REPORTAGEM: El Niño mostra no Peru sua pior face

LIMA, 23/02/2010 – (Tierramérica).- Embora o Peru seja um dos países mais atentos para o fenômeno climático El Niño, parece sem ação diante da violência das chuvas que caem há semanas.

Os restos da aldeia de Piñipampa em Cusco emergem das águas - Roberto Guerrero/Cortesia Oxfam

Os restos da aldeia de Piñipampa em Cusco emergem das águas - Roberto Guerrero/Cortesia Oxfam

A escassa preparação do Peru para prevenir desastres combinou com os desequilíbrios climáticos que a América do Sul sofre e produziu um coquetel que deixa dezenas de mortos e milhares de casas arrasadas pelas chuvas neste país andino. As precipitações causam estragos também no norte do território. Mas o epicentro foi Cusco, ao sul, onde em apenas três dias choveu o que normalmente chove em um mês. Dezessete das 25 regiões peruanas suportam os destroços das chuvas que começaram a cair em dezembro. No fechamento desta edição, o Instituto Nacional de Defesa Civil informava mais de 22.700 pessoas sem teto e mais de 108 mil com danos parciais em suas casas, plantações e outros bens.

As alterações do clima afetam toda a região dos Andes sul-americanos, disse ao Terramérica Elizabeth Cano, responsável pelo programa de redução de riscos de desastres e ajuda humanitária da Oxfam Internacional. No Equador, várias províncias da serra passam por período de seca, no litoral choveu torrencialmente, com pelo menos 11 mortos. Na Bolívia, transbordaram os afluentes do Rio Amazonas, nos departamentos orientais de Beni e Santa Cruz. Por outro lado, a Venezuela sofre uma tenaz falta de chuvas, e no Brasil, Uruguai e Argentina, uma onda de calor chegou acompanhada de intensas chuvas na atual temporada de verão.

A região está sob os efeitos do El Niño/Oscilação do Sul (Enos), que se apresenta periodicamente quando esquentam as águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, com repercussões em todo o mundo. A maioria dos especialistas afirma que sua presença causa precipitações na costa norte do Peru e secas na serra sul. Porém, a julgar pelo El Niño de ciclos anteriores, como 1997/98, também pode causar chuvas intensas em períodos curtos na serra sul, uma região com tendência a secas, disse ao Terramérica o especialista em prevenção de desastres Pedro Ferradas, da organização de cooperação técnica internacional Soluções Práticas ITDG.

As autoridades tomaram medidas na costa norte, mas não foi feito o suficiente para a serra sul, segundo Ferradas. Embora a temporada de chuvas nos Andes ocorra entre dezembro e abril, surpreendeu “a ferocidade” das precipitações em poucos dias, afirmou. No ano passado, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, dos Estados Unidos, e a Organização Meteorológica Mundial previram que esta fase do Enos seria fraca ou moderada. Desde janeiro, morreram sete pessoas em Cusco e outras quatro estão desaparecidas. Além disso, 868 ficaram feridas e dez mil desabrigadas, e mais de seis mil casas foram destruídas.

As estradas que levam ao centro arqueológico de Machu Picchu estão bloqueadas e povoados inteiros permanecem debaixo de lama. O Ministério de Comércio Exterior e Turismo estima que, apenas em Cusco, as perdas econômicas entre janeiro e março superarão os US$ 162 milhões. Desde o dia 16 de fevereiro, rios transbordam na província de Cañete, na região de Lima, sudoeste do país, com mais de 400 pessoas afetadas. Nesse mesmo dia, foi prorrogado por dois meses o estado de emergência nas províncias de Huamang e Huanta, na região centro-andina de Ayacucho, onde em dezembro morreram dez pessoas, vitimas de deslizamento de lama e pedras.

O estado de emergência também vigora no norte. Em La Libertad houve danos no complexo arqueológico de Chan Chan, erguido em barro e declarado patrimônio da humanidade pelas Nações Unidas. Os sistemas de previsão foram superados. O Serviço Nacional de Meteorologia e Hidrologia anunciou chuvas intensas em Cusco para os dias 23, 24 e 25 de janeiro, mas não na dimensão em que ocorreram. “À noite veio o aguaceiro, pegando a todos desprevenidos. De repente, fomos acordados pelos gritos, pelos apitos. Quando percebi, já pisava na água. A primeira coisa que fiz foi tirar meus filhos, e não pudemos retirar mais nada”, contou ao pessoal da Oxfam, Eufemia Araníbar, moradora de 34 anos do bairro Nueva Esperanza, na província de Anta, em Cusco.

As zonas urbanas de Cusco cresceram muito nos últimos anos, “e a população foi instalando suas casas em áreas de alto risco. Os espaços não foram planejados com uma visão de ordenamento territorial, nem feitas obras de mitigação necessárias” disse Cano, a especialista da Oxfam, ao Terramérica. Em razão da descentralização, os governos regionais e locais são responsáveis por prevenir e dar atenção diante de desastres naturais. Cada município deve gerir os recursos por meio de seus comitês de defesa civil, liderados pelos prefeitos. Mas esse traslado de funções, como o estudo das áreas de risco, não costuma estar acompanhado por fundos nem capacitação, afirmam os especialistas.

O secretário técnico de defesa civil do governo regional de Cusco, Luis Ballón, disse ao Terramérica que seu departamento tem um plano de defesa civil até 2021, mas os comitês de distritos e províncias poucas vezes executam o previsto, como muros de contenção em trechos dos rios ou sistemas de alarme, afirmou. “As normas existem, mas não há possibilidades de serem cumpridas”, disse ao Terramérica Gilberto Romero, pesquisador do Centro de Estudos e Prevenção de Desastres.

O governo de Cusco monitora o Rio Sapi, que passa sob o centro histórico da cidade, e faz manutenção para prevenir inundações na área, mas não conta com um plano de desenvolvimento estratégico que inclua outros espaços da região também vulneráveis, disse Cano. O prefeito da província de Anta, Wilbert Rozas, reclama um fundo especial para prevenção e emergências. “Não podemos enfrentar sozinhos um problema global como a mudança climática. Isto tem de mudar, e dever haver uma institucionalidade permanente preocupada com isto”, afirmou.

Os cientistas ainda não estabeleceram se o aquecimento global incide em uma virulência maior do Enos. Porém, segundo Ferradas, há crescentes evidências de que “não só produz maior variabilidade climática como torna mais imprevisível a ocorrência de fenômenos como o El Niño”. Para o diretor da Defesa Civil, general Luis Palomino, o grande obstáculo continua sendo a falta de uma cultura de prevenção. “Hoje são as chuvas, amanhã as geadas. Adotar ações e analisar cada local de risco. Manter contato com as potenciais pessoas afetadas e seguir educando continuam sendo as tarefas pendentes”, reconheceu.

* A autora é correspondente da IPS.

Milagros Salazar

Milagros Salazar comenzó a colaborar con IPS desde Perú en junio de 2006. Sus temas son los conflictos sociales y ambientales, en especial los vinculados a las industrias de la minería, el petróleo y el gas. Forma parte del equipo de investigación de IDL-Reporteros. Trabajó para el diario La República y fue corresponsal y editora de varios medios nacionales, entre ellos Expreso y El Peruano. Nacida en Lima en 1976, Milagros se graduó en comunicación social en la Universidad Nacional Mayor de San Marcos y obtuvo una maestría en derechos humanos en la Pontificia Universidad Católica de Perú. Ha profundizado además en estudios sobre gobernanza política en programas auspiciados por la estadounidense George Washington University.

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