DESTAQUES: Povoados solares se acendem em Puna

BUENOS AIRES, 09/12/2009 – (Tierramérica).- A luz e o calor do Sol são das poucas riquezas que a natureza oferece em abundância à árida Puna, na Argentina.

Centro de pesquisa da EcoAndina em Puna, Argentina - Gentileza EcoAndina

Centro de pesquisa da EcoAndina em Puna, Argentina - Gentileza EcoAndina

Os habitantes de Puna, no norte argentino, estão longe de tudo, menos do Sol. Vivem em aldeias pequenas e dispersas – sobre um solo árido e milhares de metros acima do nível do mar –, que estão no caminho de se converterem em “povoados solares”. No norte da província argentina de Jujuy, no noroeste, os moradores comprovam que a energia solar, uma fonte limpa e inesgotável, pode substituir a lenha, cada vez mais escassa, por meio de uma série de projetos desenvolvidos pela Fundação EcoAndina. A Puna Argentina, com altitudes entre 2.700 e 4.600 metros, é parte do extenso altiplano andino compartilhado por Argentina, Bolívia, Chile e Peru.

A Fundação EcoAndina busca melhorar as condições de vida das populações locais, aproveitando a riqueza insustentável do Sol, do vento e da água, mas mantendo a identidade cultural e histórica dessas comunidades, muito vulneráveis e com exíguos recursos materiais. Desde que começou seu trabalho, há duas décadas, foram instalados na área cerca de 400 equipamentos de energia solar em 30 povoados. Fogões familiares e comunitários, fornos de padaria, aquecedores, coletores de água e irrigação por gotejamento são as técnicas e os dispositivos desenvolvidos a partir de diferentes aplicações desta energia.

Além de cozinhar em fornos tão efetivos como os a gás, as famílias podem ter acesso a calefação e água quente para suas casas. Nas escolas há coletores solares para aquecer as salas e paineis fotovoltaicos que produzem eletricidade. Os projetos são feitos com financiamento de diversas fontes. Um destes programas permitiu desenvolver tecnologia para verificar a redução de emissões de dióxido de carbono com o uso de fogões solares. A certificação permitirá obter créditos de carbono vendidos no mercado e que geram fundos para adquirir novos equipamentos.

Os fogões, que podem ser usados dentro ou fora das casas, conforme o modelo, são fabricados na região com baixo custo. Os mais usados são os “parabólicos”, que utilizam um painel na forma de parabólica em alumínio polido para concentrar os raios solares. Estas técnicas permitem substituir energias tradicionais que, ao expelirem gases contaminantes como o dióxido de carbono, contribuem para o aquecimento da Terra. Nessa região de solos áridos e semiáridos, com vegetação frágil e escassa, abandonar o consumo de lenha contribui para combater a desertificação. A altitude e o clima seco do ambiente determinam que a vegetação cresça lentamente, e as pessoas precisam ir cada vez mais longe em busca de madeira.

Estudos da Fundação indicam que com um fogão solar o consumo de lenha em duas casas diminui entre 50% e 70%. Silvia Rojo, presidente da EcoAndina, explicou ao Terramérica que tradicionalmente a população de Puna cobria sua demanda térmica com lenha de três tipos de plantas: tola, queñoa e yareta. Mas sua extração provocou grave desertificação, perda de diversidade de espécies e danos às bacias hídricas. A alternativa à lenha é o gás propano, vendido em botijões de dez quilos e a preços muito altos nesta região distante de cidades e estradas. “O gás engarrafado custa quase 13 vezes mais por metro cúbico do que o metano fornecido pela rede pública nas cidades”, disse Rojo.

“Nosso trabalho se concentra em oferecer fontes de energia térmica alternativas à lenha e ao gás engarrafado para cerca de 30 povoados”, ressaltou Rojo. Hoje, as aplicações solares “gozam de grande aceitação e demanda, por isso divulgamos o conceito de povoados solares”, acrescentou. Para alcançar esta categoria, as comunidades são treinadas com apoio do Fundo para o Meio Ambiente Mundial e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. O primeiro “povoado solar” é Lagunillas del Farallón. “É um reconhecimento que qualifica a comunidade e a enche de orgulho, porque é reconhecida como usuária de tecnologias limpas”, destacou Rojo.

O circuito se completa com outras localidades, que nos próximos anos vão cobrindo as necessidades: Ciénaga de Paicote, Cabreríre, Paicote, Cusi Cusi, San Juan e Oros, La Ciénaga, San Francisco, Casa Colorada e Misa Rumi. O primeiro local onde a EcoAndina trabalhou foi Misa Rumi. Ali fica uma casa completamente equipada com energia solar e eólica, que funciona desde 1997 como sede para trabalhos de campo e local de pesquisa.

La Puna é propícia. Essa meseta elevada, parte da Cordilheira dos Andes, é muito seca e seu clima registra uma grande amplitude térmica, explicou ao Terramérica o alemão Christoph Müller, que trabalha para a EcoAndina na área técnica. Em uma mesma jornada de inverno a temperatura pode passar de 20 graus durante o dia para 25 abaixo de zero à noite. De dia, o céu está completamente claro durante quase todo o ano. Essas características fazem desta região uma das de maior radiação do mundo, junto com o Altiplano da Bolívia e as mesetas do Tibete e do Afeganistão, e, portanto, muito apta para explorar a energia solar.

No momento, as iniciativas limitam-se a levar energia e calor para casas, centros comunitários e escolas, mas suas ambições podem ser maiores. Segundo Rojo, a EcoAndina impulsiona a ideia de uma geradora solar para fornecer eletricidade para toda Jujuy, sem emitir poluentes e quase sem custos de geração. Se isso se concretizar, será a primeira da América Latina, embora Brasil e Chile também estejam na corrida. “Não será possível atender todos os povoados do norte da província por estarem dispersos, mas estes já possuem sistemas fotovoltaicos comunitários para gerações pontuais pelo povoado”, destacou Rojo.

* A autora é correspondente da IPS.

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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