Fórum Social Mundial: Adeus à autorreferência?

Porto Alegre, 28/01/2010 – Ninguém constroi um mundo novo dando as costas à velha política e suas ideias, foi o singular consenso surgido em uma das mesas-redondas do seminário “Dez anos depois”, do Fórum Social Mundial (FSM), que acontece esta semana em Porto Alegre. É que não estava no programa a crítica à autorreferência, essa mania que têm os que querem uma nova sociedade olhando apenas para si mesmos, esquecendo que é preciso converter a grande maioria dos não convertidos. Isso surgiu naturalmente entre os membros da mesa de debate sobre conjuntura política. Ao longo de três horas, o norte-americano Michael León Guerrero, a brasileira Nalu Farias, o boliviano Gustavo Santiesteban e o francês Bernard Cassen se referiram a ela, ao falarem para cerca de 350 pessoas, reunidas no antigo armazém 6 do porto da capital gaúcha, transformado há anos em um espaço para eventos culturais. Os três primeiros vivem em sociedades submersas em processos de mudanças cheias de contradições, e por isso mesmo desafiantes. Cassen, por sua vez, critica a autorreferência há anos, desde o Conselho Internacional do FSM.

No papel de um dos articuladores da Aliança pela Justiça Mundial e do Fórum Social dos Estados Unidos, Guerrero foi o primeiro a falar. Não evitou o tema sobre o qual se esperava que falasse, os limites e as decepções do primeiro ano do governo de Barack Obama. Guerrero descreveu a miséria das medidas para recuperar a economia, voltadas principalmente para salvar os grandes bancos que causaram a crise, e destacou a gravidade do drama social: desemprego de até 17% (considerando os que já deixaram de procurar trabalho), milhões de famílias expulsas de suas casas, e 36 dos 50 Estados da federação em mora.

Além disso, destacou o continuísmo na política externa dos Estados Unidos, refletido na tolerância com o governo golpista de Honduras e na incapacidade de apresentar uma proposta aceitável de redução das emissões de dióxido de carbono na cúpula sobre mudança climática de dezembro, em Copenhague. Mas, foi além. “Seria injusto culpar apenas o presidente. Devemos investigar porque os próprios movimentos sociais ainda não são capazes de aproveitar as oportunidades que se abriram há um ano”, disse.

A eleição de Obama foi fruto do desejo de revisar as ideias e políticas que prevaleceram no mandato de seu antecessor, George W. Bush. Mas uma coisa é depositar na urna um voto pela mudança, e outra é vencer o grande poder dos conservadores em todos os espaços dos Estados Unidos, acrescentou Guerrero. A debilidade dos movimentos está, segundo disse, em não ter articulado uma mobilização social suficiente para se contrapor a este poder. A direita, paralisada até o final do ano passado, recuperou seu ânimo e promove encontros em todo o país, nos quais denuncia a suposta “socialização” promovida por Obama.

“Onde estamos, enquanto isso ocorre?, perguntou Guerrero. A mensagem foi clara e pode ter eco em outras realidades: queremos transformação social, podemos depositar as esperanças nas mãos de um único governante? É justo atribuir a este as insuficiências da sociedade civil?, acrescentou.

Nalu Farias, coordenadora da Marcha Mundial das Mulheres no Brasil, falou em seguida e destacou os avanços políticos na América Latina. “O capitalismo tem um enorme poder de regeneração, mas em nossa região estamos conseguindo vencê-lo em batalhas importantes”, disse.

Ela se referia especialmente à derrota da Área de Livre Comércio das Américas (Alça), idealizada por Washington, “alcançada porque os movimentos souberam se unir a partir do Fórum Social Mundial”. Também destacou a distância que há ainda entre o mundo proposto pela sociedade civil e o ponto até onde podem, ou querem, avançar os governantes. “Por isso é necessário seguir pressionando os governos, inclusive os progressistas”, destacou, acrescentando que o FSM deve cumprir melhor o papel de articulador dessas pressões.

Por sua vez, o boliviano Santiesteban, do Centro de Estudos Aplicados aos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (Ceadesc), expôs aspectos pouco conhecidos no imaginário da esquerda sobre o governo de seu país, conduzido pelo aymara Evo Morales. “Me orgulho de ser contemporâneo do primeiro presidente indígena de meu país, que também está dando à Bolívia uma projeção internacional inédita”, destacou. Porém, Santiesteban vê na política econômica boliviana as marcas do industrialismo e do consumismo.

“O maior projeto do presidente é o IRSA, ume enorme rede de integração física da América Latina que ameaça terras, culturas e direitos coletivos dos povos da Amazônia”, disse para surpresa dos que veem em Morales apenas promotor do “bem viver” tradicional das comunidades indígenas. Mesmo assim, deve-se ir além da simples denúncia, disse o ativista. “Devemos reconhecer que o industrialismo e o consumismo estão no coração de nossos povos, e não apenas nos planos de nossos governantes. Apenas por meio de um debate cultural profundo e prolongado será possível difundir outros modelos de vida”, acrescentou.

O último a falar foi o francês Bernard Cassen, do Fórum Mundial das Alternativas, que insistiu na promoção, que faz desde o Conselho Internacional do FSM, de uma nova relação entre os movimentos sociais e os governos progressistas. Cassen partiu de uma análise das mudanças mundiais produzidas desde 2001.”Quando nos reunimos pela primeira vez em Porto Alegre, era fácil identificar o inimigo: quase todos os governos, as instituições financeiras multilaterais e, à frente de todos, os Estados Unidos”, recordou.

Tudo isso mudou. “Atolado no Iraque e Afeganistão, Washington está percebendo que não basta o poder militar para ganhar guerras. No plano geopolítico, surgem China e Índia como potências, e o G-20 (grupo dos 20 países industrializados somados a economias emergentes) substitui o G-8 (grupo dos Oito países mais ricos). Mas, as mudanças ocorrem dentro do capitalismo, não contra ele. O surgimento na América Latina de uma série de governos progressistas reduz o poder norte-americano não só no plano mundial, mas em sua esfera tradicional de influência”, disse Cassen.

Diante dessas transformações, o FSM deve permanecer como um espaço hierárquico aberto a toda sociedade civil, disse. “Mas, além dos fóruns, é possível criar outras alianças. Elas incluirão movimentos sociais que quiserem avançar um pouco mais e governos dispostos a somarem-se a eles”, disse Cassen. Em favor de sua hipótese, recorreu a um exemplo histórico. “Aldo Moro, o primeiro-ministro italiano dos anos 70, falava em convergências paralelas. Ele acreditava que, embora sua Democracia Cristã e o Partido Comunista tivessem objetivos distintos, determinadas propostas poderiam atender, por motivos diferentes, os interesses de ambos. Não vejo motivo para não tentar buscar pontos que nos unam com os governos progressistas nestas condições”, concluiu. IPS/Envolverde

Antonio Martins

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