ÁFRICA DO SUL: Lições difíceis para pequenos negócios na costa ocidental

SALDANHA, África do Sul, 07/01/2010 – O som das máquinas de costura enche a sala com um zumbido baixo e contínuo. Um pequno número de mulheres está sentado atrás das máquinas, com as cabeças inclinadas, concentradas no seu trabalho. As costureiras pertencem a um projecto de desenvolvimento empresarial dirigido pelo Centro de Desenvolvimento Empresarial da Costa Ocidental (WCBDC) em Saldanha, que visa prestar apoio empresarial e garantir rendimentos estáveis a pessoas anteriormente desempregadas.

“Estou a trabalhar neste projecto de costura há três anos. Sinto que sou uma pessoa com sorte, porque muita gente não tem empregos nesta área,” disse Antonia Kuzani, uma das costureiras.

A tímida e afável costureira de 25 anos costumava trabalhar como mulher de limpeza, mas ficou desempregada durante três anos depois de ter sido despedida.

“Durante muito tempo estive à procura de um emprego e não encontrei nada porque há muito desemprego. Durante algum tempo, tentei arranjar dinheiro a vender rebuçados na rua, mas não ganhava o suficiente para sobreviver,” disse

Ganha 215 dólares por mês a trabalhar no projecto de costura que, afirma, é apenas suficiente para pagar as despesas correntes e enviar o filho de nove anos à escola. “O meu salário desaparece depois de pagar a renda, água, electricidade, alimentação, roupa e propinas. Só o transporte para o trabalho custa 280 randes (38 dólares) por mês. Todo o dinheiro é gasto nestas coisas básicas.”

Kuzani e as colegas trabalham por contrato destinado à produção de 1.000 camisas de trabalho por ano para o grupo mineiro sul africano Exxaro Sands. Também produzem centenas de sacos de lavandaria para a companhia Duferco Steel Processing.

O seu negócio baseia-se no conceito de que os grandes produtores que possuem fábricas na área da Baía de Saldanha podem externalizar uma parte da sua cadeia de abastecimento, através do WCBDC, a pequenos negócios como o projecto de costura, ajudando-os desse modo a crescer.

“O centro de desenvolvimento empresarial apareceu quando as grandes companhias (que transferiram as suas operações para a área da Baía de Saldanha) viram uma lacuna no mercado dos pequenos fornecedores locais de quem obtêm recursos. Precisavam de externalizar os projectos de produção mais reduzidos e, ao mesmo tempo, queriam investir nestas comunidades,” explicou a directora executiva do WCBDC, Abigail Murray.

Diversas companhias de grande dimensão – incluindo a Exxaro, a Duferco Steel, a Autoridade Portuária Nacional Transnet e a ArcelorMittal – juntaram-se em 1998 para criar uma iniciativa de responsabilidade social das empresas, cuja intenção era a redução da elevada taxa de desemprego na região da Baía de Saldanha. O resultado foi o WCBDC e um banco de dados com os nomes de pequenos fornecedores.

O projecto de costura foi uma das primeiras iniciativas orientadas para o desenvolvimento de pequenos negócios encetada pelo WCBDC em Junho de 2001. O censo desse ano registou a taxa de desemprego nas duas principais cidades daquela municipalidade, Saldanha e Vredenburg, como cifrando-se nos 27 e 28 por cento, respectivamente.

O projecto de costura ainda tem de se tornar num negócio sustentável e proporciona trabalho apenas para quatro pessoas. “Precisamos de mais encomendas e de mais clientes se quisermos que o negócio aumente e também ganhar mais dinheiro,” disse Kuzani.

A sua colega, Nondumiso Ntoyakhe, uma robusta trabalhadora de 29 anos que antes era trabalhadora rural sazonal – desempregada durante a maior parte dos meses do ano – concorda. “O projecto de costura representa uma grande melhoria nas nossas vidas, mas o rendimento ainda não é o suficiente.”

O projecto iniciou-se com uma injecção financeira de 7.600 dólares proveniente do Grupo Anglo-American – ao qual pertence a Exxaro Sands –, da Shell e do Ministério do Trabalho sul africano. Vinte e quatro mulheres desempregadas locais receberam formação em costura técnica e gestão de empresas.

“A maior parte delas está a fazer outras coisas, a trabalhar noutros sítios ou então arranjaram o seu próprio pequeno negócio. Só um reduzido número de mulheres é que continua a trabalhar no projecto,” disse Murray.

Apesar dos esforços do centro para promover o desenvolvimento de pequenas empresas, a maioria dos negócios em arranque tem dificuldade em estabelecer operações sustentáveis. “Neste momento, o projecto de costura, por exemplo, está a perder dinheiro. É subsidiado pelo WCBDC. Infelizmente, é o que acontece a toda a gente. O dinheiro nunca é suficiente e o desemprego é um enorme problema em toda a região,” afirmou.

“Muitas das grandes empresas não usam os fornecedores que constam no nosso banco de dados (com cerca de 10 pequenas empresas), porque têm necessidades que não podem ser preenchidas por pequenas companhias,” explicou Murray. “As grandes firmas tomam decisões de negócios bastante rigorosas. Não há espaço para falhanços ou simplesmente boa vontade.”

O objectivo da iniciativa WCBDC é criar pequenos negócios e apoiá-los sob a forma de assistência professional e formação mas, em última análise, espera-se que funcionem e sejam lucrativos por si próprios. Quando isto se torna demasiado difícil, as pessoas tentam manter os negócios em funcionamento a partir de casa com uma só pessoa ou então procuram emprego numa companhia maior noutras partes da província.

Ntoyakhe acredita que não é suficiente esperar que as grandes companhias criem emprego – o governo também precisa de mostrar um maior empenho em reduzir o desemprego na região. “O governo precisa de investir mais dinheiro nas empresas aqui. Muita gente não está a trabalhar. Muitas companhias fecharam. Se existissem mais empregos, tudo estaria melhor,” referiu.

Considera que a pobreza aumentou dramaticamente nos últimos cinco a dez anos na municipalidade da Baía de Saldanha. “As pessoas têm dificuldades. Muitas passam fome. Não têm comida. Não têm esperança nem oportunidades e, por isso, há muitas drogas, álcool e crime, especialmente entre os jovens,” disse Ntoyakhe.

“As pessoas são obrigadas a cometer crimes porque não há dinheiro.”

Nos primeiros anos da sua existência, o centro de desenvolvimento empresarial recebeu apoio financeiro do Ministério do Trabalho sul africano, mas esse financiamento terminou há cinco anos. Murray acredita que o período de financiamento foi demasiado curto para se alcançar a sustentabilidade a longo prazo.

“Existia uma grande vontade por parte do governo para apoiar o desenvolvimento de pequenos negócios, mas disseram-nos que nos devíamos afastar da dependência e iniciar projectos que gerassem rendimentos e empregos genuínos,” disse Murray.

“Mas estamos com dificuldade para o fazer, porque não conseguimos os contratos que esperávamos e muitas pessoas com boas ideias empresariais não conseguem ter acesso a financiamento.”

Embora os ministérios e agências governamentais continuem a ser o maior potencial comprador na África do Sul, poucas pequenas empresas conseguem concorrer com êxito a esses contratos.

“O processo é demasiado burocrático para que uma pequena companhia consiga meter o pé na porta. O governo não envida suficientes esforços para utilizar as pequenas companhias,” queixou-se Murray.

Calcula que menos de metade dos negócios que o WCBDC ajudou a estabelecer ainda sobrevive, mas continua a ter esperança. “Existem alguns negócios que iniciámos que ultrapassaram o centro devido ao seu crescimento. Tornaram-se suficientemente grandes para passarem a apoiar a próxima geração de pequenos negócios”.

Aponta que esses negócios foram bem sucedidos devido ao seu trabalho árduo, ao facto de não terem desistido, e de terem tido a sorte de conseguirem assegurar um dos poucos contratos ou ofertas existentes aos pequenos fornecedores na área.

Murray espera que, se o WCBDC conseguir desenvolver esta parte da sua estratégia, eventualmente será bem sucedido e fará uma diferença.

Kristin Palitza

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