DESENVOLVIMENTO: A busca por soluções Sul-Sul

Nairóbi, 03/12/2009 – A Conferência de Alto Nível sobre a Cooperação Sul-Sul começou nesta capital com o chamado da vice-secretária geral da Organização das Nações Unidas, Asha Rose Migiro, para a busca de soluções práticas e reforço dos vínculos entre os países em desenvolvimento e também com o Norte industrializado. “São exigências de nosso tempo”, disse. A conferência, que começou ontem e termina hoje, destaca os crescentes vínculos políticos e econômicos dentro do Sul na medida em que estes países assumem papeis de liderança em temas internacionais como recuperação econômica, segurança alimentar, mudança climática e doenças pandêmicas. Também analisa os 30 anos de progresso desde a Conferência sobre Cooperação Técnica entre os Países em Desenvolvimento, realizada em Buenos Aires em 1978.

“Na maioria dos casos as soluções das nações em desenvolvimento são mais aceitáveis e viáveis do que as procedentes dos países ricos”, disse à imprensa o secretário permanente do Ministério do Planejamento e Desenvolvimento Nacional do Quênia, Edward Sambili. “A cooperação Sul-Sul é uma estratégia de desenvolvimento alternativo, é um instrumento de incentivo à autonomia”, enfatizou.

“Existe um potencial enorme para o comércio Sul-Sul”, destacou à IPS Yiping Zhou, diretor da Unidade Especial de Cooperação Sul-Sul do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O comércio dentro do Sul cresceu, em média, 13,4% ao ano desde 1995, e chegou a US$ 2,4 bilhões, equivalente a 20% do comércio mundial em 2007. Atualmente, 40% do intercâmbio comercial internacional correspondem aos países em desenvolvimento e aos mercados emergentes. Nesse mesmo período a proporção de exportações africanas para outras partes do Sul cresceu cerca de 7% anuais. As vendas combinadas da África para China e Índia somaram aproximadamente US$ 40 bilhões.

Dois informes novos do secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, confirmam a tendência atual. O investimento estrangeiro direto (IED) que sai dos países em desenvolvimento alcançou a cifra recorde de US$ 253 bilhões em 2007, o que constitui cerca de um oitavo do total mundial. Mais de 40% da IED proveniente do Sul são investidos nos 49 países com menor desenvolvimento econômico (PMD). “O desenvolvimento não ocorre no vazio. Tem mais êxito quando combinado com estratégias para aumentar o comércio e o investimento internacionais”, disse Migiro.

Os países em desenvolvimento também se transformaram em uma fonte cada vez mais importante de assistência ao desenvolvimento, segundo Ban Ki-moon. Cumpridas as promessas de ajuda, a quantia total pode chegar a US$ 15 bilhões para o próximo ano. “O conhecimento, a capacitação e a experiência técnica que podem ser intercambiadas com a cooperação Sul-Sul são em muitos casos os mais propícios para lidar com os problemas de desenvolvimento que têm outros no Sul”, disse a administradora do Pnud, Helen Clark, que também atua como secretária-geral da conferência.

“O rápido crescimento econômico de algumas nações em desenvolvimento, de fato, melhorou drasticamente as perspectivas de desenvolvimento dos países vizinhos, o que impulsiona o crescimento econômico e o comércio e investimento Sul-Sul”, disse Altigani Salih Fidail, ministro de Cooperação Internacional do Sudão, representando o Grupo de 77 países em desenvolvimento mais a China. “Hoje, os 130 países membros do G-77+China, além de seu tamanho ou nível de desenvolvimento, acumulam diversos graus de capacidade e experiência, que podem ser compartilhados no plano Sul-Sul”, disse Fidail. “Cada país do Sul tem algo de valor para compartilhar”, acrescentou à IPS Yiping Zhou.

Mas as dificuldades continuam. Apesar das tendências positivas em geral, “a pobreza, a fome e o desemprego ainda afetam uma grande quantidade de nações em desenvolvimento, em particular as de menor desenvolvimento, aquelas sem saída para o mar e os pequenos Estados insulares”, destacou Fidail. A atual crise financeira agravou a pobreza extrema nos países em desenvolvimento, e a maioria deles não está no caminho de cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio até 2015.

Em resposta ao problema, o embaixador do Nepal, Gyan Chandra Acharya, presidente do Grupo de Países de Menor Desenvolvimento, junto com a Unidade Especial para a Cooperação Sul-Sul, convidou membros dos PMD para uma reunião de intercâmbio de ideias paralelamente à conferência para discutir as prioridades e oportunidades da cooperação para estes países.

“A crise mundial que enfrentamos põe em risco a conquista dos ODM e a comunidade internacional deve reforçar seu apoio aos países em desenvolvimento em sua luta de alcançar esses objetivos”, destacou Ann Dismorr, embaixadora da Suécia no Quênia e na ONU em representação da União Europeia. “Em particular, procuramos compreender melhor a forma de fortalecer a função do sistema da ONU em apoio à cooperação Sul-Sul e triangular”, disse Dismorr.

O Pnud apoia e facilita o intercâmbio do conhecimento e as experiências Sul-Sul para ajudar o desenvolvimento, afirmou Helen Clark, acrescentando que essa agência da ONU também apoia as iniciativas regionais e sub-regionais. (IPS/Envolverde)

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