Palestina: “O hamas não está acabado”

Ramala, Palestina, 20/01/2010 – Quando Omar Abdel-Razeq foi nomeado ministro das Finanças, depois da vitória do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) nas eleições de janeiro de 2006, a rede britânica BBC disse que tinha “o cargo menos invejável” no novo governo. Este professor de Economia foi um dos 15 palestinos eleitos para o parlamento enquanto se encontravam presos em Israel. Detido sem acusação formal, foi libertado pouco depois de sua designação. Muito antes de dedicar-se a resolver o grande déficit orçamentário criado pelo cerco a Gaza e pelo boicote internacional contra o Hamas, Abdel-Razeq foi detido novamente, em junho de 2006, junto com outros 64 altos funcionários do movimento, incluindo vários ministros e mais de 40 membros eleitos do Conselho Legislativo Palestino (CLP). Abdel-Razeq conversou com a IPS, de seu escritório em Ramala.

IPS: Israel vinculou sua prisão de junho de 2006 com a captura de um soldado israelense em Gaza…

Omar Abdel-Razeq: Sim, fomos presos por esse incidente. Mas não podiam falar sobre isso no sistema de tribunais militares. Nos acusaram de sermos membros de uma lista eleitoral, de participar de reuniões do CLP e de sermos ministros de um governo “a serviço” do Hamas. No meu caso, ser ministro das Finanças era uma tarefa técnica, não política.

IPS: Teria sido possível para o governo do primeiro-ministro palestino, Salam Fayyad, na Cisjordânia tomar o controle sem essas prisões dos membros do CLP?

OAR: Não. Um dos objetivos do governo israelense era distorcer os resultados das eleições. O movimento islâmico ganhou uma maioria, e supõe-se que deveria governar os territórios por quatro anos. Assim, interferiram levando à prisão 42 membros do CLP.

IPS: Quanto às forças de segurança palestinas, que passaram para as mãos do general norte-americano Keith Dayton, ainda recebem informes de maus-tratos ou torturas de parte da população?

OAR: Bem, há um problema com a definição de tortura aqui. Em outubro, foi divulgado um decreto presidencial contra essa prática. Lamentavelmente, a definição de tortura se refere apenas a pressão física severa, bater ou pendurar pelos pés, etc. Entretanto, são praticadas torturas que as forças de segurança não consideram como tal. Por exemplo, podem amarrar suas mãos às costas e colocá-lo em uma cadeira por 12 ou 15 horas. Também podem amarrar suas mãos e te pendurar. Há, ainda, especialmente em dias frios de inverno, em que confiscam lençóis e colchões. Obrigam as pessoas a ficarem de pé por horas, e não as deixam dormir durante dias, e isso não é considerado tortura.

IPS: Ainda há ataques contra a infraestrutura do Hamas, no contexto do que Israel chama de Estratégia Dawa?

OAR: Não sei se tem mais o que atacar. Acabaram com a infraestrutura do Hamas. Naturalmente, quando falamos de infraestrutura falamos de sociedades, cooperativas e instituições que existiam para ajudar os pobres e órfãos, bem como as famílias dos prisioneiros. Isto, obviamente, afetou muito gravemente essa parte da sociedade civil.

IPS: E essa estratégia funcionou?

OAR: Funcionou no sentido, como você disse, de que não se pode encontrar alguém que fale em nome do Hamas se você é jornalista. Não pode encontrar um representante para que fale em um seminário. Houve êxito em impedir todas as atividades, por exemplo, nos campus universitários. A beneficência foi paralisada. Isto afetou o movimento. Então, tiveram êxito com isso. Mas, se falarmos sobre o movimento, não está acabado, não.

IPS: Estamos a caminho da terceira Intifada?

OAR: Não pela situação econômica. Pelas políticas israelenses em Jerusalém, talvez, ou pela política de Israel sobre os assentamentos, ou pelo fracasso do (partido secular) Fatah e da Autoridade Nacional Palestina em conseguir os objetivos nacionais palestinos. O presidente palestino, Mahmoud Abbas, está decidido a que o único caminho, a única via alternativa que temos, são as negociações. Portanto, não permite que ninguém mais expresse suas opções, incluindo a resistência civil. Não estou nem mesmo falando sobre um levante militar. Após o sítio a Gaza, depois das práticas da Autoridade contra os movimentos de resistência, um levante militar será muito difícil. Mas, mesmo o levante civil é impedido pela Autoridade. Não acontecerá.

IPS: Se houver reconciliação em nível político, é possível que membros do Hamas se integrem ao exército que Dayton está formando, para torná-lo mais legítimo?

OAR: Na Cisjordânia, buscamos integrar as forças de segurança. Queremos que estas protejam o povo, junto com a polícia e o sistema judicial. E, em segundo lugar, acabar com a cooperação com os israelenses, deixar de combater a resistência. Estamos sob ocupação, e enquanto ela continuar é direito resistir. Agora, se há resistência, ou não, é outro assunto, mas o direito existe. Não cremos que uma oposição ou luta contra a resistência dos palestinos contribua para a causa palestina.

IPS: Qual o próximo passo? Pode haver eleições?

OAR: Sem reconciliação entre Fatah e Hamas, não creio que eleições tenham sentido. O Hamas vai participar de eleições só depois de uma reconciliação. Mas, em minha opinião, não é a solução. Tivemos eleições. Foram muito justas e transparentes. Foram elogiadas por todos, mas ninguém aceitou o resultado. Podemos ter eleições amanhã, mas não seria bom se o mundo não aceitar o resultado. A menos, claro, que as eleições sejam projetadas para que os resultados estejam alinhados com o que querem os Estados Unidos e o Ocidente. IPS/Envolverde

Jon Elmer

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