da Paz em outubro, foram as declarações feitas na semana passada por sua secretária de Estado, Hillary Clinton, após se reunir com autoridades palestinas e israelenses e com os chanceleres da Liga Árabe.
Para deleite do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, Hillary elogiou em Jerusalém a disposição “sem precedentes” de Israel para limitar a construção de assentamentos, apesar da atuação do Estado judeu estar muito longe do que a própria secretária havia reclamado. Em maio, Hillary afirmou que era preciso frear por completo a construção de assentamentos judeus em territórios palestinos, “não alguns, nem os postos avançados nem os que se espera sejam parte do ‘crescimento natural’, mas deter por completo” essa prática. Os termos de Washington foram desenhados, desde o “congelamento total”, até “conter” ou “limitar” os assentamentos.
Mas, quando o secretário-geral da Liga Árabe, Amr Musa, encabeçou o coro de protestos contra Washington por deixar Israel agir como bem entende, Hillary voltou atrás e moderou seus elogios a Israel. Sua justificativa foi que “os Estados Unidos não deixarão de pressionar Netanyahu para que faça mais”, embora “queira incentivar Israel a avançar na direção correta”. “Expectativas” é a palavra-chave. O próprio Obama incentivou as expectativas árabes no discurso que fez em junho no Cairo. Nesse discurso, que pretendia ser a pedra angular de sua política para o Oriente Médio, Obama disse que não permitiria a Israel continuar ignorando as reclamações internacionais.
Os árabes, em geral, e os palestinos, em particular, redescobriram literalmente os Estados Unidos. Porém, em lugar de converter em um pilar para a paz, o discurso do Cairo se transformou em um errôneo sinal no caminho da decepção. Depois chegou o verdadeiro fato-chave, o informe da missão dirigida pelo sul-africano Richard Goldstone para a Organização das Nações Unidas, que acusou Israel de cometer crimes de guerra durante a ofensiva contra Gaza entre 27 de dezembro de 2008 e 18 de janeiro deste ano.
A ONU recomendou ao ex-magistrado do Tribunal Constitucional da África do Sul e ex-chefe dos promotores dos tribunais internacionais de julgamento de crimes de guerra e os atos de genocídio em Ruanda e na antiga Iugoslávia que indagasse o ocorrido no ataque israelense contra Gaza. Goldstone é judeu e se define como sionista. Citando as melhores intenções de conseguir a paz, Obama tratou de arquivar o informe Goldstone por entender que apenas iria endurecer as posições dos dois lados e complicar sua própria estratégia.
Obama decidiu, então, pressionar duramente o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, para que adiasse o reconhecimento do documento. Mas isso deixou Abbas abandonado à própria sorte e fora do mapa do caminho para a paz desenhado por Obama. O que pode salvar o presidente norte-americano do descrédito? Segundo fontes próximas ao ministro israelense da Defesa, Ehud Barak, Israel recordou a Washington seu fracasso com os assentamentos e agora prepara um “pacote surpresa” para que Abbas volte à mesa de negociações e, de passagem, salve a atribulada iniciativa de paz de Obama.
As mesmas fontes dizem que Netanyahu está considerando o plano de seu ministro da Defesa, que incluiria uma oferta tentadora ao líder palestino sobre as futuras fronteiras do vizinho Estado palestino, para negociar durante os próximos dois anos. Ao que parece, essa é a proposta que Netanyahu e Barak apresentarão a Obama quando se reunirem em Washington dentro de duas semanas. Mas, se essa iniciativa não se materializar, Obama terá de reconhecer que o momento da verdade se aproxima a passo de gigante, não tanto para árabes e israelenses, mas para seu próprio governo. Ele terá a responsabilidade de estabelecer quais são os passos para alcançar a paz.
Assessores do presidente norte-americano já lhe recomendaram que, se palestinos e israelenses não estiverem dispostos a sair do impasse, os Estados Unidos não poderão fazer outra coisa a não ser se retirar e deixar que sofram sozinhos sua intransigência. Obama pode acabar fazendo o mesmo que seu antecessor, George W. Bush: nada, até o final de seu mandato. Mas, como decidiu se envolver, deve saber que agora não é possível dar as costas ao Oriente Médio. No fim das contas, foi ele quem definiu que esse conflito regional é um assunto estratégico para os Estados Unidos.
Apesar de tudo, nada permite esquecer que Obama disse explicitamente que seu governo não tolera os assentamentos, algo que jamais nenhum de seus antecessores havia dito. Também demonstrou não estar disposto a aceitar de modo automático que Israel retenha os assentamentos mais povoados, como Bush havia prometido. Mas isso não basta para demonstrar aos árabes que Obama leva a sério o processo de paz. “Assentamentos” não é mais do que uma palavra-chave para se referir às fronteiras do futuro Estado palestino.
A firmeza de Obama sobre as colônias judias é um sinal de como seu governo imagina as fronteiras entre Israel e Palestina. Acabou-se o tempo das evasivas, disse a conhecida analista israelense Leslie Susser. “Quando Obama fizer árabes e israelenses sentarem à mesa de negociações, deverá apresentar a Israel um plano de paz completo com as fronteiras dos dois estados”, afirmou. O problema de Obama é que o Oriente Médio não costuma ficar muito tempo no limbo, sem que a violência irrompa. Pode ser prematuro para seu governo, mas se Obama não canalizar a energia para objetivos claros, um novo enfrentamento está cada vez mais próximo. (IPS/Envolverde)

