DESTAQUES: As várias vidas da taxa Tobin

BERLIM, 15/12/2009 – (Tierramérica).- A urgência para enfrentar a mudança climática em um contexto de crise financeira proporcionou nova vida à “taxa Tobin”, uma iniciativa de ação fiscal sobre as transações especulativas.

Manifestantes da ActionAid reclamam em Copenhague: “Países ricos paguem sua divida climática” - IPS/TerraViva

Manifestantes da ActionAid reclamam em Copenhague: “Países ricos paguem sua divida climática” - IPS/TerraViva

Desde que o prêmio Nobel de Economia James Tobin (1918-2002) propôs o imposto contra a especulação de divisas que leva seu nome, essa ideia surgiu e desapareceu várias vezes. A atual crise econômica global, derivada da especulação com imóveis e na bolsa de valores nos Estados Unidos e em outros países industrializados, e também a necessidade de financiar os enormes custos da luta contra a mudança climática constituem o contexto ideal para implementar essa proposta.

Em contraste com os esforços anteriores de organizações não governamentais que adotaram a ideia de “lançar um pouco de areia nas bem engraxadas engrenagens da especulação”, como disse Tobin em sua proposta original, esta é apoiada por vários governos de países industrializados, entre eles Alemanha, França, Grã-Bretanha e Rússia. No dia 7, durante reunião da Organização das Nações Unidas em Nova York, o chanceler francês, Bernard Kouchner, propôs a “taxa Tobin” para financiar políticas de mitigação e adaptação à mudança climática nas nações em desenvolvimento.

Kouchner disse que o tributo deveria ser discutido e aprovado na 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-15), que acontece entre 7 e 18 deste mês em Copenhague. “Seria um grande beneficio” a aprovação desta medida na capital dinamarquesa, afirmou Kouchner. Pela ideia original de Tobin, o imposto, representado por uma microtaxa, deveria ser cobrado de cada intercâmbio de divisas, mas somente nas transações especulativas de curto prazo. Pela proposta de Kouchner, a taxa seria de 0,005%. “Ninguém sofreria por causa dela, pois custaria apenas cinco centavos em uma transação de mil dólares ou mil euros”, afirmou o chanceler da França.

Um estudo apresentado em outubro de 2007 pelo Instituto Norte-Sul, com sede em Ottawa, estimou que o imposto de 0,005% sobre as transações de divisas geraria uma quantia de, pelo menos, US$ 35 bilhões ao ano. De acordo com estimativas do governo brasileiro, seriam necessários cerca de US$ 300 bilhões anuais para financiar políticas de adaptação e mitigação da mudança climática nos países em desenvolvimento. Outra estimativa, da Convenção Marco, considera os investimentos necessários “em mais de US$ 100 bilhões ao ano”, mas em um trecho enumera possíveis investimentos de aproximadamente US$ 170 bilhões em 2030. A Organização Global de Legisladores para o Equilíbrio Ambiental (Globe) estima as necessidades financeiras derivadas da mudança climática entre US$ 28 bilhões e US$ 67 bilhões ao ano.

De acordo com o Banco de Compensações Internacionais, o volume diário de comércio de divisas chegou, em 2007, a US$ 1,5 trilhão. Esta quantia contrasta com o comércio internacional de bens e serviços, que, segundo a Organização Mundial do Comércio, representou esse ano pouco mais de US$ 17 trilhões. Isto é, a especulação monetária, que objetiva se beneficiar de flutuações no curto prazo nas taxas de câmbio das principais moedas do planeta, representa mais de 90% do volume de comércio de divisas.

Embora, nas décadas de 80 e 90, a proposta de Tobin tenha sido discutida ocasionalmente em meios acadêmicos, a criação de um imposto contra a especulação financeira foi resgatada pelo jornal mensal francês Le Monde Diplomatique em dezembro de 1997, como reação à crise financeira da época, que afetou particularmente países da América Latina, da Ásia e a Rússia. Como consequência dessa proposta, em1998 foi fundada, em Paris, a Associação pela Taxação das Transações e pela Ajuda aos Cidadãos (ATTAC), para promover a criação do imposto Tobin e empregar o dinheiro arrecadado para financiar políticas de desenvolvimento nos países mais pobres.

A proposta de Tobin ganhou atualidade em 1998, graças às atividades da ATTAC, da qual se distanciou em 2001. Nesse ano, o parlamento francês aprovou o imposto de 0,1% contra a especulação, que, segundo legisladores franceses, poderia arrecadar até 50 bilhões de euros (quase US$ 73,5 bilhões) diariamente. Em 2004, o parlamento belga aprovou um imposto semelhante. Entretanto, as duas leis entrarão em vigor somente no contexto de uma legislação europeia global sobre o assunto. Em novembro deste ano, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, também propôs um imposto contra a especulação. Durante uma reunião do Grupo dos 20 países mais industrializados e emergentes, Brown defendeu a introdução de uma “taxa de seguro ou um imposto sobre as transações financeiras globais que reflete o risco sistêmico” delas derivado.

Oficialmente, o governo da Alemanha também apoia o imposto, embora alguns de seus ministros sejam contra. Inclusive o governo da Rússia, inicialmente contrário a essa taxação, anunciou, no final de novembro, sua disposição de introduzir um imposto sobre as transações especulativas contra o rublo. O imposto Tobin também é apoiado por Brasil e Venezuela, e inclusive por especuladores profissionais, como George Soros. O governo dos Estados Unidos, cujos principais funcionários financeiros são antigos executivos de fundos de investimento ou de bancos, é contra a cobrança do tributo.

* O autor é correspondente da IPS.

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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