Lima, 28/01/2010 – As comunidades originárias devem planejar melhor sua participação conjunta na próxima cúpula mundial sobre mudança climática, em dezembro no México, para ajudar a vencer a resistência dos países poluidores, concluíram delegados indígenas de 14 países americanos reunidos na capital peruana. “A América Latina se caracteriza por levar várias vozes às cúpulas, há muitas posições e isto torna o processo mais lento. As demais nações dizem que já não têm paciência com nossa região, por isso devemos nos unir para poder influir mais e melhor”, reconheceu Hortência Hidalgo, indígena aymara do Chile, no auditório da reunião de dois dias encerrada na terça-feira. O Enlace Continental de Mulheres Indígenas – Região Sul-Americana, o Conselho Indígena da América Central (Cica) e o Chirapaq – Centro de Culturas Indígenas do Peru convocaram uma centena de delegados, para analisar os resultados da 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-15), realizada em Copenhague no mês passado. A Segunda Cúpula Latino-Americana sobre Mudança Climática e Impactos nos Povos Indígenas estudou os desafios para a próxima cúpula do clima no México.
Para isso, representantes de comunidades de Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Estados Unidos, Guatemala, México, Nicarágua, Panamá, Peru e Venezuela se organizaram em grupos de trabalho, com a participação de especialistas, em assuntos de segurança alimentar, nutrição, gênero, adaptação e mitigação da mudança climática, e plano de ação e política. Como resultado deste encontro, o presidente do Cica, Donald Rojas, enumerou à IPS os desafios pendentes: “garantir uma proposta unificada de todas as redes, influir nos governos para que assumam essas proposições, desenhar uma estratégia local e comunitária de adaptação e mitigação da mudança climática, garantir a segurança alimentar e criar uma plataforma indígena para a cúpula do México”.
Na declaração final, os indígenas, articulados em oito redes do continente, disseram que a mudança climática está gerando uma grave crise na segurança alimentar, afeta os conhecimentos tradicionais e vulnera os direitos fundamentais dos povos, principalmente no acesso aos territórios e recursos naturais. Na região andina, a mudança climática se apresenta com eventos extremos como geadas, nevadas e granizo. Também está alterado o ciclo das chuvas e as secas se intensificaram, enquanto as chuvas aumentaram em zonas úmidas produzindo inundações, deslizamentos e perdas de plantações. Também apareceram pragas e doenças, como a dengue e a malária em áreas onde antes não eram registradas. No Peru, onde se concentram 71% das geleiras tropicais, 22% da superfície gelada já se perdeu nos últimos 30 anos.
Em seu texto final, os indígenas propuseram que os Estados tomem decisões considerando a visão dos povos originários como um valor agregado para implementar medidas de adaptação e mitigação, diferenciando o papel das mulheres, dos homens, das meninas e dos meninos nesta luta e nos impactos. Como estratégias e soluções, disseram que continuarão insistindo junto à Organização das Nações Unidas para que crie o Dia Internacional da Mãe Terra, impulsionarão mecanismos de participação para os indígenas nos comitês regionais e nacionais de mudança climática dos diversos países, e insistirão “na participação oficial dos indígenas na Conferência das Partes como membros das delegações de governo”.
Também exortarão o sistema da ONU, os governos, a cooperação internacional e os movimentos sociais a reconhecerem os planos ambientais gerados pelos indígenas, que seja apoiada uma gestão e um uso dos recursos naturais com respeito aos seus direitos, e seja feito um chamado contra as indústrias extrativas que provocam “um efeito nocivo no bem viver da comunidade e em particular na saúde de mulheres, crianças e velhos”. O México “tem de ser diferente de Copenhague. Ali iremos com uma proposta concreta dos povos”, disse à IPS Miguel Palacín, representante da Coordenadora Andina de Organizações Indígenas (Caoi).
Para Palacín e outros dirigentes indígenas, a Conferência Mundial sobre Mudança Climática que acontecerá em abril em Cochabamba, na Bolívia, é fundamental para definir as propostas indígenas. Esta reunião foi convocada pelo presidente Evo Morales. “Em Copenhague, os povos indígenas tinham a esperança de que os países contaminantes tomassem decisões, mas isso não se deu, o que nos desanimou no início. Mas o presidente Morales nos disse que deveríamos continuar lutando até sermos ouvidos e é o que fazemos”, disse à IPS Juvencia Huarachi, secretária de Defesa Sindical da Conferência Nacional de Mulheres Camponesas Indígenas Originárias da Bolívia Bartolina Sisa.
Os quatro grupos de trabalho fizeram recomendações mais concretas em suas diversas áreas. O de segurança alimentar e nutrição propôs que as comunidades indígenas trabalhem com sementes próprias para que se adaptem às variações climáticas, que sejam regatados os conhecimentos ancestrais e que os povos tenham suas próprias reservas de alimentos para dois anos diante de qualquer emergência climática. Para as organizações indígenas, qualquer estratégia de segurança alimentar deve incorporar a visão indígena e um enfoque de gênero.
O grupo de gênero ressaltou que deve-se conseguir que homens e mulheres cumpram um papel complementar na luta contra o aquecimento global, que sejam considerados os impactos diferenciados em mulheres e crianças na vida diária. “As mulheres lutam hoje mais do que nunca para conseguir o alimento para suas famílias. A água é escassa, e devem caminhar por horas expondo-se aos perigos”, disse à IPS Librada Pocaterra, indígena wayuu da Venezuela, que garantiu que, em 2009, não choveu em sua comunidade por causa da mudança climática e que as secas aumentaram.
“Até agora, as decisões para deter a mudança climática continuam sendo adiadas, porque os governos têm uma visão do desenvolvimento muito econômica que não valoriza a conservação dos recursos naturais”, disse à IPS Pacha Cabascán, quichua do Equador e responsável pelos temas indígenas e afrodescendentes da Comunidade Andina de Nações (CAN). “Nenhum povo europeu pode sobreviver sem a batata e nenhum povo do mundo sem o milho maia. Não poderemos sobreviver à mudança climática sem esse conhecimento ancestral”, afirmou na segunda-feira Freddy Ehlers, secretário-geral da CAN durante a abertura da cúpula em Lima. IPS/Envolverde

