QUÊNIA: Seguros contra a seca

Nairóbi, 09/02/2010 – As secas na região de Turkana, no norte do Quênia, eram menos intensas quando Laura Letapalel era pequena, e nessa época ainda podia ser encontrada alguma relva e água para os rebanhos. Agora, conta esta pastora, os períodos sem chuva são mais longos e não há nada para comer. Segundo Andrew Mude, economista do International Livestock Research Institute (ILRI), a seca é o maior risco para esses pequenos criadores.

“Isto é especialmente certo no norte do Quênia, onde mais de três milhões de famílias de pastores são afetados por secas cada vez mais severas. Nos últimos cem anos, o norte do país sofreu 28 grandes secas, quatro delas nos últimos dez anos”, explicou Mude. “Em nossa comunidade, o tamanho do rebanho é um indicador da condição econômica. Ultimamente, as drásticas condições climáticas causaram a morte de nossos animais e transformou ricos em pobres”, disse Letapalel.

Esekon Longuramoe, também pastor em Turkana, contou que as más condições climáticas mudaram sua sorte. “Quando cheguei aqui, vi duas coisas bonitas: muita grama e muitos animais selvagens. Era um lindo lugar de pastoreio. Mas agora não chove e perdi cem ovelhas e 50 bovinos”, contou. “Depois de perder todo meu gado, fiquei tão pobre que, ainda que quisesse me mudar, não tenho uma mula para carregar minhas coisas. Teria que pedir uma emprestada”, lamentou Longuramoe.

A questão de como proteger as comunidades que vivem do pastoreio contra os efeitos devastadores da seca foi uma verdadeira dor de cabeça para o governo queniano por muitos anos. Agora, um novo projeto implementado pelo ILRI e seus associados promete ajudar este setor da população. “Milhares de pastores do distrito de Marsabit, uma região árida e remota do norte do Quênia, poderão comprar apólices de seguro para seu gado, graças a um programa pioneiro na África, que utilizará imagens de satélites do pasto e outro tipo de vegetação para indicar se a seca pode causar a morte de camelos, vacas, cabras e ovelhas”, explicou Mude.

A informação obtida via satélite será comparada com os registros de mortalidade do gado na última década para calcular a perda de animais a fim de determinar o valor da indenização. Esse sistema elimina a necessidade de verificar as mortes individuais de animais. O distrito de Marsabit, vizinho de Turkana, dividiu-se em dois setores, segundo o risco. Contratar seguro para os animais de Maikona e Horr do Norte custará 5,5% do valor do gado, enquanto em Laisamis, Loyangalani, Central e Gadamoji, custará 3,25%.

“Acreditamos que este programa tem potencial porque possui os elementos que as seguradoras necessitam: um risco bem conhecido (seca) e um indicador externo verificável, que não pode ser manipulado, neste caso com as imagens via satélite da vegetação”, disse James Wambugu, diretor-executivo da UAO Insurance, a companhia que oferece a cobertura de seguro.

As vendas do plano de seguro começaram em todo o distrito no mês passado. Os prêmios podem ser pagos em filiais do Equity Bank em Marsabit, ou a agentes designados pelo Programa Rede de Segurança contra a Fome, que concede subvenções em dinheiro a 300 mil famílias vulneráveis em distritos áridos do norte do Quênia e está presente na maioria das comunidades de Marsabit. Segundo Mude, neste distrito há cerca de 86 mil cabeças de gado bovino e aproximadamente dois milhões de ovelhas e cabras que dependem da vegetação silvestre para sua sobrevivência.

Só o valor dos bovinos de Marsabit é estimado em US$ 67 milhões, embora os animais raramente sejam vendidos ou colocados para trabalhar. Devido à complexidade deste projeto de seguro, foi criado um jogo de simulação para ajudar as comunidades locais a entenderem as principais características da apólice. Muitos pastores que a usam envolvem-se intensamente, disse Mude. “A simulação os ajuda a compreender como o seguro pode protegê-los contra as perdas. Além disso, parecem se divertir com o jogo, que gera uma discussão muito animada”, acrescentou.

O seguro também servirá para os pastores mesmo que os animais não morram. A apólice poderá ser usada para obter crédito destinado à compra de alimentos ou medicamentos para ajudar os rebanhos a sobreviverem em condições difíceis. O sistema também pode contribuir para ampliar os rebanhos, porque, ao saber que existe um seguro contra o risco de perder animais pela seca, os seguradores privados serão mais inclinados a conceder créditos. O projeto vai durar três anos, durante os quais serão feitos estudos para determinar a sustentabilidade comercial do produto. Se tiver sucesso, será considerada a possibilidade de estendê-lo a algumas partes de Uganda, Etiópia, África ocidental e inclusive Ásia. IPS/Envolverde

Susan Anyangu-Amu

Susan Anyangu-Amu is an advocacy communication and marketing officer for the Child Health Now Campaign, World Vision Kenya. Susan is a seasoned journalist who cut her niche writing about child and maternal health. She lives with her family in Nairobi, Kenya and aside from working in the advocacy development sector, still finds time to write on maternal and child health.

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