Washington, 15/01/2010 – Os suicídios entre os veteranos de guerra dos Estados Unidos aumentaram 26% entre 2005 e 2007, segundo estatísticas oficiais. Dos mais de 30 mil casos registrados neste país a cada ano, 20% são de ex-combatentes, disse aos jornalistas esta semana o secretário do departamento para Assuntos de Veteranos (AV), Eric Shinseki. “Isto significa que a cada dia cerca de 18 veteranos de guerra se suicidam, dos quais cinco estão sob nossa atenção no AV”, reconheceu.
O aumento na taxa de suicídios pode ser claramente atribuído às guerras no Afeganistão e Iraque, e ao alto número de veteranos que regressam aos Estados Unidos com desordens de estresse pós-traumático. “Temos hoje cerca de dois milhões de veteranos do Iraque e Afeganistão, e ainda não vimos o tipo de mobilização de recursos necessária para encarar uma epidemia de suicídios de veteranos”, disse à IPS o jornalista Aaron Glantz, editor do New America Media e autor do livro “The War Comes Home” (A Guerra Volta para Casa).
Autoridades da saúde disseram que as múltiplas missões realizadas por muitos soldados norte-americanos no Afeganistão e Iraque supõem uma pressão diferente à de guerras anteriores. “A lamentável verdade é que o desafio real começa quando estes homens e mulheres voltam para casa e devem adaptar-se à vida diária”, disse o legislador Michael McMahon, co-fundador do Caucus das Feridas Invisíveis no Congresso.
“O Departamento de Defesa e o AV devem estar preparados com o pessoal e os fundos apropriados para analisar cenários psicológicos após o retorno de soldados com profissionais da saúde mental”, afirmou. Evidentemente, os questionários usados atualmente simplesmente não só suficientes. Quantos homens e mulheres jovens morrem antes de receberem a necessária atenção mental?”, acrescentou.
O AV estima que em 2005 a taxa de suicídio para cada cem mil veteranos entre homens de 18 a 29 anos era de 44,99%, mas saltou para 56,77% em 2007. um informe da Corporação Rand do ano passado conclui que pelo menos 20% dos veteranos do Afeganistão e Iraque mostravam sintomas de desordem de estresse pós-traumático ou depressão. “Às vezes me pergunto, e a outros também, por que sabemos tanto sobre suicídios mas fazemos tão pouco para preveni-los”, disse shinseki.
O AV foi criticado por grupos de veteranos em abril de 2008, quando mensagens via e-mail do chefe de saúde mental desse departamento, Irã Katz, mostravam que o escritório pretendia dissimular o número de suicídios. Sob o governo de Barack Obama, a forma de tratar o problema dos suicídios parece ter mudado, com maior enfoque na transparência. O AV realiza esta semana uma conferência de três dias sobre o assunto. No ano passado, Obama anunciou aumento de US$ 25 bilhões no orçamento desse departamento para os próximos cinco anos. Embora o dinheiro fosse bem recebido, muitos ainda estão preocupados com o fato de a continuação da estratégia militar no Afeganistão e Iraque representar mais pressão sobre o AV e sua capacidade de tratar os soldados que retornam ao país.
“A primeira Guerra do Golfo (1991) acabou em questão de meses. A guerra do Afeganistão dura nove anos, e a do Iraque sete. Há dois milhões de veteranos, a maioria tendo servido em múltiplas missões”, disse Glantz. “Isto significa que os militares nunca sofreram a pressão que têm hoje. Nem mesmo no Vietnã, quando foram recrutados e a maioria dos soldados apenas serviu em uma missão. No Iraque e Afeganistão, todos estão na frente de batalha todo o tempo. Inclusive estar em um veiculo e se dirigir de uma base a outra é extremamente perigoso”, acrescentou.
Shinseki citou o fato de haver 18 suicídios de veteranos de guerra por dia, cinco deles sob a atenção do AV, com evidência de que os esforços do escritório não dão resultados. Também aumentaram os suicídios entre pessoal da ativa. Foram registrados 147 casos no Exército entre janeiro e novembro de 2009, contra 127 no mesmo período de 2008. Entre os reservistas, foram registrados 50 suicídios em 2008, mas o número aumentou para 71 nos primeiros 11 meses do ano passado. (IPS/Envolverde)

