Porto Príncipe, 20/01/2010 – O sol apenas se põe no Haiti e os moradores da rua Berne já preparam suas camas improvisadas, dispostas cuidadosamente em um lado da rua, longe dos muros inseguros. Os homens levantam barricadas, deixando espaço suficiente para passagem de um veículo. Logo compartilham tudo o que têm: pasta de arroz com arenque defumado. Pouco depois, as mães colocam seus filhos para dormir enquanto ouvem as notícias em rádios que funcionam com bateria e, aos poucos, o grupo começa a dormir. “As ruas se converteram em nosso lar, como os cachorros de rua que costumávamos perseguir com paus e pedras”, diz Herold Joseph, que nasceu e se criou neste velho enclave de classe média. Joseph morava em uma casa com teto de lata, que agora está mais precária do que nunca, como quase todas as outras da rua Berne, uma das ruas afetadas pelo terremoto de sete graus na escala Richter, que destruiu quase totalmente Porto Príncipe.
Já foram recuperados 50 mil cadáveres, mas estima-se que os mortos passem de cem mil. A miséria é descomunal. Calcula-se que três milhões de haitianos perderam totalmente suas casas e outras moradias estão muito inseguras para que as pessoas retornem a elas, o que transforma esta cidade em um abrigo gigante de pessoas sem teto. O cenário da rua Berne é semelhante ao registrado em cada bairro desta capital rodeada por suaves montanhas.
Em vários aspectos, os moradores da rua Berne estão em melhor situação do que muitos outros que, não encontrando amigos nos quais se amparar, buscam abrigo nos pátios de prédios governamentais, como o escritório do primeiro-ministro e a Rede de Televisão Nacional, conhecida pela sigla em francês TNH. Precisamente a TNH faz uma cobertura ao vivo do que ocorre em seu próprio pátio, para aonde várias pessoas levaram colchões ou farrapos para terem onde dormir.
“A nossa tem sido a melhor cobertura de televisão”, disse Pradel Henriques, diretor geral da emissora. “Deve-se lembrar que o resto do país, particularmente a área que fica ao norte de Porto Príncipe, tem eletricidade, e somos o único canal que cobre toda a nação”, acrescentou. Henriques está preocupado pela possibilidade de não poder continuar realizando esse trabalho por falta de equipamentos e porque alguns estão estragando e, além disso, está ficando sem fitas.
Contudo, ao contrário do que ocorre na rua Berne, estes moradores são permanentes nesses abrigos improvisados, sem outro lugar para ir durante o dia. Este é seu lar. Como os poucos hospitais que ainda funcionam estão saturados de cadáveres, estas esplanadas de prédios públicos se converteram em improvisados centros de saúde. Médicos haitianos e estrangeiros fazem partos, principalmente prematuros, induzidos pela comoção sofrida pelas mães. Os médicos suturam feridas e preparam gesso para as fraturas.
“É muito triste”, disse Fernando Gómez, médico dominicano que pediu ajuda a Henriques para levar até a fronteira dominicana uma grávida que estava no pátio da TV, a fim de submeter-se a uma cesariana. “Estamos contentes em poder ajudar nossos vizinhos nesta tragédia”, disse Gómez. O médico contou que trabalha quase sem parar, indo de escritórios do governo a centros de saúde para tratar dos feridos. “Fazemos o melhor que podemos”, diz, com certa resignação.
Embora tenha sido um desastre natural, os problemas políticos e a pobreza tiveram um papel importante na dimensão da calamidade. Nas últimas quatro décadas, Porto Príncipe, antes uma bucólica cidade onde havia grande número de profissionais, se converteu em uma favela gigante, com construções irregulares e bairros improvisados. A degradação começou no início dos anos 60, quando o ditador François “Papa Doc” Duvalier (1964-1971) passou a levar muitos camponeses para a capital, a fim de que o saudassem diante dos dignatários estrangeiros que visitavam o país.
Mas o sinistro Duvalier só deu passagem de ida, e os camponeses tiveram de ficar, abandonando suas terras. Assim, foram criados bairros como o tristemente célebre Cité Soleil. Uma vez ali, os camponeses ergueram barracos de lata, usando cimento mal misturado e sem nenhuma ligação com redes de eletricidade e saneamento. Com o passar dos anos, a população de Porto Príncipe, cidade construída para abrigar 200 mil habitantes, saltou para quase dois milhões. Este número é uma estimativa, já que em quase três décadas não foi realizado nenhum censo.
“Digo isto há anos. Mas não tenho ‘pedigri’ adequado, então não me levam a sério”, queixou-se o geólogo Mathurin. Entrevistado na Rádio Signa FM, Mathurin disse que um estudo da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos, havia previsto o terremoto uma semana antes de o Haiti ser atingido. Também afirmou que, de certa maneira, o Haiti tem sorte, já que, na realidade, foram dois os sismos que o afetaram, mas suas rotas se cruzaram, limitando o impacto. “Tivemos sorte de receber as réplicas em lugar dos outros terremotos que se seguiriam”, disse.
Quando amanhece, os moradores recolhem suas camas improvisadas e as levam para os quintais, liberando as ruas. Se lavam, escovam os dentes e tentam viver uma vida normal. Ao ser perguntado quanto tempo vai viver nas ruas, Joseph responde “muito tempo”. Ele e outros homens saem como se fossem para o trabalho. Porém, sua tarefa é observar os escombros. Isto é, o que resta de sua amada cidade. IPS/Envolverde
* Especial para a IPS do The Haitian Times.

