Copenhague, 17/12/2009 – A presidente da conferência sobre mudança climática, Connie Hedegaard, afastou-se do cargo ontem, após alertar para o possível fracasso das negociações na capital dinamarquesa para conseguir um acordo, destinado a reduzir as emissões de gases-estufa.
“Devemos pisar no acelerador se queremos ter êxito”, disse a ministra aos ministros do Meio Ambiente de todo o mundo, ao abrir oficialmente na terça-feira a fase de alto nível das negociações, que terminarão na sexta-feira. Durante a parte conclusiva, os últimos dois dias, espera-se que se reúnam no Bella Center de Copenhague cerca de 130 chefes de Estado e de governo.
“Vocês devem chegar a um acordo, devem se comprometer, devem cumprir agora”, reclamou Hedegaard. Não se sabe as razões exatas de sua demissão. Seu substituto na presidente da COP-15 é o próprio anfitrião, o primeiro-ministro dinamarquês, Lars Loekke Rasmussen. Desta forma dramática começou a etapa política e final da Conferência sobre mudança climática da Organização das Nações Unidas.
Os ministros já começam a chegar a esta capital, os chefes de Estado começam a chegar, os jornalistas correm atrás das figuras de maior destaque, os ativistas são presos nas proximidades da sede da conferência. E, enquanto isso, tenta-se aglutinar o poder político necessário para um acordo. Mas, existe vontade política para chegar a um acordo significativo? Os rumores nos corredores do Bella Center, repleto de rascunhos do texto em negociação, é que os países do Norte industrial e do Sul em desenvolvimento seguem enfrentados pelo cumprimento dos compromissos já assumidos no Protocolo de Kyoto.
Este instrumento obriga os 37 países industrializados que o ratificaram a reduzir suas emissões até 2012 em 5,2% com relação aos níveis de 1990. Mas as nações ricas querem negociar um tratado totalmente novo. Não será fácil para as grandes economias emergentes cumprir as reduções desejadas pelos ricos em contrapartida, disse o holandês Yvo de Boer, secretário-executivo da Convenção Marco das Nações Unidas para a Mudança Climática. “Na Índia existem 400 milhões de pessoas sem eletricidade. Como se apaga uma luz que não se tem?”, perguntou.
Estados Unidos e Canadá frustraram o diálogo Norte-Sul ao anunciarem uma redução de suas emissões de 4% e 3%, respectivamente, diante dos níveis de 1990. Parece provável que a Conferência feche um acordo de um fundo de US$ 10 bilhões anuais até 2012 para realizar as metas de Kyoto, que expiram nesse ano. A União Europeia prometeu US$ 3,6 bilhões na semana passada, e espera-se que EUA e Japão também contribuam. Mas, não aparece no cenário um plano de financiamento de longo prazo para as medidas de adaptação e mitigação, nem para a transferência de tecnologia.
A própria UE disse que são necessários por ano pelo menos US$ 100 bilhões para neutralizar as consequências da mudança climática, sem indicar de onde sairão esses fundos. Para as organizações da sociedade civil, a quantia seria inclusive maior. “Calculamos um mínimo necessário de US$ 160 bilhões para o segundo período de compromissos, de 2013 a 2017”, disse Kathrin Gutmann, do Fundo Mundial para a Natureza. De Boer, no entanto, pediu aos países negociadores que tenham “compaixão”. “Na continuem pisando no mesmo terreno de sempre. Há muitas coisas em jogo. A compaixão torna os países grandes. Isto não tem a ver com uma nação que se imponha a outra, nem com um grupo a outro. Cento e cinqüenta governantes não vêm a Copenhague para voltar de mãos vazias”, afirmou. “Para ganhar tempo na batalha contra a mudança climática devemos encontrar a forma de as árvores valerem mais vivas do que mortas”, afirmou o Príncipe Charles da Grã-Bretanha, uma das figuras presentes na inauguração da reunião de alto nível.
“Três anos arrecadando apoio se reduzem a três dias de negociações”, afirmou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, em um chamado para que os chefes de Estado e de governo dos países industriais fixem metas para reduzir as emissões de gases contaminantes, que causam o aquecimento do planeta.
“Mas os países em desenvolvimento também devem reduzir o crescimento de suas emissões” disse aos delegados. “Chegou a hora de um consenso. Ninguém obterá o que deseja nestas negociações, mas todos poderão obter o que precisam”, disse Ban. Porém, alguns ativistas do movimento ecológico presentes em Copenhague não acreditam que os governantes conseguirão algo.
Dionísio Cabrera, líder indígena da Bolívia, afirmou que respeitar a Mãe Terra, assumir a dívida climática e reconhecer os povos indígenas – a seu ver, a reserva moral do planeta – devem ser os três pontos a guiar as medidas a serem adotadas. Os setores mais vulneráveis à mudança climática não se limitarão a observar atrás por trás do palco. Cabrera anunciou na terça-feira aos jornalistas uma ação direta para “reclamar o poder” para o povo. “Somos os credores e os devedores devem pagar suas dividas”, disse a ativista queniana Wahu Kaara. A neve caiu sobre Copenhague nas últimas horas, mas a temperatura dentro da Conferência esquenta. (IPS/Envolverde)
* Esse artigo teve as colaborações de Claudia Ciobanu, Stephen Leahy e Terna Gyus.


