IÊMEN: Nova frente de guerra dos EUA

Washington, 08/01/2010 – Após o frustrado atentado contra um avião norte-americano no dia de natal, os Estados Unidos prometeram aumentar a ajuda militar ao Iêmen, onde o terrorista teria sido treinado. O Estado iemenita encontra-se há tempos à beira do colapso, açoitado por corrupção, violência e pobreza. Mais de uma década após sua guerra civil e a reunificação, um movimento seccionista no sul ainda ameaça a estabilidade enquanto continua a insurgência em sua fronteira norte com a Arábia Saudita, liderada pela poderosa milícia xiita Houthi.

Mas Washington quer que o governo do presidente Ali Abdallah Saleh se cncentre o combate à rede radical islâmica Al Qaeda, a qual o próprio Barack Obama responsabilizou pela tentativa de atentado por parte de um nigeriano que viajava em um vôo comercial de Amsterdã para Detroit. “A Al Qaeda na península arábica o treinou, o equipou com esses explosivos e ordenou que atacasse um avião que se dirigia aos Estados Unidos”, disse Obama no domingo. “Então, como presidente, escolhi como prioridade fortalecer nossa sociedade com o Iêmen”, acrescentou.

Para empurrar Saleh à ação, funcionários de Washington anunciaram que duplicarão o atual pacote de ajuda militar e segurança ao Iêmen. O general David Petraeus, chefe do Comando Central, reuniu-se com Saleh na última sexta-feira em Sanaa. “É sabido: tivemos US$ 70 milhões em ajuda à segurança no ano passado. Isso mais do que duplicará no próximo”, disse Petraeus. Washington também prevê entregar US$ 63 milhões em ajuda ao desenvolvimento, afirmou na segunda-feira o porta-voz do Departamento de Estado, Ian Kelly.

Isto é muito mais do que os US$ 8,4 milhões dados em 2008 pelo governo de George W. Bush, e um pouco mais do que os US$ 40,3 milhões concedidos no ano passado. A Al Qaeda tem uma espécie de filial na península Arábica criada formalmente em 2009 com a consolidação de dois grupos separados da rede na Arábia Saudtia e no Iêmen. Foi desde as áreas tribais ienemitas que os combatentes da Al Qaeda lançaram seu primeiro ataque contra interesses norte-americanos no Golfo: o atentado com bomba, em 2000, contra o navio de guerra USS Cole, no qual morreram 13 militares.

Essa filial da Al Qaeda se fortaleceu nos últimos anos, particularmente após a fuga em fevereiro de 2006 de 23 combatentes em Sanaa, incluindo seu líder, Nasser Abdul Karim al Wuhayshi. Suas fileiras ampliaram-se com o alistamento de ex-presos ienemitas e sauditas da prisão de Guantânamo, repatriados e submetidos aos programas estatais de “desradicalização”. Entre eles Said Ali al Shiri, que acredita-se ser o segundo de Wuhayshi.

A Al Qaeda concretizou alianças com vários grupos tribais que historicamente desafiam o governo central iemenita, e parece disposta a explorar a deterioração da autoridade, que atualmente não vai além da capital. Com o forte estímulo de Washington, o presidente Saleh teria enviado 10 mil soldados no final de semana contra supostos bastiões da Al Qaeda no leste da capital. Na segunda-feira teriam ocorrido vários combates. Esta nova campanha seguiu-se a uma série de ataques aéreos norte-americanos e iemenitas nos dia 17 e 24 de dezembro, nos quais teriam morrido combatentes da Al Qaeda. Testemunhas dizem que a maioria dos mortos no primeiro ataque foi de mulheres e crianças.

Analistas acreditam que a nova ofensiva é o último exemplo do equilíbrio praticado por Saleh, que recebe forte apoio do Ocidente e da Arábia Saudita enquanto persegue apenas combatentes islâmicos sem status hierárquico, para não ofender influentes chefes tribais cujo apoio precisa para manter o poder, mas que também são aliados da Al Qaeda. Saleh mantém vínculos com vários grupos militares sunitas, os quais convocou para lutar contra um movimento seccionista do sul em 1994, muitos deles veteranos combatentes contra a ocupação soviética no Afeganistão. Alguns desses grupos simpatizam com a Al Qaeda.

Diante da insurgência houthi no norte e do crescimento movimento seccionista no sul, o governo do Iêmen “está preocupado em manter Saleh no poder a qualquer custo”, escreveu esta semana o analista sobre o Oriente Médio Mark Lynch em seu blog Foreign policy.com. “O governo iemenita, sem dúvida, estará feliz de tomar dinheiro norte-americano e internacional para apoiar um ataque aos seus inimigos, mas, não espero que isso sirva para que façam o que queremos que façam”, afirmou.

Saleh, cujo governo enfrenta uma queda na renda com petróleo e um crescente desemprego, recebe ajuda-chave também da Arábia Saudita. Os sauditas, dispostos a exercerem sua influência regional enquanto, ao mesmo tempo, enviam uma mensagem à sua própria população xiita, apoiam operações militares contra os rebeldes houthi e dão assistência financeira de US$ 2 bilhões.

Em um informe divulgado no mês passado, o Centro Para Uma Nova Segurança Norte-americana alertou que o Iêmen, o país árabe mais pobre, “encontra-se no fio da navalha”. O Centro também exortou Washington a aumentar significativamente tanto a ajuda militar quanto a destinada ao desenvolvimento, como parte de uma estratégia contra-insurgência que assegure a sobrevivência do Estado e acabe com a ameaça da Al Qaeda. (IPS/Envolverde)

Charles Fromm

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