MUDANÇA CLIMÁTICA: Muito trabalho pela frente para a África

Cidade do Cabo, 17/02/2010 – Depois do que consideram um fracasso na conferência sobre mudança climática de dezembro em Copenhague, ativistas da África, um dos continentes mais ameaçados pelo fenômeno, debatem os passos a seguir. Samantha Bailey, coordenadora para a África da Campanha 350, afirmou que a organização de atividades entre os ativistas do continente não é fácil.

No contexto da iniciativa internacional “TckTckTck” contra o aquecimento global, a Campanha 350 realizou uma jornada de mobilização mundial no dia 24 de outubro de 2009, qualificado de o “maior dia de ação política que já existiu”. Incluiu 5.200 atividades em 181 países, exigindo um acordo justo, ambicioso e vinculante contra a mudança climática. A campanha foi lançada nos Estados Unidos pelo jornalista Bill McKibben para pressionar os governos a aceitarem o limite de emissões de dióxido de carbono de 350 partes por milhão.

Nesse dia de outubro, 40 ativistas de toda a África participaram de um acampamento de capacitação sobre mudança climática em Johannesburgo, e as fotografias das ações em todo o mundo foram entregues a líderes da África do Sul, incluindo o presidente Jacob Zuma. Mas Bailey reconheceu que no continente africano foi ”muito mais difícil enviar a mensagem”, o que atribuiu à carência de um consolidado movimento contra a mudança climática, como existe na Austrália ou na Índia. A ativista deu a entender que havia certo afastamento entre os grupos da sociedade civil do Norte e os do Sul, o que provocou forte debate na região.

“Não sei se é porque a Campanha 350 é norte-americana, mas TckTckTck não é fácil de entender. As pessoas não conseguem se identificar com as mensagens”, disse Thabang Ngcozela, líder de vários projetos da sociedade civil para o Environmental Monitoring Group (EMG), que organizou, em janeiro, uma reunião de ativistas contra a mudança climática, na Cidade do Cabo. Ngcozela destacou que as atividades de maior sucesso do EMG foram realizadas em comunidades pobres dessa cidade sul-africana, como Khayelitsha. Um participante do encontro se colocou contra ações convocadas por Internet e telefone celular, explicando que muitas comunidades na África do Sul carecem de acesso a esses meios.

“A mudança climática é um problema maior do que o do HIV (vírus da deficiência imunológica adquirida, causador da aids). Não afetará apenas um grupo, aqueles que estão expostos. É uma ameaça a toda a humanidade e não há nada complexo sobre isso”, disse Nkwame Cedile, do Alternative Information and Development Centre. “Precisamos de uma forte intervenção política nas comunidades, não uma estratégia dirigida a uns poucos”, acrescentou. O ativista também afirmou que as campanhas deveriam evitar as mobilizações que buscam apenas “conscientizar, porque os governos também fazem isso”, e exortou a não ver e não apresentar o problema do aquecimento global como um tema específico, muito difícil de explicar para os mais pobres.

Por sua vez, Ngcozela afirmou que o passo após a fracassada 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-15), de dezembro em Copenhague, deveria ser “construir movimentos democráticos”, em lugar de organizar atividades isoladas. “Não há como responsabilizar nossos governos em fóruns como o de Copenhague, se não podemos responsabilizá-los em casa”, acrescentou.

Mas Tony Brutus, que trabalhou para o Departamento de Assuntos de Água da África do Sul, discordou. Disse aos presentes na reunião da Cidade do Cabo que mesmo as declarações não vinculantes dos governos são valiosas e podem colocar em movimento “determinados processos”. A África do Sul rompeu fileiras com o resto do continente e o Grupo dos 77, que pressionavam por ambiciosas metas para a redução de emissões de gases-estufa e por financiamento para os países pobres, e uniu-se a 25 nações que elaboraram um não vinculante “Acordo de Copenhague” no final da conferência.

Esse acordo compromete a África do Sul a “adotar e reportar ações nacionais de mitigação e a reduzir emissões de gases-estufa”. Os países ricos se comprometeram a tentar arrecadar US$ 100 bilhões ao ano até 2020 para ajudar os países do Sul a enfrentar os efeitos do aquecimento global. “A África do Sul foi parte de um pequeno grupo que queria mudança. O presidente sul-africano, Jacob Zuma, avançou e fez uma declaração que criou problemas com alguns países vizinhos. Assumo que agora virão planos de ação” por parte do governo sul-africano, disse Brutus.

Entretanto, a vários quilômetros da Cidade do Cabo, Desmond D’Sa afirmou que os acordos não vinculantes não funcionam para os habitantes da oriental Durban. D’Sa é coordenador da Aliança Ambiental da Comunidade de Durban do Sul, grupo que exige do governo, há anos, severas leis contra as indústrias que poluem. Para ele, os casos de câncer pela contaminação causada por três refinarias de petróleo e dezenas de fábricas na área seguem lado a lado com o mortal fenômeno da mudança climática.

D’Sa disse que a indústria melhorará seu desempenho apenas se receber apoio do governo. “A indústria pede mais dádivas, mais incentivos dos governos. Querem mais dinheiro dos contribuintes, antes de fazerem algo”, afirmou. A recusa do governo em regular as indústrias contaminantes, mas lucrativas, ficou evidente com o alinhamento da África do Sul no Acordo de Copenhague, acrescentou. IPS/Envolverde

Ann Hellman

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