Bangcoc, 14/01/2010 – “Outro mundo é necessário” para enfrentar a mudança climática, segundo Nicola Bullard, integrante do conselho internacional do Fórum Social Mundial, que realizará este mês em Porto Alegre um dos capítulos de 2010, ano em que o FSM completa 10 anos de criação nesta mesma cidade.
“Somos capazes de construir nosso próprio discurso, nossa forma de pensar, nossa legitimidade”, acrescentou esta cidadã australiana que integra o conselho internacional do FSM desde sua fundação em janeiro de 2001. “Definitivamente, é uma alternativa à elite, que constrói seus próprios espaços todo o tempo. O FSM continua sendo relevante hoje em dia”, afirmou. O movimento social evoluiu, assumindo novos problemas que surgem com o passar do tempo, como a preocupação pela mudança climática, que domina os debates sobre a justiça econômica.
Este ano, o FSM realizará uma série de encontros entre os dias 22 e 29 deste mês em Porto alegre e outras localidades do Rio Grande do Sul, em comemoração ao seu aniversário. Também haverá atividades nas mesmas datas em Salvador, Benin, Madri, Stuttgart e outras partes do mundo. “Outro mundo é necessário” para lidar com a atual crise ecológica, disse Bullard, formada pela Universidade de Melbourne e que trabalhou em comércio internacional, direitos humanos e assuntos da mulher na Austrália, Tailândia e Camboja.
A IPS entrevistou Bullard em seu escritório na capital da Tailândia.
IPS – O FSM deste mês no Brasil será um marco. O movimento tem muito que comemorar?
Nicola Bullard – Absolutamente. Quando realizamos o primeiro FSM em 2001, ninguém imaginava que em 2010 haveria mais de 40 fóruns sociais diferentes planejados para seu décimo ano. Definitivamente, é um momento para celebrar e também refletir sobre o que alcançamos e não alcançamos, e para ver o que temos de fazer daqui em diante. É particularmente oportuno devido ao que ocorreu em Copenhague em dezembro durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-15). Há um ressurgimento, um empuxe para a justiça econômica que surgiu durante as conversações. Existe uma energia nova, um desafio novo sobre o qual o FSM pode trabalhar. IPS – Quais os êxitos do FSM na última década?
NB – A ideia de que o FSM é na realidade um espaço nosso. Não é um espaço para o protesto nem criado em resposta a um evento oficial, como as reuniões da OMC (Organização Mundial do Comércio) ou do FMI (Fundo Monetário Internacional), onde nos reunimos de maneira paralela. É um espaço físico e político criado por e para nós, e a ordem do dia é nossa. É um processo de baixo para cima.
Em segundo lugar, o FSM cresceu muito nesse período, através de muito pensamento crítico e de um processo bastante aberto. Há diferentes tipos de eventos, de pessoas que participam, de diversidade de temas, e a intenção muito forte de ter um processo participativo bastante horizontal e inclusivo.
IPS – Tentou-se medir esse sucesso. Há êxitos concretos vinculados ao FSM dos quais se possa orgulhar?
NB – Esse é o debate sem fim que temos porque alguns argumentariam que o impacto do FSM deveria poder ser medido segundo as mudanças políticas reais na prática, e que o FSM deve ser mais estratégico, com objetivos claros. Porém, outros argumentariam que o FSM é um espaço aberto e que aí está sua força e particular beleza, onde sindicatos e pessoas de organizações políticas ou povos indígenas podem se reunir para compartilhar ideias e gerar pontos de vista e uma linguagem em comum.
Mas houve um grande impulso na forma como o FSM se colocou contra as sessões do Fórum Econômico Mundial de Davos. Durante essas reuniões o FSM foi visto como um evento alternativo que acontecia no Sul e onde a ordem do dia era muito diferente da discutida em Davos. O fato de que mais dirigentes políticos queiram integrar o FSM demonstra que é um lugar importante para eles.
IPS – Falando de Davos, onde os chefes do comércio internacional se reúnem nessa cidade suíça para planejar a economia mundial, passemos para a crise financeira internacional. O FSM teve pouco a ver com o ocorrido, mas, há algo desta crise que pode beneficiá-lo?
NB – Creio que se deve reconhecer o fato de os detratores do sistema financeiro mundial estarem tão à mão, porque acadêmicos, escritores e ativistas falaram por anos sobre estes temas. De repente, os meios de comunicação recorriam a eles. Nesse sentido, as análises e as críticas que surgiam do FSM repentinamente encontraram eco no âmbito político.
IPS – Outro tema no qual o FSM pretendeu deixar sua marca foi a oposição à guerra no Iraque iniciada pelo ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush. Definitivamente, vocês não conseguiram impedir a invasão norte-americana.
NB – O FSM foi um mecanismo importante para que o dia de ação contra a guerra no Iraque, realizado em 15 de fevereiro de 2003, fosse um protesto tão forte. O FSM proporcionou uma espécie de legitimidade às ações internacionais contra a guerra. Foi importante para tirar legitimidade do conflito.
IPS – A preocupação internacional atual, como a senhora mencionou, é a mudança climática. Está previsto para a ordem do dia do FSM no Brasil este mês. Como será abordada?
NB – O FSM sempre disse que “Outro mundo é possível”, o que nos diz a mudança climática é que “Outro mundo é necessário”. É evidente que a crise ecológica é um problema sistêmico. Quanto às alternativas, creio que até o momento muitos grupos do FSM se concentram na economia. Devemos ampliar isso para incluir o contexto ecológico e construir redes com os movimentos indígenas e outros setores com os quais não trabalhamos antes.
Também creio que este será um desafio interessante para a esquerda tradicional, que tinha uma perspectiva relativamente materialista, ou de alguma maneira acreditava na ideia de que o desenvolvimento implica progresso. Mas a crise ecológica é um verdadeiro desafio a esse ponto de vista. Que sentido tem o desenvolvimento se o preço é a destruição absoluta do ecossistema?
IPS – O FSM é realmente mundial após 10 anos de criação? Tem muitos seguidores na Ásia?
NB – Até o momento o FSM continua sendo um processo dominado por europeus e latino-americanos. Tivermos fóruns sociais muito bons na Ásia em lugares como Coreia do Sul, Índia, Paquistão e Tailândia. Mas, não creio que o FSM tenha criado raízes profundas na região. Mas essa é minha impressão. (IPS/Envolverde)
IPS – Por que?
NB – Na América Latina existe uma unidade pela experiência em comum e os dois idiomas que unem setores amplos do continente. Na Ásia isso é difícil por seus numerosos idiomas, seu tamanho e sua diversidade. (IPS/Envolverde)


